CELULARES A BORDO: SONHO OU PESADELO?
Não nasci na época
Antes da recente invasão de produtos chineses, ilustres marcas européias e americanas dominavam os mercados. Mas com a chegada da eletrônica a evolução dos telefones foi rápida, apesar de não haver muito interesse em mudanças nem de parte dos fabricantes de aparelhos, nem de parte das empresas de comunicação. Os preços caíram verticalmente e a concorrência fez diminuir também as tarifas, tirando monopólios e abusos defendidos até o fim.
Lembramos a vinda triunfal dos cordless, da ágil secretária telefônica, de seus derivados fax e transmissores de telex, até a vinda do celular, que gloriosamente está hoje nas mãos de todos, sujeito a continuas mudanças, que englobam fotos e acesso á internet. Há sempre alguém na rua ou em casa falando no minúsculo aparelho, não mais só por motivos urgentes, mas agora por quaisquer razões. Já se tornou hábito global, depois que há mais de duas décadas milhões de asiáticos haviam inaugurado a sua era, e eram vistos falar descontraídos andando pelas ruas. E os namorados, afinal livres dos controles do telefone fixo, encontraram no celular o amigo fiel, confiável, disponível sempre, em qualquer hora e lugar. Ele é apreciado por todos, detentos inclusive, e pelos investigadores, quando precisam percorrer todo o caminho de conversas feitas, as vezes essenciais para concluir o inquérito.
O celular tornou-se uma diversão para adultos e para crianças, além de cumprir funções mais nobres, inclusive de natureza social, de utilidade pública, numa permanente união invisível entre as pessoas. Para muitos é um dos brinquedos preferidos, que nas horas de ócio, nos momentos de tensões, na solidão ou no meio de centenas de pessoas, serve para estabelecer em poucos segundos aquela ligação que gera confiança, ternura, ou que atua como meio de descarga de amarguras á procura de solidariedade. Sem contar suas múltiplas utilidades no trabalho ou nos negócios.
Pena que esteja em via de ser consumido um atentado contra esses seus reconhecidos méritos sociais. Culpa dos marqueteiros, como acontece com freqüência nestes tempos de pesquisas e de estrema confiança em seus resultados. Culpa dos marqueteiros das empresas aéreas, sempre á procura de novidades que supõem irão aumentar a demanda de assentos nas aeronaves. Pergunta: alguém deixaria de voar na companhia X, comprando a sua passagem na empresa Y, somente porque esta lhe oferece a possibilidade de utilizar o celular para eventuais comunicações durante a viagem ?
A resposta poderia ser “sim” se, na atualidade, os vôos domésticos ou internacionais fosse tão longos e demorados como eram no passado. Manter contatos com a família, com o trabalho ou com a namorada poderia até ser necessário. Mas não existem mais viagens aéreas não-stop que levem tanto tempo e, quando incluem conexões, a coisa mais fácil é utilizar os telefones fixos do aeroporto. Sem contar que a maioria desses vôos acontece á noite complicando, devido aos fusos horários, a escolha do momento mais adequado para realizar ou receber as chamadas.
Outra pergunta: é prazeroso se comunicar durante o vôo com pessoas conhecidas ? Sem dúvida, na euforia da viagem esses contatos podem ser muito agradáveis. Mas na maioria dos casos não são indispensáveis. Milhões e mais milhões de pessoas tem viajado de avião sem sentir a falta de ligar para alguém no meio do vôo.
Terceira e ultima pergunta: o uso do celular a bordo pode incomodar todo viajante que não pretende telefonar ou receber telefonemas e prefere relaxar durante a viagem ? Claro que sim, e muito. A noite, em particular, ouvir o passageiro ao lado falar no celular, dizendo coisas sérias ou besteiras, falando de negócios ou de amor, pode ser irritante ou deprimente.
Passando agora ao lado prático, pode ser previsto que serão totalmente inúteis os seis meses de experiência que a Tam acaba de inaugurar em algumas rotas domésticas, para verificar o agrado e as reações dos passageiros, antes de se comprometer na instalação do serviço de celulares nas rotas internacionais. Os dois setores tem características diversas, quanto aos horários (dia ou noite), duração, usuários.Se num vôo de São Paulo a Porto Alegre telefonar pode até ser uma distração, que não incomoda os passageiros, a reação será outra , á noite, numa aeronave voando para Paris ou Nova York .
Mas com tudo isso, ainda existe a possibilidade que a Tam
insista nessa experiência que já foi chamada de “pioneira”. É grande a pressão
dos donos do sistema OnAir e das quatro empresas de comunicação interessadas
nesse serviço executado em roaming internacional (inclusive quando a chamada é
entre dois pontos do Brasil) pois, com tarifas médias de quase 10 reais por
chamada de um minuto, a margem de lucro é tentadora. Todavia a Tam não deveria
ignorar que nos Estados Unidos esse serviço de voz é proibido a bordo das
aeronaves comerciais, e que na Europa a British e a Lufthansa, entre outras, já
descartaram a possibilidade de o instalar em seus vôos, pois para não incomodar
os passageiros deveriam impor inevitáveis limitações á duração das chamadas, ao
número máximo de telefonemas permitidos e aos horários das ligações em cada
rota internacional. Assim, se a Tam não desistir, poderá até perder
passageiros, apesar do dinheiro que terá gasto para implantar o sistema
Melhor seria, talvez, se dedicasse o seu investimento ao complexo e caro projeto de instalação do WI-Fi a bordo, com o qual que abriria aos usuários a possibilidade de se comunicarem via internet com o resto do mundo, além de utilizar outras parafernálias inventadas pela ciência eletrônica.