“Air jegue”, o
drama de quem hoje viaja de avião
O que vem a seguir é um brilhante artigo de Lúcia
Guimarães, publicado há duas semanas pelo jornal “O Estado de São Paulo” que,
data vênia da redatora, reproduzimos para nossos leitores da família aeronáutica,
em particular para aqueles com saudade dos tempos da Varig.
O artigo, original também no seu título “Air jegue”,
é este:
Um neologismo cruzou o
firmamento online nesta alta temporada de viagens aéreas no verão americano. É
o flightmare - contração de flight (voo) com nightmare (pesadelo). Um site de
aviação da Califórnia pergunta: Você teve um flightmare recentemente? Sim,
responderiam em uníssono centenas de milhares de pessoas, caso a pergunta se
tornasse viral.
O passageiro aéreo do século 21 é submetido a tanto desconforto que, espremida
nos assentos cada vez menores dos aviões cada vez menos ventilados com o
serviço cada vez mais reduzido em viagens mais longas, tenho a impressão de
estar cruzando o Crato no lombo de um jumento.
O transporte aéreo é o único modo de locomoção que se deteriorou. Não se tornou
mais rápido e é hoje muito menos confortável. É também, sem dúvida, mais seguro
e mais barato. Mas viajar de trem, ônibus e navio também se tornou mais seguro,
mais rápido e bem mais confortável.
Como a esmagadora maioria não disponho de US$ 15 mil para voar na recém-criada
suíte de Primeira Classe da Singapore Airlines, tomando Dom Pérignon. Cada vez
que me vejo obrigada a entrar num avião, hoje, começo a ouvir a voz do Fagner
na minha cabeça: "Só deixo a minha Manhattan no último pau de arara.”
Por R$ 65 tomo um ônibus numa esquina próxima ao meu bairro (e não na cavernosa
rodoviária da Rua 43) e a viagem de três horas, rumo ao fim de semana com
amigos, inclui internet de graça, um filme, jornais, salgadinhos, água mineral
e, às vezes, até um copo de vinho sofrível. Os passageiros têm de desligar a
campainha do celular e só podem fazer uma chamada curta. A poltrona reclina
mais do que a da maioria dos aviões que tenho tomado para viajar ao Brasil.
A dilapidada companhia ferroviária Amtrak, que Ronald Reagan tanto se orgulhou
de tentar eliminar, é ineficiente para padrões europeus, mas é a forma
preferida de transporte entre Nova York e Washington. Quando somamos o tempo
para chegar e sair dos aeroportos, as filas de segurança, as interrupções por
mau tempo e o péssimo serviço de bordo, o trem ganha disparado.
Depois que o Concorde saiu do ar, em
Não será surpresa se logo começarem a cobrar pelo papel higiênico, o colete
salva-vidas e, por que não?, o oxigênio ("Aperte os cintos e respire
fundo!").
O 11 de Setembro, o preço do petróleo e as companhias aéreas que dão desconto
jogaram a aviação comercial numa espiral de crise que produziu US$ 50 bilhões
de perdas na última década.
A relação entre passageiros e tripulações é cada vez mais hostil, como mostrou
o recente episódio do comissário da JetBlue, que soltou o escorregador inflável
depois de brigar com um passageiro. Ele virou um herói instantâneo online, o
que não é novidade quando se considera o declínio dos atrativos da profissão.
Nos Estados Unidos, o salário médio bruto de um comissário de bordo, no
primeiro ano, passa um pouco de R$ 2 mil por mês. Um piloto recém-empregado
numa empresa aérea regional americana não ganha muito melhor. Se considerarmos
o adicional de insalubridade dos passageiros revoltados e a ameaça de que um
deles queira tocar fogo no sapato ou nas calças em nome de sua religião monoteísta,
servir hambúrguer numa lanchonete começa a parecer uma carreira.
Na semana passada, obrigada a tomar a ponte aérea entre o Rio e São Paulo,
pensei neste cenário triste do Hemisfério Norte, enquanto a tela de partidas
anunciava o portão do meu voo, alternadamente como "previsto" e
"estimado". Quase pedi um dicionário emprestado, mas concluí que não
se tratava de distinção e sim manobra de distração semântica. A ausência física
do avião, facilmente detectada pelo vidro, me permitiu estimar e prever que não
iria a lugar nenhum tão cedo. Cancelei compromissos para dedicar várias horas à
aventura de voar 40 minutos na volta.
O outro neologismo do momento nos Estados Unidos, graças à recessão, é
staycation, as férias sem viagem. As companhias aéreas, ao menos, contribuem
para o enriquecimento da língua.