AVIÕES USA VOAM EM CÉU DE BRIGADEIRO

 

A indústria de transportes aéreos dos Estados Unidos, segundo dados oficiais da ATA, Associação de Transportes Aéreos, acumulou nos últimos 10 anos prejuízos que alcançam os 60 bilhões de dólares. Com certeza não por culpa das rotas de/para o Brasil operadas por quatro de suas maiores empresas internacionais.

 

A história da indústria aérea americana é sem dúvida uma das mais dramáticas, devido ao tamanho e ao número de muitas de suas companhias, tendo registrado vítimas ilustres como a Braniff, a PanAm, a Eastern e a TWA e contribuído para os elevados índices de desemprego do pais, com as milhares de demissões que antes e depois das falências atingiram aeronautas e aeroviários. Conseqüência involuntária, também, dos esforços de seus poderosos sindicatos, sempre ativos para elevar os salários, que para comandantes, comissários e mecânicos chegaram a níveis incomparáveis com aqueles das empresas aéreas de outros países e muitas vezes incompatíveis também com as receitas, sujeitas ás crises econômicas do país e do mundo. Criou-se um circulo fechado, que o governo Carter conseguiu romper por algum tempo, inaugurando uma política liberal que protegia a indústria USA, na competição com as empresas aéreas de países menos poderosos. Isso não evitou que desde o final de 1999 fossem demitidas cercas de 160 mil pessoas.

 

Focando apenas as empresas internacionais maiores, o que a história evidencia e que nenhuma delas conseguiu equilibrar custos e receitas, vinculadas como sempre estiveram a tarifas relativamente baixas, auto-impostas para enfrentar a concorrência. Recentes comparações divulgadas pela Anac, demonstraram que as passagens entre Brasil e Estados Unidos podiam ser adquiridas a preços bastante inferiores se iniciadas em qualquer cidade americana. Sem dúvida isso foi um freio para as vendas da Varig, quando operava para Nova York e Miami , e mais tarde para a comercialização dos vôos operados pela Vasp, Transbrasil e mais recentemente pela Tam. Isso não impediu, nos anos de sua maior glória, que a Varig ficasse com 60% do tráfego para Nova York, deixando em dificuldades a poderosa PanAm, que pela qualidade inferior de seu serviço de bordo estava sendo sempre mais evitada pelos passageiros brasileiros e de outros países.

 

O que surpreende nessa conjuntura, em geral desfavorável aos embarques nas aéreas americanas, é o crescimento do número de vôos entre os dois países, no qual competem de um lado quatro das maiores aéreas estadunitenses e, atualmente, uma Tam e alguns vôos fretados que atende principalmente parte do tráfego originário do Brasil, com escassa contribuição dos embarques dos residentes nos EUA. O tráfego para a América do Norte cresceu bastante no país, graças ao câmbio favorável do real frente ao dólar e á maior participação de viajantes da classe C, cujas rendas aumentaram e com elas o desejo de conhecer a Time Square e de adquirir produtos eletrônicos mais baratos e artigos em “sale” nas grandes lojas de Nova York.

 

Houve uma escalation de autorizações para novas freqüências solicitadas pelas aéreas americanas e atendidas pelo ministério competente, sob os auspícios do Ministério do Turismo, sempre à cata de mais visitantes, para sair dos humilhantes cerca de 5 milhões de turistas que continuam vindo anualmente ao Brasil.. O número de vôos  semanais disponíveis para as empresas americanas vai chegar a 168 em outubro próximo e, por incrível que pareça, ainda faltarão duas freqüências para atender os pedidos da Delta Airlines . Enquanto isso, do lado brasileiro, a Tam está utilizando apenas 53 dos mesmos atuais 154 vôos concedidos ao Brasil pelo anexo que desde junho de 2008 integra o acordo bilateral entre os dois países e não há confirmação de que a empresa brasileira acrescentará a eles alguns dos 14 solicitados pelos americanos, que elevarão o total das freqüências recíprocas até 168. Eventuais fusões, que teoricamente reduziriam o número de empresa americanas operante na rota brasileira, não causarão alterações no número de autorizações.

 

A magnanimidade do Brasil tem causado, como era previsível considerando que os americanos estão operando desde 2009 nada menos de 154 vôos, o aumento de 6% no déficit brasileiro nas viagens aéreas entre os dois países, segundo estatísticas da entidade (OTTI) que elabora os dados setoriais das receitas de vôos de/para os Estados Unidos. Nada menos de 899 milhões é a soma desse déficit.As aéreas americanas tiveram em 2009 uma receita proporcionada por brasileiros que viajaram em aéreas dos Estados Unidos de US$ 1,155 bilhão, contra os US$ 253 milhões embolsados de empresas brasileiras com os embarques de viajantes americanos.Nos dois casos houve caídas dos respectivos valores, na comparação com 2008, atribuídas as dificuldades econômicas no caso americano (- 21%) e a modesta competição realizada pela Tam, que reduziu de 1% a soma anterior.

 

É claro que o déficit nas viagens depende de dois fatores igualmente importantes, que explicam o crescimento do saldo negativo para o Brasil, que em 2003 estava em US$ 253 milhões: o primeiro é a saída da Varig das rotas americanas, o segundo é a falta de agressividade da Tam no mercado americano, reduzindo em seis anos de 57 (operadas pela Varig) para 53 o total das freqüências. Mas deve ser assinalado também que o déficit foi crescendo junto com a demanda de brasileiros para embarques em companhias americanas. E, excluindo que essas aéreas gostem de perder dinheiro ou estejam aceitando o prejuízo para aumentar o seu domínio no mercado brasileiro, como se afirma no Sindicato nacional das empresas, seria oportuno, talvez indispensável que o aumento das freqüências semanais entre os dois países fosse congelado, na espera não somente do crescimento do número de vôos da Tam, mas também da entrada de mais uma ou duas companhias nacionais nessa rota, como notícias confidencias deixam esperar.