AS FÉRIAS NÃO SÃO MAIS COMO ELAS ERAM

 

Dezembro, janeiro, em nosso hemisfério são meses de férias. Aliás, no globo há sempre meses dedicados ás férias  numa evasão por tempo determinado do dia-dia, numa tradição que vem na formula atual desde o século passado, mas que existe desde que gregos e romanos abriram estradas em suas marchas conquistadoras. O homem conquistou a natureza, a transformou para dela tirar sensações novas. As águas limpas das ondas, o candor das neves, os ventos assobiando nas florestas se tornaram as suas distrações prediletas. E em volta delas, aos poucos, foi tecida a enorme tela do turismo, na qual é atribuído á natureza apenas o papel de figurante, quando na realidade é a motivadora e a razão de tudo o que ocorre em volta dela. Raras vezes, ao longo de quase três mil anos, um terremoto violento, a lava em chamas de um vulcão, um mar em fúria, e as avalanche de neve, de lama, ou de pedras, lembraram que apesar das aparências a força imensa dos fenômenos naturais ainda dominava o mundo.

 

Há quem afirme que, talvez, a maior migração de visitantes ainda não identificada pelo nome de turismo, ocorreu em Atenas, no ano 776, quando se realizaram os primeiros Jogos Olímpicos. Mas desde aquela época, na garupa de cavalos, antes que chegassem as diligências, todos os anos os ricos debandavam pelas estradas abertas pelas milícias gregas ou romanas á procura de lugares acolhedores, num fluxo crescente, mais tarde contido pela crise que veio com o declínio do impero romano. As estradas não eram mais as mesmas, faltava segurança, e somente grupos de peregrinos ou de cruzados enfrentavam os riscos das viagens. E assim se passaram séculos, pouco propícios á expansão do turismo, mas sempre havia quem procurava os resorts que aos poucos surgiram perto das praias ou entre o verde dos bosques.

Por quase 200 anos, desde o século 17, o turismo cresceu sobre as rodas das diligências, acrescentando novas atrações, inclusive de natureza cultural, ás motivações de viagem. E tiveram seu tímido início as férias no exterior, na época bem caras e perigosas, pois quase sempre o turista devia levar consigo barras de ouro para trocar na moeda dos país que visitava.

 

Tudo mudou em pleno século 18, com as primeiras locomotivas puxando vagões que multiplicaram o fluxo turístico e em seguida vieram os carros e redes de estradas sempre mais extensas. Foi naqueles anos que apareceu na Inglaterra uma das mais celebradas figuras do turismo mundial, Thomas Cook, com seus programas de viagens para grupos e os cupons hoteleiros, que facilitaram a vida dos viajantes. Mas que também acabaram, segundo os cronistas da época, “vulgarizando o tráfego turístico”. E depois da 1ª guerra mundial vieram esporádicas viagens aéreas. Delas os anais lembram a primeira Londres/Paris realizada em 25 de agosto de 1919 por um avião De Havilland  DH4A, que demorou 2 horas e meia para levar de uma para outra capital um único passageiro, repórter do Evening Standard.

 

O que aconteceu depois, abrange os 90 anos de história decisivos para o crescimento do turismo, graça a entrada  da aviação  na era do jato, enquanto se desenvolviam os transportes rodoviário, marítimo, ferroviário e se agigantava a explosão hoteleira. Turismo de massa, organizado, supostamente livre das incógnitas do passado : hotel pré-reservado, assento garantido a bordo do vôo preferido, praias ou montanhas escolhidas em qualquer parte do mundo.

Os historiadores contarão essas conquistas maravilhosas, mas não poderão deixar de assinalar que desde o primeiro ano deste novo século as coisas nem sempre andaram tão bem como no passado, apesar do nascimento da União Européia que facilitou a vida dos turistas, com sua moeda única.

Foi nesses anos que se acrescentou ao turismo um elemento novo, autentico vilão da história: o terrorismo. E atrás dele os homens recriaram os fantasmas orwelianos, os mil olhos dos policiais, a suspeita de que todos são traficantes ou terroristas diante dos controles aeroportuários, até que demonstrem ser inocentes turistas.

 

Sem contar as agora mais freqüentes e inesperadas reações da natureza, capazes de transformar a viagem numa terrível aventura ou até numa tragédia. O número de incógnitas cresceu tanto, nestes últimos anos, ao ponto de causar dúvidas em  turistas potenciais sobre a escolha do destino de suas férias. Os fatores climáticos, depois da violência do tsunami, estão se tornando componentes quase obrigatórios, ás vezes de importância determinante na opção dos viajantes. Este temor se consolidou após o impacto dos acontecimentos do passado em países da Ásia e das recentes tragédias  em terra brasileira.

 

Por tudo isso, apesar de todas suas conquistas técnicas nos transportes e de suas inovações estruturais,  num número limitado de segmentos do turismo aparecem  incógnitas e zonas de sombra que pareciam remotas e eram praticamente desconhecidas no passado. Nelas os fenômenos naturais assumem um papel dominante e hostil, de difícil previsão e que escapam do controle dos homens. Numa visão sobrenatural, poderia se falar em revanche da natureza pelos abusos sofridos, ou interpretar as ocorrências como um poderoso sinal chamando a nossa atenção para ás limitações de nosso poder terrestre.