AS DEUSAS EUROPÉIAS DO AR ESTÃO EM CRISE

Air France, British Airways e Lufthansa enfrentam problemas

 

Air France/KLM, British Airways, Lufthansa, as três grandes da aviação européia, tem tido um ano 2009 difícil e evidenciam grandes preocupações em relação a este. No final de março se encerrará o primeiro trimestre e serão divulgados os balancetes de noventa dias de atividades. Dias nos quais AF, BA e LH enfrentaram a insatisfação de seus funcionários e tudo fizeram, nem sempre com sucesso, para evitar greves que seriam catastróficas para as suas respectivas finanças. Em 2007, com receitas que totalizavam quase US$ 83 bilhões elas integravam o grupo das primeiras 10 Top arlines do mundo, junto com outra grande que já enfrentou a falência, a Japan Airlines.

 

Parece ser uma característica da indústria de transportes aéreos conviver com crises cíclicas. Há caso nos quais as dificuldades produzem reações positivas, novas energias para crescer, outros em tão avançado estado de desgaste que as aéreas não conseguem reagir, em geral porque asfixiadas por problemas financeiros. Houve exemplos dessas crises no Brasil e no mundo inteiro, com  nomes que enfeitam a história da indústria, atrás dos quais se escondem os dramas de dezenas de milhares de funcionários que perderam o emprego.

 

Sabe-se que 2009 foi um ano difícil para a grande maioria das empresas aéreas. Que muitas conseguiram sobreviver graças á ajuda governamental ou á solidariedade dos acionistas. E que há bastante confiança num 2010 que deveria consolidar um tráfego aéreo mundial bastante deprimido. Mas a reação não será a mesma em todos os  mercados , assim como foram diferentes as perdas registradas no ano passado pelas empresas de regiões diversas, pela reação com a qual suas forças econômicas reagiram  á crise mundial.

 

Surpreende, nesta fase de balanços  e de previsões, encontrar na lista das companhias aéreas em maiores dificuldades as três européias nomeadas na abertura deste texto. Uma Air France que opera em 98 países, que foi nacionalizada fazem pouco mais de 70 anos e que absorveu as restantes empresas governamentais em 1990, sendo controlada pelo governo, inicialmente com 62% agora com pouco menos de 20% das ações. Depois da fusão concluída em 2004 com a KLM, a aérea integra a SkyTeam Alliance, possui um programa de milhagem com mais de 10 milhões de participantes e detêm 25% das ações da Alitalia. A sua frota é formada por 33 Airbus 330 e 340, por 46 Boeing 747 e 777, além de um A380 e 144 Airbus de média distância. A crise que atravessa, de natureza financeira, segundo os analistas, se acentuou quando, em conseqüência do desastre que destruiu no ano passado o Airbus que voava do Rio de Janeiro para Paris, ficaram evidenciados o seu excesso de confiança na estrutura de controle de velocidade da aeronave e o seu atraso na tomada de providências para corrigir esse sistema em todos os aviões da frota. A vigilância da União Européia teria minimizado a ajuda governamental e obrigado a AF/KLM a enfrentar a realidade econômica do setor aéreo.

 

A outra “grande”, a British Airways, cuja origem (1919) é mais remota daquela da Air France, era chamada de Imperial Airways entre 1924 e 1935. Depois, várias aéreas se juntaram  por decisão do governo e foram todas nacionalizadas com o nome de  British Overseas Airways Corporation (Boac). Anos mais tarde, após a segunda guerra mundial, a  empresa se dividiu e enquanto a Boac cessava suas atividades surgia a British European Airways, hoje BA. A aérea é conhecida por suas continuas tentativas de se unir á Ibéria (visando os mercados latino-americanos) e por planejar com insistência a união com a American Airlines. Envolvida em inúmeras operações de compra ou venda de pequenas aéreas de idioma inglês, seus problemas financeiros aumentaram depois do ataque terrorista a Nova York, em 11 de setembro de 2001, que a obrigaram a reduzir a frota e os serviços, com a demissão inicial de 7 mil empregados. Entre as 191 aeronaves da frota da BA se destacam 55 Boeing 747  e 78 Airbus da serie A320. Semana passada, os entendimento da BA com a Ibéria e a American  progrediram, visando superar restrições da União Européia a seus vôos conjuntos entre Londres e N.York, mas a situação da aérea inglesa continuava muito agitada, devido á ameaça de uma longa greve,  suspensa depois de penosas reuniões com os sindicatos..

 

A terceira empresa com problemas é a Lufthansa. Um longo artigo publicado pelo jornal Valor Econômico, sob o titulo “Lufthansa encara futuro turbulento”, analisa e evidencia as dificuldades atuais daquela que era considerada “uma das empresas administradas de maneira mais eficiente na Alemanha”. Ela conseguiu evitar parte de uma greve dos pilotos que devia durar 4 dias, cuja continuação somaria mais 74 milhões de dólares ás suas receitas perdidas. São faturamentos ingentes, perdidos nos últimos anos pela redução das vendas, refletindo a menor competitividade da outrora quinta maior companhia aérea do mundo  em número de passageiros. Parece que a política comercial da diretoria da Lufthansa aceitou perdas nas rotas européias para se dedicar ás de longa distância, mas que não conseguiu se defender das agressivas campanhas  de vendas de congêneres árabes e de várias low-fares. Por isso, em 2009 encerrou o balanço no vermelho, pela primeira vez em seis anos. A aérea anunciou que inaugurará em junho os vôos de seus super A380, (dos quais encomendou  15 unidades junto com outras aeronaves, por aproximadamente 16 bilhões de euros) e que no próximo verão pretende elevar até 204  o número de suas rotas. Mas continuará reduzindo seus custos em várias áreas, que incluem cerca de 200 milhões no setor trabalhista e dependem de acordos de demissão voluntária, da redução da jornada de trabalho e de cortes de vantagens concedidas aos executivos. Isso motivou a greve dos pilotos, revoltados por serem atingidos, apesar de representarem apenas 4% do total dos custos da empresa. Os mesmos contrastes salariais dificultam o entendimento com os comissários. E´ opinião generalizada entre os funcionários que, oprimida pelo volume dos gastos feitos, a Lufthansa esteja agora “procurando consertar seus erros passados a custa dos empregados, como forma para conseguir os recursos para manter as suas aquisições”.    

 

A mais interessante conclusão deste sumário das performances e dos problemas que ameaçam imagens e finanças de três das maiores companhias aéreas européias, todas com tradição e prestígio mundial, é que na indústria de transportes aéreos chega sempre o momento em que as administrações perdem contato , parcial ou total, com a realidade econômica e financeira de suas empresas. Voam mais, adquirem aviões modernos, aumentam suas estruturas, supondo que o crescimento do número de embarques produzirá os recursos para fecharem os balanços com algum lucro. Parecem ignorar que os únicos ganhadores garantidos são os fornecedores de aviões e de serviços e que, ao excederem limites econômicos, estarão ameaçando o emprego de milhares, além dos ricos salários de seus executivos. Sendo este último o menor dos males.