AGENTES DE VIAGENS VS. YIELD MANAGEMENT
O panorama nacional dos
transportes aéreos está cheio de previsões e de estatísticas bastante
otimistas, depois de mais de um ano no qual a indústria parecia ter perdido o
rumo da rentabilidade. Para enfrentar o problema mais urgente, ou seja a
necessidade de utilizar mais assentos para não perder a participação de
mercado, as empresas maiores recorreram ás práticas das congêneres menores,
reduzindo as tarifas para vender mais.Não foi a melhor solução do ponto de vista
econômico, pois talvez poderiam ter retirado da circulação alguns aviões. Mas a
maioria delas, feitos os cálculos do valor diário dos leasings, preferiu
permanecer no mercado com uma oferta acima da demanda real pagando o prejuízo até o começo do terceiro
trimestre de 2009, pois cobravam tarifas descontadas que nas rotas menos
procuradas não eram rentáveis nem para a Azul.
A crise e essas tarifas
tiveram efeitos perversos para as Agências de Viagens, que já há anos haviam
sido em parte marginalizadas. O recurso das empresas ás vendas on-line cortou
ainda mais suas receitas sobre passagens aéreas e as obrigou a diversificarem
suas atividades. Acabaram os tempos nos quais o sucesso comercial de companhias
domésticas e internacionais dependia de poucas grandes agências e de muitas
agências médias, que controlavam as viagens corporativas.
Ainda lembro, se não me
falha a memória, quando nos anos 70 e 80 , em nosso roteiro diário de bons
vendedores havia diariamente a escrita “ visitar a Agência....falar com....” A
gente levava as últimas promoções aos agentes, as novas rotas e os detalhes dos
modelos de aviões que estavam sendo incorporados, e deixava folhetos e material
de propaganda para que o próximo cliente fosse informado das novidades. O
agente se interessava, prometia , vendia e no fim da quinzena ou do mês havia
uma firma que fazia as contas das comissões a receber pelo vendedor. Havia limites,
mas se necessário se recorria ao “over”, palavra sagrada valida para descontos
aos passageiros diretos ou para pagamento ao “middle-man “ se a competição com as congêneres valia a pena ou se o
grupo de viajantes interessados encheria grande número de assentos.
Aliás, muitos agentes já
faziam suas reservas antecipadas: trinta dias, dois meses antes da viagem e se
comprometiam a confirmar-las na data fixada. Nem sempre eram os mesmos nomes,
nem o número de assentos solicitado, mas dava-se sempre um jeito, pois a
companhia precisava dele, o agente. Apesar dos rapaces inspetores da IATA,
sempre prontos a multar em até 20 mil dólares quem, na indústria, praticava a
chamada “unfair competition”. E os
melhores agentes eram sempre tentados e bajulados pela concorrência, em geral
formada de aéreas com pouco prestígio e muitos assentos vazios, disposta a
conceder vantagens especiais, tickets free além do permitido, para conquistar
“aquele” grupo em época de baixa estação.
Depois chegou um método de
venda de assentos considerado mais técnico, que no começo se chamou “Yield
Management” e em breve se tornou a nova paixão da indústria de transportes
aéreos. Todos os executivos atualizados participavam de cursos, de conferência
da IATA em Genebra ou em Miami, onde cada um apresentava o sistema aplicado nas
reservas da sua empresa e os supostos ganhos em utilização de assentos decorrentes
da elaboração de formulas aparentemente complexas. Na realidade o mais
importante era formar séries históricas de aproveitamento por cada dia e vôo da
empresa e, sobre o modelo obtido, fazer projeções que eram atualizadas de
acordo com o fluxo de reservas dias antes e na véspera da saída do vôo. Ainda
se aceitavam reservas com antecedência, mas em número limitado, e aos poucos a
disponibilidade de assentos diminuía e era sempre mais difícil adquirir a
passagem ao preço mais baixo, dentro da faixa permitida pela indústria. Ainda
mais que havia sempre passageiros “last
minute”, que por quaisquer razões precisavam viajar sem falta.
Nesse novo contexto as
Agências de Viagem perderam espaço em suas relações com as empresas aéreas, e
tiveram também que aceitar a redução das percentagens de suas comissões, pois
as aéreas se estavam informatizando e queriam adotar programas oficiais de
controle dos yields, inclusive os vendidos pela IATA ou por dezenas de firmas
especializadas. E quem comercializava produtos perecíveis, feitos de espaço e
de serviços, em terra, no céu e no mar, no esforço para atualizar seus funcionários e seus
aparelhos eletrônicos, acabou descobrindo e adotando aquela que aos poucos está
se tornando a arma da independência: as reservas on-line.
No Brasil, a Varig já no
final dos anos 80 conhecia através de seus executivos do segundo escalão o
avanço dos sistemas de controle dos yields e seus aplicativos, mas demorou para fazer a sua opção prática, apesar do
entusiasmo dos executivos de reservas e de marketing. Sempre na vanguarda, a
empresa gastava dinheiro em cursos de primeira, mas alguém na diretoria preferia engavetar os projetos. Somente após a
“chamada” da presidência o sistema começou a ser efetivamente implantado. Mas falar
desse voluntário atraso tecnológico seria outra conversa.