AÇÕES DAS AÉREAS ESTÃO VOANDO ALTO, MAS A IATA RECOMENDA PRUDÊNCIA

 

As ações das empresas aéreas se valorizaram 73% em relação às cotações do início de 2009, quando a crise econômica atingiu em pleno a indústria e reduziu a demanda na grande maioria dos mercados internacionais. Essa evolução foi enfatizada num novo relatório de controle financeiro divulgado pela Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA).  O texto destaca: "Claramente os mercados financeiros estão esperando um desempenho muito melhor das empresas aéreas nesta fase de alta”, que de acordo com os observadores é cíclica e bastante rara na história da indústria.

A recuperação do setor aéreo alterou as previsões da IATA, que em 2009 ainda eram bastante pessimistas, anunciando perdas acima de US$ 5 bilhões para 2010, reduzidas para US$ 2,8 bilhões em março deste ano e alteradas totalmente em junho, quando foi divulgada uma projeção que eleva para US$ 2,5 bilhões o lucro líquido total das mais de duzentas empresas associadas.
Até agora, baseada nos dados coletados em 47 das maiores companhias, a IATA chegou a totalizar um lucro liquido de US$ 3,9 bilhões no segundo trimestre. O desempenho das regiões, no entanto, foi desigual. As empresas que operam na América do Norte tiveram lucros de US$ 1,74 bilhão (contra a perda de US$ 514 milhões no mesmo período do ano anterior); as da região Ásia-Pacífico ganharam US$ 1,16 bilhão contra os US$ 322 milhões perdidos em 2009, enquanto as da Europa viram seus lucros líquidos alcançarem US$ 1,02 bilhão (no ano passado tiveram prejuízos de US$ 548 milhões), mas na verdade US$ 1,27 milhão representa receitas da Air France/KlM obtidas através das vendas de ações do grupo Amadeus, do qual a aérea francesa participa.

De fato, a Europa ainda não saiu totalmente da crise econômica: em quase todos os países, o elevado índice de desemprego afeta as disponibilidades para viagens aéreas enquanto o menor volume de negócios ainda afasta os executivos da utilização de assentos da classe executiva, que é a maior alimentadora de receitas e de lucros para as companhias aérea. Segundo os economistas, somente a Alemanha estaria vagarosamente se recuperando. Outros países europeus continuam em dificuldades e os acionistas rejeitam investimentos em ações de empresas aéreas. Como se verificou, segundo a IATA, em abril passado quando foi total a indiferença inicial com que foi recebida a oferta pública de papeis do grupo Amadeus, do qual AF e Lufthansa são acionistas. Somente numa segunda fase foi possível para o Amadeus levantar cerca de US$ 1,3 bilhão, que incorporado ás receitas da Europa evitaram que a região fechasse o trimestre com cerca de US$ 25 milhões de perdas. Valor isso de pouco inferior ás perdas da America Latina entre abril e junho (US$ 36 milhões) em contraste com o lucro de US$ 509 milhões do primeiro trimestre de 2009.

 

Isto é: apesar da melhoria conjuntural, a IATA fez questão de assinalar que o mercado mundial de empresas aéreas não se livrou totalmente da ameaça de quebras, como demonstram a entrada da Mexicana no processo de recuperação judicial, depois de acumular perdas elevadas, da mesma maneira que aconteceu á JAL japonesa, após uma longa serie de erros, cuja gravidade foi citada por seu novo presidente na semana passada.

A IATA fez questão, também, de lembrar os prejuízos causados a várias empresas pela erupção de abril do vulcão islandês, que provocou o fechamento do espaço aéreo na região por quase uma semana. Como conseqüência uma delas, a Aer Arran, empresa aérea regional irlandesa deficitária, foi colocada na semana passada em processo de supervisão interina, única forma prevista na Irlanda para ajudar companhias que apresentam possibilidades razoáveis de sobrevivência, apesar de enfrentarem dificuldades financeiras.

 

Como já se tornou um hábito em seus relatórios, a Associação chefiada por Giuseppe Bisignani, que em outras épocas se empolgava em divulgar previsões anuais bastante próximas da realidade, depois de uma serie de forecasts que teve que atualizar de três em três meses, sendo que o último desmentia o primeiro, tornou-se mais prudente, pois ninguém possui a bola de cristal e muitas vezes os acertos nas previsões são apenas casuais.

Assim, para os próximos meses a IATA é otimista quanto á evolução positiva dos embarques internacionais e á progressiva volta dos executivos á chamada classe Premium, feita exceção para a Europa. Mas para tanto será indispensável a manutenção dos atuais preços dos combustíveis em volta de US$ 87 por barril de Jet fuel. E ainda há o controle tarifário e da oferta, itens básicos para evitar a diluição das receitas. De fato o maior receio da IATA está relacionado com a criação de excesso de capacidade, fácil de realizar pois todas as empresas tem aeronaves paradas quando a demanda era insuficiente e muitas delas estão começando a receber da Boeing e da Airbus as encomendas feitas antes da crise de 2008. Aviões demais podem significar oferta excessiva e isso leva as empresas a lançarem tarifas promocionais, as vezes bastante baixas e até não rentáveis, se na aeronave permanecem assentos vazios. Ainda mais que as tarifas médias atuais estariam em média 5% abaixo daquelas em vigor no começo de 2008 e as Premium nada menos que 20%.

 

Nesse sentido o Brasil, em fase de otimismo econômico, é um exemplo que talvez a IATA poderia ter citado: a Tam, que deverá juntamente com a Lan formar a maior empresa aérea da América Latina, parece ignorar que na Latam a congênere chilena terá a maior participação acionária e que as duas empresas possuem overlaps em excesso nas rotas regionais, que deverão ter o número de freqüências reduzido. As quase 250 aeronaves da Latam são muitas para cobrirem os 116 destinos voados pelas duas - ainda mais se a Tam continuar elevando o número de aviões da frota, que desde a assinatura do compromisso de fusão já passou de 143 para 147, depois que recebeu semana passada mais dois A319.

Last but not least, o honroso 15º lugar que a Latam assumirá no ranking mundial de receitas (US$ 8,5 bilhões), e os cerca de 46 milhões de passageiros transportados pela futura holding em 2009, são dados de impacto, mas relativamente expressivos quando comparados com aqueles das “grandes” da Europa e dos Estados Unidos. Só a Delta, por exemplo, embarcou no ano passado 161 milhões de pessoas e teve uma receita de 28 bilhões de dólares.