A volta do “ Orient Express”
ENCONTRO
COM O PASSADO PARA OS NOVOS RICOS DE HOJE
Fomos testemunhas, na
quinta-feira 23 de setembro, da volta de um mito da história turística mundial.
Voltou a operar o famoso “Orient Express”, um trem sonhado pelos ricaços dos
áureos tempos da Rússia tzarista, um símbolo de aventuras românticas exaltadas
por autores como Cechov e Tolstoi.
O comboio “17-
Um trem dedicado aos
milionários russos, que pagaram 1.200 euros para a passagem extra luxo de ida. Mas
havia também cabines disponíveis para viajantes da classe média, dispostos a
adquirirem seus tickets por 459 euros em 1ª classe e 306 euros na 2ª. As cabines
individuais da upper-class oferecem uma cama de casal, ducha, WC e bar; as de
primeira apenas a cama; as de segunda duas camas de solteiro, com ducha e banheiro
coletivos em cada vagão. Numerosos stewards e comissárias bilíngües, em trajes
vermelhos, estão ás ordens nos vagões dormitórios e nos restaurantes, também de
luxo, com mestres-cucas que usam cozinhas de verdade, nada de micro-ondas á
moda das aeronaves.
Os analistas afirmam que a
volta do “Orient Express” é um presente há muito esperado pelos novos ricos da
Rússia, os oligarcas e os boss do petróleo, que não tem pressa para chegar á
Costa Azul francesa, pois para tanto disporiam de seus aviões particulares ou
da primeira classe nas aeronaves da Aeroflot que voam para a Europa.
Para eles, viajar de trem é
diferente. O tempo flui lentamente nos mais de dois dias de viagem e os ocupantes
parecem reviver os tempos dos czares, quando o trem, hoje algo democratizado,
era todo deles. Sem contar que, apesar do tempo corrido, na Rússia de hoje tão
avara de sol e de praias, Nice permanece para uma minoria privilegiada como o símbolo
mais vivo de sol, mar, intrigas amorosas e férias.
Todavia, comparado com o
passado, o “Orient Express” mudou completamente o seu universo. Hoje é dedicado
ás elites da política, do governo e da economia russas, enquanto no século passado
se identificava com o sonho romântico e aventurosos dos aristocráticos
europeus, fascinados pela descoberta das longínquas regiões do Leste, com seu
Danúbio, a fantástica Budapeste e Constantinopla.
O “Orient Express” se
acrescenta a outras tradições ferroviárias russas, como a viagem diária do
“Flecha Vermelha”, o combóio que parte da estação Leningrandskij de Moscou á
meia-noite e procede a velocidade reduzida, tendo como objetivo não chegar á
estação de São Petroburgo antes das sete da manhã. Ele tem seus aficionados,
ricaços românticos que adoram passar algumas horas entre veludos e chás, ignorando
os serviços de trens velozes que realizam o mesmo percurso em menos da metade
do tempo. Da mesma maneira, o fascínio da viagem semanal do “Orient Express” é
devido á sua demora para atravessar regiões imensas, oferecendo até uma parada
técnica de duas horas na cidade de Brest, onde a mudança de bitola exige que
sejam instalados aparelhos adaptadores em cada vagão, para compensar a
diferença na distancia das rodas ainda existente entre os trilhos da rede russa
e da européia.
Isto não que dizer que o “Orient
Express”, por essas características, será ignorado pelos viajantes de país que,
no passado, estavam entre os maiores usuários do “velho” trem, com destaque
para França, Grã Bretanha, Itália. Ter viajado nele será uma distinção, hoje
que são milhões os que viajam de avião ou que realizam a já famosa “volta ao
mundo”, tão promovida pela PanAm, quando era a única que podia oferece-la.
Daqui a algum tempo, o diferencial poderá ser ter viajado, talvez somente de
ida, a bordo do “Orient Express”, o trem considerado como uma espécie de
antídoto á velocidade algo irracional dos jumbos e á falta de privacidade que
existe em 99% das cabines first class das empresas aéreas regulares.
E´ claro que precisa ter
muito dinheiro, mas não necessariamente estar incluídos nas listas de
milionários da “Forbes”, para alimentar a fantasia de viajar no semanal
Moscou-Nice Rail Service patrocinado pela RZD (ferrovias russas) e pela SNCF
(congênere francês). Mas é necessário dispor de tempo, de espírito conservador
e até de uma certa influência cultural para se enclausurar por 53 horas num
trem, nele procurando relax e sensações novas, inclusive em eventual boa
companhia.
Vale assinalar que há algo
mais para dar aval á previsão de que a grande maioria dos viajantes será formada
por russos. Em Nice, além de sol e praias, há uma relíquia dos tempos dos
tzares, a catedral de São Nicola, a maior igreja ortodoxa fora da Rússia, que a
imperatriz mãe mandou construir antes da revolução.