A volta do “ Orient Express”

ENCONTRO COM O PASSADO PARA OS NOVOS RICOS DE HOJE

 

Fomos testemunhas, na quinta-feira 23 de setembro, da volta de um mito da história turística mundial. Voltou a operar o famoso “Orient Express”, um trem sonhado pelos ricaços dos áureos tempos da Rússia tzarista, um símbolo de aventuras românticas exaltadas por autores como Cechov e Tolstoi.

O comboio “17-18”, ainda a procura de uma identificação de maior impacto, saiu da estação Belorussky de Moscou com seus 12 vagões e duas viaturas-restaurantes e, á velocidade media de 63,13 km/h na ida e 66,7 km/h na viagem de volta, atravessou em 52h e 55minutos nada menos que 22 cidades, para chegar a Nice ás 19h12 de sábado. Ele atravessou a Rússia do Leste, antes de chegar a Varsóvia e depois a Viena para, após mais cinco stops na Itália, cruzar a estação de Mentón e parar em Nice.

 

Um trem dedicado aos milionários russos, que pagaram 1.200 euros para a passagem extra luxo de ida. Mas havia também cabines disponíveis para viajantes da classe média, dispostos a adquirirem seus tickets por 459 euros em 1ª classe e 306 euros na 2ª. As cabines individuais da upper-class oferecem uma cama de casal, ducha, WC e bar; as de primeira apenas a cama; as de segunda duas camas de solteiro, com ducha e banheiro coletivos em cada vagão. Numerosos stewards e comissárias bilíngües, em trajes vermelhos, estão ás ordens nos vagões dormitórios e nos restaurantes, também de luxo, com mestres-cucas que usam cozinhas de verdade, nada de micro-ondas á moda das aeronaves.

 

Os analistas afirmam que a volta do “Orient Express” é um presente há muito esperado pelos novos ricos da Rússia, os oligarcas e os boss do petróleo, que não tem pressa para chegar á Costa Azul francesa, pois para tanto disporiam de seus aviões particulares ou da primeira classe nas aeronaves da Aeroflot que voam para a Europa.

Para eles, viajar de trem é diferente. O tempo flui lentamente nos mais de dois dias de viagem e os ocupantes parecem reviver os tempos dos czares, quando o trem, hoje algo democratizado, era todo deles. Sem contar que, apesar do tempo corrido, na Rússia de hoje tão avara de sol e de praias, Nice permanece para uma minoria privilegiada como o símbolo mais vivo de sol, mar, intrigas amorosas e férias.

Todavia, comparado com o passado, o “Orient Express” mudou completamente o seu universo. Hoje é dedicado ás elites da política, do governo e da economia russas, enquanto no século passado se identificava com o sonho romântico e aventurosos dos aristocráticos europeus, fascinados pela descoberta das longínquas regiões do Leste, com seu Danúbio, a fantástica Budapeste e Constantinopla.

 

O “Orient Express” se acrescenta a outras tradições ferroviárias russas, como a viagem diária do “Flecha Vermelha”, o combóio que parte da estação Leningrandskij de Moscou á meia-noite e procede a velocidade reduzida, tendo como objetivo não chegar á estação de São Petroburgo antes das sete da manhã. Ele tem seus aficionados, ricaços românticos que adoram passar algumas horas entre veludos e chás, ignorando os serviços de trens velozes que realizam o mesmo percurso em menos da metade do tempo. Da mesma maneira, o fascínio da viagem semanal do “Orient Express” é devido á sua demora para atravessar regiões imensas, oferecendo até uma parada técnica de duas horas na cidade de Brest, onde a mudança de bitola exige que sejam instalados aparelhos adaptadores em cada vagão, para compensar a diferença na distancia das rodas ainda existente entre os trilhos da rede russa e da européia.

 

Isto não que dizer que o “Orient Express”, por essas características, será ignorado pelos viajantes de país que, no passado, estavam entre os maiores usuários do “velho” trem, com destaque para França, Grã Bretanha, Itália. Ter viajado nele será uma distinção, hoje que são milhões os que viajam de avião ou que realizam a já famosa “volta ao mundo”, tão promovida pela PanAm, quando era a única que podia oferece-la. Daqui a algum tempo, o diferencial poderá ser ter viajado, talvez somente de ida, a bordo do “Orient Express”, o trem considerado como uma espécie de antídoto á velocidade algo irracional dos jumbos e á falta de privacidade que existe em 99% das cabines first class das empresas aéreas regulares.

 

E´ claro que precisa ter muito dinheiro, mas não necessariamente estar incluídos nas listas de milionários da “Forbes”, para alimentar a fantasia de viajar no semanal Moscou-Nice Rail Service patrocinado pela RZD (ferrovias russas) e pela SNCF (congênere francês). Mas é necessário dispor de tempo, de espírito conservador e até de uma certa influência cultural para se enclausurar por 53 horas num trem, nele procurando relax e sensações novas, inclusive em eventual boa companhia.

Vale assinalar que há algo mais para dar aval á previsão de que a grande maioria dos viajantes será formada por russos. Em Nice, além de sol e praias, há uma relíquia dos tempos dos tzares, a catedral de São Nicola, a maior igreja ortodoxa fora da Rússia, que a imperatriz mãe mandou construir antes da revolução.