NOTAS PARA UMA HISTÓRIA DA VARIG

 

Contar a história verdadeira de uma grande empresa que desapareceu, ou pretender resgatar-la, exige muitas pesquisas, entrevistas com os executivos que em épocas diferentes a administraram, consultas aos arquivos de jornais, coleta de dados essenciais para definir a seqüência dos acontecimentos nas várias fases atravessadas pelo país, numa economia que engatinhava para sair do sub-desenvolvimento. Sem esquecer o clima político, no qual uma minoria alimentava a esperança de acabar com o predomínio capitalista através revoluções inspiradas nos sonhos marxistas, e sem contar as conjunturas econômicas e as crises  sociais, sob governos democráticos, ditatoriais ou militares. A história da Varig se desenvolveu nesse meio, cobrindo mais de 70 dos anos  mais convulsos do país e mais dinâmicos da aviação mundial.

 

Para uma obra desse tamanho não é suficiente a coleta de fatos, de nomes e de pontos de vista, pois haverá sempre interpretações diferente sobre eles e opiniões opostas sobre as atitudes das personagens citadas. Além de desmentidas á real importância de decisões tomadas “nas altas esferas” a favor ou contra alguém, pela diferente visão da conjuntura interna e da exigência, ou menos, de agir para manter a estabilidade da empresa.

 

Na realidade, não basta entrevistar os últimos ou penúltimos ex-presidentes para contar a história de uma empresa aérea que chegou a conquistar grande prestígio, graças á habilidade e dedicação de alguns executivos, que cresceu junto de muitas outras companhias nacionais com o amparo do governo, que como as congêneres nunca conseguiu total independência, mas resistiu por mais tempo á pressão financeira e  política, até perder um predomínio de rotas tachado impropriamente de monopólio. E que, quando seus compromissos estouraram nos mercados mundiais, não recebeu do governo o indispensável apoio e quando mais necessitava dele foi abandonada á fúria dos mercados se debatendo nas mãos de credores nacionais e estrangeiros. Talvez, ela foi vitima também de mais um equivoco riograndense, ao alimentar a convicção de que poderia conjugar a sua independência de empresa privada com as cores verdes e amarelas que orgulhosamente exibia pelo mundo afora.

 

Essa é mais uma hipótese, que uma história verdadeira não deveria dispensar, para explicar em parte a inversão de reatores que afastou a Varig S.A. do céu de brigadeiro alcançado com seu prestígio internacional. Alguém quis lhe impor uma aterrissagem forçada e não faltaram auxiliares interessados em ver realizado esse plano de vôo. Uns o apoiaram com sua incompetência, outros com suas ambições de poder, sem contar o surgimento dentro da empresa de grupos hostis, á procura da auto-afirmação, cujos expoentes  ambicionavam os cargos mais altos e faziam oposição irracional, sem perceberem que acabariam como aquele marido que para inferiorizar a cara metade acabou eliminando a sua potencialidade varonil.   

 

Nesse contexto, tiveram papel preponderante as empresas de leasing, que nas últimas décadas, com a cumplicidade das fabricas de aviões, tinham aumentado o seu poder junto das aéreas, que na quase totalidade a elas deviam recorrer por falta de capitais para adquirir aviões sempre mais caros. A aviação, uma indústria deficitária, acabou tendo o futuro vinculado aos custos milionários de “novas” aeronaves, cujas performances baseadas em mais espaço, autonomia e consumo de combustível, são apenas três dos fatores essenciais para alcançar a rentabilidade operacional. O caso do 737 é exemplar: seu tamanho e autonomia de vôo cresceram junto com o crescimento de rotas mais extensas e de potencial médio, levando as empresas aéreas, na eterna e frustrada procura de fechar seus balanços no azul, a uma intensa procura das sucessivas versões oferecidas pela Boeing, que se reduziu somente depois que o mercado passou a oferecer as aeronaves da Airbus.

Nunca foi pesquisado adequadamente se, e até que ponto, a utilização de um avião um pouco maior e mais rápido conseguia desviar o fluxo de tráfego a favor da aérea que o possuía. Ou se, diante da freqüente falta dos elevados índices médios de aproveitamento exigidos por gigantes como os 747 e os A380, haveria a teórica redução dos custos per capite, divulgada pelas construtoras para justificar investimentos enormes, inclusive nas estruturas de apoio das compradoras.

 

A Varig, para crescer e evitar a obsolescência, entrou numa engrenagem internacional perversa, que a empobreceu paulatinamente, pois cada compromisso de leasing acrescentava mais custos á sua atividade e nem sempre, devido á rotatividade da frota, as aeronaves que eram alugadas por 300 mil ou mais dólares mensais eram utilizadas em rotas rentáveis . Rotas sem aparente futuro, que a empresa não abandonava para não contrariar acordos bilaterais, fantasias nacionalistas ou anseios de coletividades brasileiras no exterior ou ainda, mais simplesmente,  porque os entendidos afirmavam que avião alugado custava mais caro parado de que voando.

 

E a empresa não precisou apenas se defender da inércia governamental, que raras vezes viu nela um instrumento de prestígio para um país que por décadas ficou entre os “em fase de desenvolvimento”, mas teve também que enfrentar greves e motins do pessoal de vôo, que insuflado pelas associações acreditava ter a Varig nas mãos;  assim como lutou para minimizar as interferências de sua “mãe adotiva”, a Fundação, que de entidade assistencial se havia transformado em controladora dos destinos da aérea, apesar de seus executivos ter desconhecimento quase total das peculiaridades técnicas e comerciais da indústria.

 

Na tempestade financeira/institucional que por anos dominou na empresa, entre dividas externas e cobranças internas em crescimento, foram queimados os esforços e a competência de alguns seus executivos  e as esporádicas iniciativas de suporte propostas por ministros ou bancos governamentais. Somente uma lei feita sob medida, na última hora, evitou a falência, mas não impediu o real desaparecimento da Varig.

 

Tudo isso, os fatos e os nomes, os acertos e os erros, os que se sacrificaram e os que abusaram, os competentes e os muitos “outros”, a política e as conjunturas econômicas, as glórias e a agonia da maior empresa aérea do pai, s ainda carecem de interpretação adequada. Eles estão merecendo um estudo sério e objetivo, que substitua as fotos de aviões com analises conjunturais, e se baseie em documentos, omitindo os inevitáveis comentários facciosos de quem chegou tarde e ainda acha ter sido o incompreendido homem da providência.