A GREVE É AINDA A ÚLTIMA ESPERANÇA

 

Greve, já foi uma palavra mágica, meia esperança e meia ilusão. Antes dela não havia opções, nem direitos. Hoje é uma opção para quem trabalha e se acha injustiçado, de efeito moral e, as vezes, até prático. Resultado da evolução dos direitos trabalhistas,teoricamente sim, mas na realidade muito menos, pois depois da greve há sempre um risco: a demissão. Depende do passo a passo, do tom do contraste, da motivação, da força do sindicato e do apoio legal que a sua ação possui. Pode corrigir injustiças, obrigando a parte mais forte a ceder alguns direitos á outra, todavia raros e exemplares são os casos, nas histórias do mundo moderno, em que uma greve motivada se encerrou com uma grande, merecida vitória. Mas é a única arma aceita pelas partes num dialogo tenso, que objetiva obter condições melhores para quem trabalha mas em troca, em geral , recebe compensação financeira considerada insuficiente.

A palavra greve permanece ligada a um conceito que, por décadas ou séculos, foi considerado uma forma de rebelião, uma tentativa de modificar leis que pareciam eternas, nas quais o capital ditava as normas e quem não concordava devia meditar profundamente antes de levantar as suas objeções. Corria o risco de ser tachado de revolucionário, de agitador pelas forças que representavam o governo ou, mais recentemente, as democracias reinantes. Mas acontecia, e ainda acontece, que em raríssimos casos essas forças estão do lado de quem reivindica melhorias sociais. Como evidenciou o ministro Jobim em suas declarações. Mas há a própria estrutura civil que, apesar de sua evolução, ainda se opõe instintivamente a movimentos coletivos que representem uma forma de reação, ou subversão ou, pior ainda, algo parecido com uma tentativa de alterar o status quo social. Nesse sentido, desde a revolução de 1917, conceitualmente foi enorme o caminho percorrido, mas permanecem na realidade preconceitos que continuam se opondo ao fácil alcance de entendimentos trabalhistas.  

Passando das teorias á pratica, temos o contraste que nas últimas duas semana opus os aeroviários ás empresas de transporte aéreo. Não importa como acabou, se no dia 23 não houve greve geral mas apenas 20% cruzaram os braços , permanecendo os problemas de atrasos ou de cancelamentos de vôo já previstos.  Nem precisava que a greve fosse proclamada para isso acontecer. O que chama a atenção é a maneira como as aéreas enfrentaram a ameaça. Intransigentes quando o aumento salarial pedido parecia excessivo, procrastinaram a discussão até os dias finais. E na véspera se apresentaram como defensoras dos usuários, cujas férias eram ameaçadas por aeroviários reacionários. Sabiam que a categoria não assumiria esse papel e por isso sua atitude tornou-se provocadora, rejeitando uma discussão que poderia ser encerrada com 10% de aumento salarial.   E envolveram também a Anac, a agência que com um mês de antecedência havia estabelecido as normas para evitar apagões, mas que parecia sem recursos para arbitrar o contraste. Nem houve a colaboração do Snea, representante das aéreas, que para evitar a tensão do período natalino poderia ter proposto para depois das festas a discussão do acerto final sobre o valor do aumento a receber pelos aeroviários.

Visto objetivamente, o aumento de 13% ou de 15% que representou o obstáculo final para um acordo, era justo por vários motivos: 1) porque os salários da categoria são menores daqueles que eram pagos a aeroviários e aeronautas na época da Varig ; 2) porque nos últimos anos eles foram parcamente corrigidos ; 3) porque as empresas aéreas ganharam bastante dinheiro em 2010, depois de ter conseguido resultados entre os melhores da indústria mundial, durante a crise que em 2008/2009 afetou a maioria das transportadoras; 4) porque as companhias estavam exigindo demais dos tripulantes, não tendo investido o bastante em novas contratações de pilotos e comissários, para acompanhar o atual crescimento do número de seus voos.

Mas Tam, Gol e Trip ,em particular, precisavam de um pretexto para fazer esquecer que foram  as suas anarquias internas que provocaram os últimos apagões , por ter obrigado pilotos e comissários a voarem acima do número máximo de horas permitidas, depois de ter abusados dos usuários aplicando overbookings indiscriminados E quando as duas categorias de tripulantes reagiram e apresentaram suas queixas ao sindicato e á Anac, elas foram multadas e tiveram que reestruturar os horários e cancelar numerosos vôos, não dispondo do pessoal suficiente para operá-los. Foram esses problemas, somados ao funcionamento insatisfatório dos aeroportos, que levaram o presidente da IATA a criticar pesadamente os transportes aéreos brasileiros.

Com tudo isso, apesar de ter o direito de exigir das empresas uma compensação, na hora “h” os aeroviários optaram por respeitar a conveniência dos usuários dos serviços aéreos, depois que constataram que, pelas interferências jurídicas, haviam perdido a eficácia de sua única arma legal a disposição. Mas se a ação foi minimizada e transferida, se faltou de parte das transportadoras a esperada iniciativa a favor da justiça salarial, a ameaça de greve permanece como última esperança dos aeroviários, para tentar re-estabelecer, por algum tempo, melhores condições de trabalho.