TREINAMENTO DE PILOTOS É GARANTIA DE SEGURANÇA

 

Depois do desastre com o Airbus da Tam no aeroporto de Congonhas, as autoridades aeronáuticas  passaram a exigir mais severidade nos controles relacionados com  a freqüência das revisões técnicas das aeronaves, mas ainda não enfrentaram o problema do treinamento dos pilotos, cuja existência na empresa aérea foi evidenciado pelo acidente. Se trata de dois elementos essenciais para garantir a segurança dos vôos.

 

As autoridades americanas há tempo tem dado o exemplo, exigindo que velhos modelos de aeronaves 737 e inteiras frotas  de aviões, que não são mais fabricados mas continuam voando pelos céus dos EUA , sejam submetidas a revisões estruturais. Da mesma maneira, impuseram ás empresas que operam aeronaves modernas a conveniência de substituir peças eletrônicas que nalguma ocasião evidenciaram falhas potencialmente causadoras de problemas de segurança. O ocorrido com o vôo da Air France que saiu do Rio de Janeiro e desapareceu no Atlântico, por causas ainda não definidas, acentuou as dúvidas, que já haviam sido levantadas em outras ocasiões, sobre o correto funcionamento das peças eletrônicas mais sofisticadas em situações de emergência.

 

A  longa história da incrível evolução da aviação mundial ensina que as máquinas, até as mais utilizadas, quando devidamente cuidadas raramente traem a confiança de quem as opera. Os controles técnicos tem meios para evidenciar quando um reator chegou a seus limites de resistência, enquanto cabe á concorrência o moto continuo de substituição dos aviões considerados  obsoletos. Como aconteceu com modelos queridos pelos usuários ,quais os DC3 ou o Electra ou o DC-10 . Todavia, em tempo de crise, quando os capitais escasseiam, ou de grande expansão de uma empresa, as atualizações técnicas podem seguir caminhos pouco ortodoxos, até reduzindo ou simplificando os procedimentos que costumam levar os pilotos do simulador á cabine de comando.

 

Diziam os antigos “mens sana, in corpore sano”, frase que poderia se transformar em “comandante seguro, em aeronave bem cuidada”, ou vice-versa, pois uma operação aérea sem problemas depende tanto da máquina eficiente como do preparo técnico e da experiência de seu piloto. São dois elementos essenciais e, falhando um deles, qualquer hipótese sobre a conclusão do vôo seria admissível. Há a história da aeronave em pane que amarou sobre o rio Hudson e de outra que, por algum erro técnico ou falta de perícia, explodiu em chamas depois de atravessar o aeroporto de Congonhas. Num terceiro caso, no vôo AF, não foi ainda confirmado se foi o erro humano que complicou a eficiência do sistema eletrônico.

 

E há dois casos recentes de pilotos flagrados em situações constrangedoras, tão raras quanto perigosas para a segurança de vôo. Dois deles se distraíram com seus laptops, enquanto a aeronave que comandavam voava sobre os Estados Unidos, e demoraram para descobrir que já se encontravam a mais de 200 km da cidade de destino. Outro foi pego num aeroporto europeu em evidente estado etílico e impedido de embarcar no avião que estava a sua espera para decolar. Houve sem dúvida falta de responsabilidade, não de treinamento, que poderia complicar os vôos e que justifica o afastamento dos comandantes de  suas funções. Muito diferente foi o acontecido a bordo do vôo 3054 da Tam, segundo o relatório divulgado pela Polícia Federal , que acusa diretamente os pilotos pela tragédia que vitimou 199 pessoas .

A P.F.tomou por base os depoimentos de testemunhas e os laudos produzidos por peritos do Instituto Nacional de Criminalística, que apontaram como “fator determinante da tragédia a operação incorreta dos manetes por parte da tripulação”. Foi a mesma opinião expressa pelo relatório técnico do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos, que havia definido o manuseio dos manetes como “equivocado”.

Os textos provocaram reações contrárias de parte de familiares enquanto os colegas dos dois pilotos enfatizavam que  “o manuseio simultâneo dos manetes é um procedimento primário” cuja omissão é difícil de imaginar de parte de um dos comandantes do vôo Tam, por ser “experiente e bem conceituado”. Quer dizer que o outro não era.

 

Mas os inquéritos revelaram também a existência de mais responsabilidades, atingindo diretamente a Tam, que se esperava desmentisse em comunicado a parte mais surpreendente das afirmações contidas no relatório do Cenipa. O documento é explicito em salientar falhas no treinamento e no setor de segurança da aérea, pois para “a formação técnica dos pilotos usava apenas cursos interativo em computador”, conseguindo “a formação massiva, mas não garantia a qualidade da instrução recebida.” Sem contar que, dispondo de apenas 27 pessoas para seu setor de segurança, para um total de 19 mil funcionários, dos quais cerca de 5 mil eram tripulantes, havia na aérea evidente “desestruturação organizacional”, atribuída ao seu”rápido crescimento”.

 

O leitor desavisado deve se perguntar quais providências foram tomadas pela empresa, para sanear esses graves problemas não contestados, e se o assunto foi, pelo menos, motivo para trocas de perguntas e de respostas com a Agência Nacional de Aviação Civil, Anac.

 

A indústria de transportes aéreos serve milhões de brasileiros e não permite, pelas funestas conseqüências, qualquer tipo de apagão. Atualmente se trata, apenas, de manter alto o prestígio internacional do setor, conquistado através de décadas por empresas como a Panair do Brasil e a Varig, entre poucas outras. Para tanto, havendo frotas modernas e comandantes experientes, cuja perícia é apreciada também no exterior, é suficiente que sejam maximizados os controles  das autoridades, exigindo das aéreas tudo o que as normas internacionais exigem. Não é justo que, por eventuais recentes omissões na manutenção e no treinamento,  profissionais competentes sejam envolvidos injustamente em responsabilidades que não lhes competem.

 Sem esquecer as vidas perdidas e aquelas que as omissões continuariam ameaçando.