TAM – TAP : POUCOS ACREDITAM NESSE CASAMENTO

 

Tempos de crises, tempos de mudanças, reais ou imaginárias. Mudou o governo em Portugal, mudou um diretor na Tam, houve greve em Lisboa, fala-se em desgaste de dirigentes. E voltam as previsões sobre quem vai substituir quem nesta ou naquela empresa, baseadas em suposições de analistas ou da imprensa, sem analises para avaliar a sua consistência.

 

Em Portugal o Diário Econômico atribuiu na terça-feira passada grande importância ao afastamento de David Barioni da presidência da Tam, decidido pela família Amaro, que ignorou, por ser acionista majoritária, a existência de acionistas que poderiam opinar sobre o assunto. O jornal chegou a conclusões cuja origem não foi declarada, em relação á iniciativa, enfatizando que o lugar de Barioni poderia ser ocupado por Fernando Pinto, atual presidente da Tap, e chegando a supor que nessa mudança haveria uma aproximação entre a aérea portuguesa e a Tam que poderia acabar com uma fusão entre as duas empresas. Nada de totalmente novo, pelo que se refere á possibilidade de Fernando Pinto vir a ser convidado pelos Amaros, pois já na mudança do presidente anterior, Marco Bologna, o nome do CEO da Tap estava entre os mais cotados para assumir a presidência da Tam. Desde então, já se passaram dois anos, muitas coisas mudaram nas duas empresas, devido em boa parte á crise econômica que afetou a indústria de transportes aéreos, causando prejuízos á Tap depois de anos seguidos de lucro, e a perda de mais de um bilhão de reais á Tam, como resultado de suas atividades em 2008.

 

Portanto, se a escolha de Fernando Pinto pela Tam evidenciava em 2007 a apreciação pelas performances positivas e inéditas na Tap, o mesmo motivo perderia algo de sua validade neste 2009. Sem contar que a Tap sofreu algumas mudanças neste ínterim, que a empresa continua sendo estatal e que não se sabe ainda se haverá alterações no setor aéreo, depois da recente eleição de outro governo português. As histórias políticas da maioria dos países contam que a tendência dos novos eleitos consiste nas tentativas de modificar os rumos dos setores nacionais de maior visibilidade.

 

Quanto ao “ambiente” na Tam, ele nunca foi muito receptivo á imissão de valores novos em suas fileiras, ainda mais se eles chegam sem contar com o suporte de forças internas, além do indispensável apoio da família Amaro. Foi o ex presidente da Varig, Rubel Thomas, um dos primeiros a ser vitimado por essa realidade, quando perdeu a Diretoria da Tam para a qual havia sido contratado. Mas é a saída de Barioni, que para assumir o cargo deixou a vice-presidência de operações da Gol, a evidenciar que na aérea não é suficiente ser “populares”, como foi ele imitando a espontaneidade do fundador da Tam, comandante Rolim Amaro,nas relações com os funcionários e com os passageiros , sendo necessário principalmente para se manter nos cargos executivos o apoio total de Maria Cláudia Amaro e família. Que não gostaram também dos contrastes de Barioni com os pilotos. Mas o que desta vez vicou na garganta da alta administração - na sua procura permanente de resultados de curto prazo - foi a contratação de hedges de combustível por US$ 100 o barril , quando a tendência do preço do petróleo havia chegado a mais de US$140. O fato que mais tarde o preço caiu em volta de US$ 50 representou para a aérea a perda de milhões e foi atribuída a Barioni, apesar de ele ter recebido o aval do Conselho de Administração.

 

Diante dessas tendências conservadora da maior empresa aérea brasileira não surpreenderia a volta á presidência de Marco Antonio Bologna, cuja administração ficou envolvida em acontecimentos fora de seu controle, quais o chamado “apagão” no qual as operações da Tam ficaram anarquizadas por alguns dias do final de 2006 e, em particular, o desastre ocorrido em Congonhas com um Airbus que se autodestruiu em chamas, por causas ainda não explicitadas mas supostamente devidas a erros técnicos.Desde sua saída da Tam, Bologna continua no Conselho de Administração da aérea e tem gerenciado a Aviação Executiva da empresa, mantendo sempre relações de alta confiança com os Amaro.Analistas que o consideram o candidato ideal, excluem que a Tam tomaria o risco de admitir na sua presidência um executivo de grande capacidade como Fernando Pinto, demonstradas na presidência da Varig antes que naquela da Tap, pelo temor de que encontraria um ambiente hostil que prejudicaria suas iniciativas, em particular se a sua contratação não incluísse também a dos executivos brasileiros que, com ele, transformaram o perfil internacional da Tap , expandindo e modificando a qualidade de seus serviços.

 

Por todas essas considerações, deveria também ser considerada como aparentemente remota a viabilidade da fusão Tap/Tam divulgada como possível pelo Diário Econômico de Portugal. Já houve no Brasil uma séria tentativa de fusão da Tam com a Varig, que contava com o apoio do governo e visava evitar a ameaça de falência da empresa rio-grandense.Foram longos meses de reuniões, sem resultados positivos, diante dos obstáculos representados pelos interesses comerciais ou corporativos de uma ou outra aérea . Atualmente, se Tam e Tap decidissem o caminho da fusão, numa analise objetiva, seria a empresa portuguesa que mais teria a perder pois, apesar de comparativamente ter um potencial menor, deveria alterar a sua excelente estrutura de rotas internacionais, em constante crescimento, para tentar formulas de integração com a aérea brasileira, cujo principal interesse seria viabilizar sua presença nos mercados europeus, já servidos pela empresa portuguesa , nos quais a Tam detêm participações modestas. Sem contar as dificuldades de entendimento entre uma empresa privada e outra, como a Tap, ainda sob as asas do governo.

Hoje os code-shares e as alianças resolvem os problemas da presença em outros países, sem a necessidade de fusões que na maioria dos casos resultam em confusões, como já aconteceu no Brasil aos tempos da Varig.