SOBRE AS LIBERDADES DO AR
Era
uma vez....Sim, houve uma época em que as cinco ou seis liberdades do ar eram
um dos pontos-chave de todos os cursos ou conferências promovidos por empresas
aéreas ou pelas entidades que as reuniam .Começavam com a permissão de sobrevôo
e terminavam com a concessão de embarcar passageiros num país estrangeiro para
levá-los a outro país, que não era aquele da companhia que efetuava o vôo.E as
empresas lutavam para obter dos governos dos outros países todos os direitos de
tráfego existentes.
Hoje,
depois da liberalização apoiada pelo presidente Carter, permanecem os acordos
bilaterais, há reciprocidade de direitos, como no passado, mas além do
Atlântico ou do Rio Grande ha muitas companhias que pressionam para mais
abertura nas relações aéreas internacionais. A indústria de transportes aéreos
deveria ser considerada como outra indústria qualquer, na qual não há limites
para a concorrência e a expansão das atividades comerciais. Mas apesar desse
conceito, que representa um dos objetivos da liberalização, os governos, vários
governos, continuam criando obstáculos, de antiga e obsoleta consistência
nacionalista, que visam proteger as empresas aéreas nacionais das supostas
ameaças de congêneres estrangeiras. Na realidade se trata de aéreas que
conseguiram crescer e a sobreviver devido aos esforços e ás iniciativas
pessoais de seus executivos, receberam
apoio modesto dos governos e não souberam se auto-proteger, criando seus
próprios hubs e em volta deles seu sistema de rotas. Inclusive gerenciando seu
próprio aeroporto, como fazem, por exemplo, a Delta em Dallas e a American,
Continental, United e Southwest em outras cidades chaves do tráfego doméstico.
Uma idéia que, talvez, a Azul pretende desenvolver no país, abrindo
inicialmente um “hub e spoke” que centralizaria, com
frota própria, o tráfego das capitais nordestinas.
Entretanto,
na atualidade é difícil entender por que em qualquer segmento industrial não há
restrições de parte dos governos que
impeçam ou limitem as atividades de empresas de outros países, enquanto nos
transportes aéreos alguns serviços complementares mas de importância para a
rentabilidade das operações , em geral
ligados aos vôos em terras estrangeiras, não são permitidos por ter sido
classificado como potencialmente prejudiciais ás companhias nacionais e invasivos
de exclusividades que não deveriam existir.
Há
grandes debates, em particular, sobre a liberdade tarifária, os céus abertos,
os serviços que permitiriam a uma empresa estrangeira de aumentar a utilização
de suas aeronaves operando trechos entre cidades do país onde realizam sua
parada inicial. Há uma espécie de complexo de inferioridade que reage á
possibilidade de ver uma American Airlines ou uma AirFrance/KLM operando do Rio
ou São Paulo para, por exemplo, Porto Alegre ou Manaus. Nessas rotas internas,
os vôos de cabotagem não são permitidos. E não é uma restrição apenas
brasileira, mas ela se verifica em numerosos outros países, que consideram um
direito exclusivo das aéreas nacionais operar essas ligações. Aparentemente por
motivos econômicos, na suposição que com seus limitados números de vôos semanais
as estrangeiras fariam concorrência ás empresas nacionais, que oferecem muitos
mais vôos, todos os dias. Mas deveria ser considerado o fato que, para operar
vôos de cabotagem, as empresa estrangeiras precisam antes resolver problemas internos,
quais as limitações das horas de vôo da tripulação, que as obrigariam a
transportar equipes extras dedicadas a essas operações, e exigiriam estadas no
país e gastos em diárias que talvez nem seriam compensados pelo valor das passagens
domésticas vendidas. Por esse motivo deveria ser permitido nas escalas de
cabotagem também o embarque de passageiros que se destinam á cidade de origem
do vôo no exterior.
Um
projeto desse tipo reduziria os custos operacionais, hoje na ordem do dia de
todas as empresas aéreas internacionais,
para compensar as perdas causadas pela diminuição do fluxo dos embarques,
ofereceria mais opções de serviços aos usuários e teria a bênção da IATA. Por
exemplo, uma empresa como a Tap, que opera para oito cidades do Norte e do
Centro do Brasil, nos vôos de certos dias da semana, notoriamente menos
solicitados, com uma única aeronave poderia atender duas cidades brasileiras
que normalmente tem seu próprio vôo para Portugal, oferecendo uma tarifa menor
aos passageiros que embarcam na cabeceira, para compensar o incomodo do stop intermediário. Ou a congênere
poderia voar para um novo aeroporto internacional do país, se lá houvesse um
número razoável de passageiros, reunidos por uma agência de viagem. A aérea
operaria como empresa regular, mas em circunstâncias particulares também como
charter. Por exemplo, com certeza os moradores de Porto Alegre ou Curitiba
apreciariam ter um vôo que, com uma escala intermediaria, os levassem até a
Europa. De outra maneira, apesar da demanda, nem os Airbus da Tap tem autonomia
para transportá-los, non-stop, de Porto Alegre para Lisboa ou vice-versa,
apesar da capital portuguesa ser a mais próxima do Brasil.
Quanto
á eliminação das restrições tarifárias, já em aplicação gradual no Brasil, até
agora nenhuma das preocupações dos setores contrários á iniciativa da Anac tem
demonstrado a menor consistência. Aliás, nas rotas americanas mais procuradas foi
registrada a tendência de aplicar tarifas acima das médias e não há notícia de
tarifas predatórias de parte das aéreas estrangeiras, temidas pelos
conservadores de sempre, cujo objetivo seria supostamente desestabilizar as
empresas nacionais.
Por
último, o projeto básico que define os céus abertos, em vigor entre a Europa e
os Estados Unidos, onde é contestado por algumas empresas, com certeza se
expandirá quando a crise econômica atual for superada. Por enquanto, no país várias
empresas americanas já têm seus vôos para diversas cidades brasileiras, além do
Rio e São Paulo, imitando a Tap que foi a primeira a descobrir que para ampliar
a sua rede de rotas, sem ferir o acordo bilateral, bastava inaugurar ligações
diretas para outras cidades do país. E não se justificariam restrições pelo
fato de faltar a recíproca. De fato a Gol recolheu os aviões da Varig que
voavam para a Europa e deixou de realizar os vôos para os Estados Unidos e a
Tam não quer investir mais no potencial das rotas européias, que são aquelas
que despejam no país os números mais elevados de turistas.
Concluindo,
as restrições que engessam a aviação comercial impedem o seu maior
desenvolvimento e, no caso do Brasil, contribuem para as anêmicas estatísticas
dos fluxos turísticos para o país. A defesa teórica dos interesses das
companhias brasileiras é sem dúvida importante, mas o que se viu até agora
foram resultados que levaram á falência, uma após a outra, as maiores aéreas
nacionais. Talvez uma visão mais comercial das liberdades do ar obrigaria Tam e
Gol a considerar a competição internacional como um incentivo ao próprio
desenvolvimento e não como uma ameaça. E provavelmente traria vantagens para os
usuários dos transportes aéreos cuja existência, nestes debates, continua sendo
quase ignorada.