UM DESASTRE EM RITMO
DE COMPUTADOR
O desastre
com o avião da Air France continua ocupando as primeiras páginas dos jornais e
aos poucos parece que suas causas estão sendo encontradas. Falta a confirmação
da caixa preta, difícil de ser localizada, mas apesar da resistência de parte
da Airbus, parece que teria sido o chamado pitot
tube o engenho computadorizado que complicou os esforços do comandante para
manter o A330 voando no meio da tempestade que enfrentou ao se adentrar no
Atlântico. Pelo pitot, cuja entrada
se encontra na frente da aeronave, entra o fluxo de ar que, passando por três
medidores, marca a velocidade de vôo e transmite os dados a uma espécie de
taquímetro. Parece que, devido ao mau funcionamento desses sensores, os dados
chegaram alterados á cabine de comando, talvez devido a formação de cristais de
gelo no tubo, fazendo o comandante intervir erradamente na tentativa de elevar
a velocidade da aeronave, que na realidade já era a permitida. Essa manobra submeteu
a estrutura da aeronave a um esforço excessivo, que poderia ter causado a
desintegração do A330 ou outro problema que, por ser gravíssimo e imprevisível,
não deu tempo para qualquer reação.
A seriedade
da suspeita tem alarmado justamente a Airbus, uma empresa européia que teve o
merecimento, devido á qualidade técnica de suas aeronaves, de reduzir o domínio
da Boeing americana, que estava se tornando um verdadeiro monopólio na produção
de aviões de grande porte, depois do desaparecimento da Loockeed e da absorção
da McDonnel/Douglas. A ocorrência de problemas parecidos, mas sem conseqüências
fatais, provocados pelos sensores em aeronaves em vôos de outras empresas
realizados neste período, contribuiu para evidenciar o perigo que falhas em
instrumentos de elevada precisão computadorizada podem causar á navegação, se
não detectados em tempo ou se causarem reações indevidas, mas coerentes,
baseadas nas aparências registradas automaticamente na cabine de comando.
Além que pela
influência negativa sobre suas vendas no próximo Salão Aeronáutico de Le
Bourget, o show da produção aérea mundial de Paris, em relação aos seus A330 e
aos A340, a Airbus está preocupada, junto com a Air France, que faz parte do
consorcio europeu produtor dessas aeronaves, pelas responsabilidades penais que
poderão ser-lhes atribuídas – se forem confirmadas omissões ou falhas de
natureza técnica. Por isso , primeiro o diretor-geral da Air France e depois a
própria Airbus ,decidiram contestar as versões que atribuem ao sensor a culpa pelo desastre com o AF 447 e pelos problemas
que obrigaram os vôos de outras empresas a efetuarem aterrissagens de
emergência fora de suas rotas.
Em nome da
Air France, Pierre-Henri Gourgeon rebateu as críticas que surgiram depois que
se soube que a Federal Aviation Administration dos EUA havia assinalado desde
2002, num seu relatório, que a substituição das sondas pitot era necessária “para prevenir perdas ou flutuação de
informações de velocidade” e, ainda, depois que a Direção Geral de Aviação
Civil da França, em 2003, havia indicado a existência de defeitos de fabricação
nos sensores de velocidade (pitot) fabricados pela Thales Avionics. Sua
instalação, proibida nos A320, voltou a
ser efetuada, com supostas melhorias, nos A330 e A340 .O diretor-geral da Air
France justificou a longa demora da sua aérea na substituição dos sensores, que
havia sido recomendada pela Airbus, afirmando que a empresa havia recebido os
novos modelos apenas “na sexta-feira, véspera do acidente” e que logo em
seguida acelerou a troca de todos os pitot
de sua frota de A330 e A340, apesar de pessoalmente não estar convencido de que
foram as sondas que causaram o desastre.
Depois da Air
France, foi a vez do presidente e do vice-presidente da Airbus falarem em
defesa das aeronaves, até agora vitoriosas nos mercados mundiais, fabricadas
pela empresa. Thomas Enders, o presidente,tratou com diplomacia as acusações
aos pitot, lembrando que a cada dois
segundos um jato da Airbus decola no mundo e que os A330 estão entre os
melhores equipamentos já construídos.Mas não soube explicar a grande procura de
novos sensores e as pressões dos pilotos para que as trocas ocorressem logo,
enquanto o vice-presidente ,Fabrice Bérgiers , atribuiu á pressão dos
comandantes e aos reflexos que alguns artigos de imprensa tiveram sobre a opinião
pública (leia-se usuários), as
tensões que antecederam o anúncio da troca de sensores por parte das aéreas que
operam essas aeronaves. Classificou de irresponsável a circulação de notícias
que atribuem ligações entre o acidente com o AF 447 e a navegabilidade do A330,
mas admitiu que os dados enviados automaticamente pelos sensores de velocidade
da aeronave em perigo á central da Air France, pouco antes da tragédia,
representam “uma parte dos fatos” que ocorreram naquela noite fatídica. Mas
enfatizou que o A330 é um avião seguro, cuja confiança foi renovada em recente
simpósio
Entretanto,
sem que ainda isso fosse obrigatório, várias companhias trocaram os sensores
externos de seus aviões. Obedecendo á recomendação, entre as 18 empresas que
voam para o Brasil já atualizaram parte ou toda a frota, além da Air France, a
Tap, a Avianca, a South African e a Tam, que já havia tomado antes essa
providência. Outras, com menor número de aviões Airbus, já teriam tomado a
mesma decisão. No Brasil, por coincidência, também o Airbus ACJ-319 da
presidência da República teve seu sistema externo de sensores substituído na
semana passada. Outrossim, segundo o ministro da Defesa, Nelson Jobim, a Tam
trocou desde 2007 os tubos do sistema de medição de velocidade de seus Airbus,
depois que foram registradas falhas nos
pitot, aparentemente devidas a alguns entupimentos causados pelo gelo.
Assim, teoricamente, estaria para ser concluída a difícil investigação sobre um dos mais trágicos desastres aéreos internacionais, o primeiro ocorrido em águas do Atlântico próximas das costas brasileiras, numa rota de prestígio como a Rio/Paris, operada pelo A330 da Air France, uma aeronave da nova geração em atividade somente há 4 anos. Mas é evidente que são tantos os detalhes que ainda faltam para esclarecer plenamente o ocorrido, que não será motivo de surpresa se através da caixa preta, cuja descoberta no fundo do oceano parece impossível, ou de outras investigações, novas versões e novas responsabilidades poderão ser apuradas. Permanente, ficará apenas a saudade das famílias das vítimas.