O ATUAL ENGANOSO CRESCIMENTO
DO PIB
Há grande euforia nos
ambientes governamentais e financeiros. Os primeiros comemoram o fato que as
economias estão saindo da crise que, em geral, começou em 15 de setembro do ano
passado, quando o gigante financeiro Lehman Brothers pediu concordata nos
Estados Unidos e os efeitos devastadores da iniciativa, não bloqueada pelo governo,
se espalharam pelo mundo. Quanto aos bancos e ás instituições financeiras, que
receberam dezenas de bilhões dos governos dos respectivos países, para que não
declarassem bancarrota e ajudassem as grandes e pequenas empresas a reiniciar
suas atividades, continuam em maioria suas operações financeiras – mas não na medida desejada pelos governos –
muitos deles provavelmente com a mesma disposição de ganhar de qualquer maneira
dinheiro de seus clientes. O que falta até agora são as medidas preventivas e
de controle das instituições financeiras, muitas vezes anunciadas pelos
governos, para valer no mundo inteiro, que deveriam impedir o crescimento no
curto ou médio prazo de novas bolhas, que acabariam estourando novamente nas economias.
Pouco se fala de sua
verdadeira origem, mas é sabido que a crise financeira e suas implicações
econômicas nasceram da globalização capitalista e, confirmando as teorias de Marx,
atingiram prioritariamente a classe trabalhadora, media e baixa. E se no
estouro da bolha houve também milhares de executivos que perderam salários
fabulosos isso foi justo e necessário, como punição por terem alimentado em má
fé os sonhos de quem queria ter uma casa, oferecida como um presente, através
de impagáveis hipotecas de alto risco. Mas foram milhões, nos Estados Unidos e
pelo mundo, os inocentes demitidos porque as empresas nas quais trabalhavam
viram suas receitas diminuir, reduziram a produção, exportaram menos e que,
para minimizar os custos, tiveram que afastar funcionários fieis, que ainda
acreditavam num futuro tranqüilo.
Os PIBs caíram juntos com a
produção dos setores mais dinâmicos dos países. E os mesmos economistas que não
souberam prever a crise, que se empolgavam com a novidade das hipotecas subprime, achavam maravilhosas as
arrancadas das Bolsas e a multiplicação das opções de investimentos altamente
remunerativos, começaram a calcular os supostos números indicativos da redução
da produtividade nacional e divulgaram suas previsões para 2008 e 2009.
Sujeitas a continuas atualizações em 2008, elas se revelaram em maioria erradas
já no primeiro semestre de 2009. Mas o pessimismo dos economistas, não
confirmado, alimenta agora a euforia dos governos, nos países onde um moderado
reinício das atividades representa índices de aumento a serem calculados no
bolo do Produto Interno Bruto.
E a história se repete. Políticos
á procura de votos capitalizam o orgulho do PIB em crescimento, apesar da
prática impossibilidade de transferir seus benefícios para os enormes segmentos
de pessoas marginalizadas, para milhões de trabalhadores que devem viver com
salários mínimos, devidamente descontados dos impostos devidos. E é raro
encontrar nos magníficos gráficos que ilustram a virada da produtividade, os
nomes das empresas privadas que atuam nos setores mais dinâmicos, as que
crescem mais, produzem mais, exportam mais, vendem mais nos supermercados.
Firmas cujos executivos muito bem pagos voltam a circular de carros importados,
moram em mansões de luxo, viajam para o exterior na top class das aéreas e dos hotéis.
Ninguém tenta descobrir, através de outros gráficos, em qual percentual o aumento
dos pibs está beneficiando operários ou empregados, sua influência na escalada
dos preços dos produtos alimentares, nos artigos de consumo. Aliás,
apresentadas como sendo providências a favor da economia, mas na realidade para
permitir á indústria de vender mais caros seus produtos, são criados mais impostos
sobre os similares importados, que as classes menos privilegiadas adquirem
porque são mais baratos dos nacionais, quando vem da China por exemplo. Pelo
contrario, ao invés de aumentar os impostos sobre produtos que vem do exterior,
deveria ser reduzida de forma permanente a carga a tributária que onera muitos
segmentos da economia do país, assim como aconteceu por breves meses com o IPI
sobre veículos leves, para minimizar o chamado “custo Brasil” e permitir a
livre competição de preços, em terra e no ar.
A classe média baixa
brasileira, que em algumas cidades já é maioria, deveria comparar os preços de hoje
com aqueles de 1994, quando houve o debute do real no mercado nacional, no
contexto do extraordinário crescimento do PIB nacional. Poderia comparar,
também, os lucros dos empresários, antes da breve crise, com os aumentos
salariais concedidos á maioria dos trabalhadores. Ou verificar o crescimento
dos preços de alguns itens de uso comum, escolhidos ao acaso numa lista de
centenas. Verificaria, por exemplo, que há 15 anos uma entrada de cinema
custava R$ 4,61; uma Coca-Cola média R$ 0,45; uma caixa de leite Longa Vida R$
0,96; um kg. de filé mignon nas Casas Sendas do Rio R$ 4,72; uma cerveja Skol
de 350ml R$ 0,39; um ferro de passar Walita R$ 14,70 nas Lojas Americanas. Hoje,
apesar da saudável concorrência asiática, um ferro de passar nacional do mesmo
tipo do velho Walita, é vendido a um
preço três vezes mais caro, incluindo os juros das “suaves” prestações mensais eventualmente
debitadas no seu cartão de crédito.
Moral da história: em paz e
em guerra e até nas crises financeiras, são sempre os capitais os que ganham. Por
isso, os mesmos bancos que vivem e crescem ás custas de taxas exorbitantes impostas
aos clientes, receberam de graça dos governos alguns trilhões de dólares e
muitos bilhões de euros, de reais ou de outras moedas dos contribuintes. Dinheiro
esse que devia ser destinado a objetivos sociais, cujo pagamento indevido, pelo
menos no Brasil, foi compensado em parte pelo aumento do número de indigentes,
agora mais de 13 milhões, que recebem do governo a Bolsa Família. Segundo
pesquisa publicada semana passada pelo
Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, IPEA, esse programa reduziu de 19% as
desigualdades sociais do país. Mas nem por isso se deixou de premiar
desonestidade, abusos, crimes financeiros, visando manter na ativa indispensáveis
estruturas capitalistas, que com a globalização se tornaram onipotentes, ao
ponto de obrigarem os governos a pagar suas dívidas sociais.
Todos nos compartilhamos a
satisfação de saber que o país produz mais, que postos de trabalhos perdidos
estão sendo re-oferecidos, mas com certeza a maioria apreciaria também
verificar que a crise inspirou mudanças a favor dos menos favorecidos e que a nova
conjuntura melhorará o nível de vida de todos e não apenas propiciará mais
lucros aos donos daquelas empresas particulares ou anônimas, que voltaram a
contribuir ao aumento do PIB nacional.