O FIM DO DUOPÓLIO TAM / GOL

 

Não é necessário ser videntes, nem pertencer ás supostas elites técnicas da Anac ou do Snea, para constatar que o duopólio Gol/Tam – motivo de insônia para expoentes do governo e da indústria de transportes aéreos – já era. Todavia, sendo apenas dois os competidores engajados na conquista do mercado nacional , era inevitável que isso se verificasse, tomando consistência depois que a Varig foi esterilizada pela Gol. Mas perdeu credibilidade quando a Azul, a Webjet e a OceanAir começaram a disputar fatias do tráfego doméstico.

 

A palavra “duopólio” ainda não estava incluída na segunda edição do dicionário Aurélio, talvez refletindo uma época nas qual era ignorada essa forma de mercado, que se verifica quando somente duas empresas estão em concorrência entre elas, para prevalecer na preferência dos usuários de determinado produto ou serviço. Mas era bem definida no dicionário a palavra “monopólio”, como sendo “tráfego, exploração, posse, direito ou privilégio exclusivos” sem concorrente. Diga-se de passagem que , no setor aéreo, falou-se até a década de 90 de monopólio da Varig que, segundo suas competidoras, teria chegado ás alturas por ter recebido do governo direito de exploração das rotas internacionais e privilégios de tráfego que nos anos de seu maior sucesso excluíam sistematicamente as congêneres. E quando as autoridades decidiram ser mais liberais, admitindo outras empresas na competição, a aérea foi atingida em pleno nas rotas do mercado americano, pois a recíproca obrigou o país a abrir suas portas para adversárias poderosas, enquanto as duas que pretendiam participar da divisão do bolo com a Varig em breve pereciam nas amarguras da falência. Mas essa é outra conversa.

 

Voltando ao duopólio, a partir de julho passado foi registrado o avanço de três empresas menores, que ao conquistarem cerca de 12% de participação do mercado doméstico demonstraram ter uma vitalidade até então sub-valorizada pelas concorrentes maiores. Essa conquista de passageiros, em parte originários da Gol e da Tam, em parte gerados pelas tarifas e pelas rotas mais convenientes, não chegou a abalar as congêneres integrantes do duopólio, mas sem representar um sinal de alarme, foi como uma advertência de que com o advento de novas competidoras seria oportuno que elas atualizassem rotas, recorressem ao apelo de tarifas reduzidas, sem esquecer de enfatizar qualidades, tradições, consistência operacional e técnica.

 

De fato não precisa a bola de cristal para prever que o objetivo da Azul, da WebJeyt  e da OceanAir seja  levar suas operações á rentabilidade e além. Objetivos esses que motivaram os acionistas investidores e que representam a finalidade de suas existências. O problema é selecionar e quantificar as etapas de um crescimento operacional rentável e escolher estratégias oportunistas, baseadas no aproveitamento das eventuais falhas das congêneres e, em particular, na conquista gradual não somente dos segmentos do tráfego existentes, mas também na motivação do tráfego potencial, para que passe a integrar o universo dos viajantes por via aérea. Não faltariam ás três apoios financeiros: a primeira conta com capitais nacionais e estrangeiros confiantes nas habilidades do fundador que veio dos Estados Unidos e que conta com o apoio do ministro que o recebeu como amigo, antes de confiá-lo aos cuidados de entidades governamentais dependentes; a segunda conta com as ambições do dono multinacional, com um pé aqui e outro na Colômbia, que em curto prazo disporá de ampla frota de Airbus e possui também direito de tráfego internacional; a terceira, em mais uma etapa de sua milionária evolução no mercado turístico, dominando no rico segmento do tráfego aéreo dedicado ás viagens de grupos e tendo entre seus executivos um “ex” que fez suas experiências de marketing numa das grandes, avança agora na conquista de pontos na participação de mercado.

 

As três oferecem opções de vôos para os mesmos destinos das rotas operadas por Tam e Gol, com os “a mais” representados por tarifas competitivas, que utilizam com bastante agilidade e por serviços de qualidade, em vista do nível em geral modesto daqueles que, por motivos econômicos justificados pela crise mundial, são oferecidos em terra e a bordo pelas duas maiores. De fato, depois da perda de mais de um bilhão de reais cada uma no ano passado, 2009 se apresentou com muitas incógnitas para Gol e Tam, e exigiu cortes de custos para evitar mais perdas e iniciar uma reação que está dando os primeiros sinais positivos nos balanços trimestrais. Mas a competição para aumentar o índice de aproveitamento das aeronaves esbarra na redução do tráfego de negócios, que no passado representava o “filé mignon” das receitas, aqui e entre as empresas que operam no exterior. E o recurso a descontos tarifários aumenta os índices de utilização dos assentos, aumenta as receitas brutas, mas os custos causados pelo excesso de oferta atingem o lucro operacional.

 

Outro motivo que freia uma reação mais firme de Tam e Gol está relacionado com a atual escassez de fundos de caixa, que as duas estão gerando, com dificuldades, recorrendo á Bolsa onde despejam suas novas ações. Sem contar com a preocupação com o preço do petróleo, que deu indícios de indesejada reação juntamente com a aparente melhoria da conjuntura econômica mundial. Depois das perdas causadas ano passado pelos hedges no combustível, ninguém quer assinar contratos que garantam um preço aceitável, abaixo de US$ 80 por barril. E há o problema das entregas de novas aeronaves, que oneram a necessidade real do momento, mas poderiam faltar a partir da represa do tráfego aéreo, numa conjuntura mais tranqüila.

 

Assim, se o panorama dos transportes aéreos nacionais agora é outro, melhor comparativamente daquele de outros países, se afastando do domínio anterior de Gol e Tam, pode-se afirmar que a indústria entrou numa terceira fase, desde a longínqua década em que nasceu no Rio Grande do Sul. Começou virtualmente como dominada por um monopólio, viu as grandes de turno caírem no esquecimento uma após a outra, ficou dominada por um suposto duopólio e agora tem o tráfego repartido entre cinco, e mais algumas pequenas. Nesta nova conjuntura a pergunta é: a concorrência causará mais vítimas ?