VIAJANDO COM MEDO DA GRIPE SUÍNA
Evitar viagens na Argentina
e Chile, recomenda o Ministério da Saúde, enquanto a Secretaria de Saúde do
Estado de São Paulo inclui na lista também México, Estados Unidos e Canadá. De
parte da Organização Mundial de Saúde, OMS, não existem essas recomendações,
apesar de ter elevado para o nível máximo o grau de alerta em relação á gripe suína,
depois de considerar a doença uma pandemia e de admitir que nesta fase o avanço
do vírus pelo mundo já não pode ser bloqueado. Serão precisos um ou dois anos
para que cesse o atual aumento do número de casos , agora que a transmissão da
gripe entre duas pessoa assumiu características locais, não dependendo somente
do fato de uma delas ter-se infectado na viagem realizada no exterior.Foi essa
evolução que levou a OMS a identificar
com o nome de pandemia aquela que antes era considerada uma epidemia.
Mas permaneceu uma característica importante da gripe suína: a letalidade do
vírus permanece bastante baixa, em volta de 0,4% dos casos assinalados.
No Brasil, diante dos
registros que evidenciam o aumento consistente
dos casos na segunda quinzena deste mês, está surgindo um estado de
alarme algo desproporcional á limitada perigosidade da gripe suína, que
praticamente não é mais grave da gripe sazonal, que sempre aparece com a
chegada do frio, se diferenciando apenas pela relativa facilidade de transmissão
do vírus.
Nessas circunstâncias, as
recomendações para que sejam evitadas viagens, principalmente de idosos e de crianças,
para cidades com elevados índices de pessoas infectadas poderão se revelar
insuficientes para bloquear uma das formas de difusão da gripe no país. De
fato, todo viajante estrangeiro, quando desembarca no Brasil procedente dessas
regiões é potencialmente portador de gripe suína encubada, que no momento do
controle não apresenta sintomas evidentes da doença. E, pelos resultados até
agora registrados, a mutua difusão do vírus tem fugido aos controles oficiais,
tanto quanto ás medidas de proteção que os indivíduos adotam visando se
imunizar. Todavia, sem excessos ou alarmes desproporcionais, detectar no início
os portadores do vírus e isolar-los representa a forma mais eficiente para
reduzir as possibilidades de transmissão da gripe.
Mas há o outro lado da
medalha. Ao recomendar que evitem viagens para os países da América Latina que
registraram mais casos, evidentemente pela sua posição geográfica sujeita a
temperaturas invernais mais baixas, que reduzem as defesas do organismo, o
Ministério da Saúde não avaliou em sua totalidade os efeitos que o possível
atendimento em massa á sua sugestão poderá ter sobre os transportes aéreos. Nem
os possíveis conflitos familiares, entre quem já sonhava com a vigem e a
prudência de quem quer evitar de correr riscos. Sabe-se que as recomendações
que objetivam evitar perigos para a saúde, costumam atingir audiências bastante
numerosas. Mas é provável, por exemplo, que os mesmos alunos que aceitaram como
normal a suspensão das aulas, para evitar possíveis contágios, sejam menos complacentes
com a mudança de planos decidida por seus pais, se já haviam programado gozar
as atrações invernais do Chile ou da Argentina. A espera, se assim for decidido,
será de pelo menos um ano.
E quais serão os efeitos da recomendação, se
cumprida em massa, junto das empresas aéreas? Chegamos assim a um ponto bastante delicado da iniciativa do
ministro da Saúde. De fato, apesar de ele ter admitido que não é uma
determinação, pois “a OMS não índica qualquer restrição a viagem, mas é uma
recomendação”, depois acrescentou: “Se
for uma viagem imprescindível, ok......”, quase não deixando espaço para a
grande maioria dos viajantes, que notoriamente tem poucos motivos
“imprescindíveis” para querer conhecer os dois países do Sul. Assim, se a
mensagem do ministro for aceita pelos
candidatos a turistas nas férias de julho, os cancelamentos de reservas terão
para as companhias aéreas nacionais conseqüências financeiras bastante sérias,
pois as obrigarão a desmontar boa parte de seus programas de freqüências para
as cidades da Argentina e do Chile, na estação
de demanda mais elevada de viagens para essas regiões.
Em
particular serão atingidas a Gol e a Tam, com destaque para a primeira, que englobando
parte dos vôos antes operados pela ex-Varig, concentra seus serviços para o
exterior nesses países. Menos vôos, menos horas extras para os tripulantes,
mais aviões parados nos hangares. Sem contar os prejuízos dos organizadores de
serviços terrestres, que em seus pacotes acrescentam á parte aérea as estadas
em hotéis e a alimentação. Com milhares de visitantes brasileiros a menos, a
estrutura turística da Argentina e do Chile sofrerá um duro golpe, comparável
com aquele sofrido pelo México, como já foi evidenciado pelas entidades de
turismo dos dois países.
Há
duas perguntas que deveriam ser respondidas pelo ministro do Turismo, para
justificar totalmente sua recomendação aos viajantes potenciais: 1) “é verdade
que a gripe suína tem um nível de risco para a saúde dos infectados igual ou
menor daquele que é atribuído á gripe comum, sazonal?” e, 2) “são verdadeira as
estatísticas que registram como ocorridos no Brasil, na gripe de 2007, cerca de
180 mil casos de falecimento?”.