LEMBRANDO AS FRÁGEIS ASAS DE ÍCARO

 

Os desastres aéreos continuam sendo uma exceção. O dizem a IATA, as empresas aéreas, as estatísticas. Basta entrar no saguão de qualquer aeroporto internacional, dar uma olhada nos monitores que registram chegadas e partidas das aeronaves, seus destinos, o intervalo entre uma e outra partida ou aterrissagem, para se convencer de que os índices de segurança no ar são os mais elevados, na comparação com outros meios de transporte, trem, carro, moto, helicóptero e até bicicleta.

 

Mas há um “mas”, como sempre, que altera a imagem amiga de um Boeing ou de um Airbus decolando. Trata-se da eventualidade remota de que ele não chegue ou destino e, nesse caso, os nomes das vitimas poderão ser numerosos ao ponto de enlutar centenas, em vários países, e ter seu impacto multiplicado pela divulgação das mídias. Vamos anotar algumas divagações sobre o assunto.

 

Há, muitas vezes, justificados exageros nos destaques que a imprensa dedica a um desastre aéreo, mas os títulos de página inteira impressionam os leitores, aumentam as vendas do jornal, informam, cumprindo uma norma que a liberdade de comunicação tutela no mundo inteiro, o quase. Não haveria razões de nenhuma natureza, éticas ou humanitárias, para exigir um comportamento diferente de parte das mídias. Os leitores, ou os usuários dos tele-jornais exigem a informação, os detalhes, os comentários sobre o ocorrido. E poucos pensam, na hora, nas lacrimas de quem  até o último instante esperou de não encontrar o nome ou as imagens de pessoas queridas, na lista dos que não voltarão.

 

Nos anos ’30, em pleno fascismo,  entre as normas rigorosas para suposta tutela da imagem do regime e da ordem pública vigentes na Itália, na verdade motivadas por excessos de insegurança política e obvias fraquezas, uma delas proibia a publicação em jornais ou revistas de qualquer referência a casos de suicídio. Naquela época, segundo os ministros ,o país era feliz, ninguém na Itália se matava, por quaisquer razões.O país era forte, unido sob o regime, confiante em seu futuro e..se preparando em silêncio e na maior discrição para as guerras, umas ganhas inicialmente na África, outra, a última, tragicamente encerrada em 1945.Os jornais eram um vinculo entre o povo e o regime que governava o país, que deles usava e abusava em tempo de paz ,para esconder as humanas fraquezas, da mesma maneira como mais tarde faria  com  as batalhas perdidas . Vetar ou limitar a publicação de coisas que acontecem pode levar a todos os excessos. Assim como onde há liberdade existe o culto da livre imprensa, em outros países quaisquer pretextos são validos para esconder verdades.

 

Os tempos mudaram e atualmente, com o reforço dos e-mails, dos meios eletrônicos  de comunicações, pela internet, pela TV ou pelos celulares, somente segredos de estados ainda fogem da imprensa. As outras notícias podem até chegar ao usuário incompletas ou alteradas, mas ninguém consegue mais esconde-las. Como aconteceu antes que os primeiros flashes do desaparecimento do AF447 nas águas do Atlântico fossem divulgados pelos canais de televisão. Milhões de pessoas já estavam ao par do ocorrido e só aguardavam mais pormenores do noticiário das TV, que os  jornais, atendendo a uma exigência de seus leitores, detalhariam no dia seguinte com as informações coletadas durante a noite. Pois qualquer omissão de notícias de impacto, já de conhecimento geral, afetaria seriamente seus futuros índices de circulação diária. Há quem comenta que a imprensa escrita cederá seu espaço á publicada na internet, mas de uma ou outra maneira sempre haverá destaque para os episódios dramáticos, seja pelas circunstâncias ou pelo número de vítimas.

 

Não poderia ser diferente quando eles focam os desastres aéreos, com todas as suas complicações  técnicas, possíveis interpretações ou  todas as suas incógnitas. O fato é que aconteceu algo cruel, fruto de uma imprevisível e indesejada situação de risco, á qual ninguém se exporia se lhe faltasse a sensação de segurança total, na hora do embarque para quaisquer destinos e em qualquer aeronave.

 

O embarque é para a grande maioria dos passageiros um momento de alegria. Assim foi, provavelmente, também na remota tragédia de Ícaro, reveladora da frustração de um sonho de liberdade, mas principalmente do vão desafio ás regras físicas da natureza. Que continuam dominando sobre as nossas vidas, através dos séculos. Pois, desde a fabula das asas de cera que pretenderam enfrentar o calor do sol, apesar dos triunfos da técnica que hoje levantam toneladas para todas as alturas e temperaturas do planeta, ainda acontecem no ar tragédias que estimulam a sensibilidade dos leitores e a fantasia dos enviados especiais. Uns e outros apagam esses estímulos nas páginas da imprensa. Enquanto os técnicos procuram descobrir de onde vieram as forças que destruíram os sonhos dos viajantes.