GRIPE SUÍNA
NÃO ADMITE VACILAÇÕES
O título é para chamar a sua atenção. De fato, no Brasil o Ministério da Saúde não teve vacilações comprometedoras e se algum desleixo lhe é imputado, deve ser dito que, em geral, nada mais fez de que cumprir as normas da Organização Mundial da Saúde. Essas diretrizes para o combate á influenza A, antes chamada de gripe suína, depois codificada como H1N1, sofreram alterações não divulgadas totalmente com o passar dos meses, apesar de evidenciadas pelo comportamento da influenza em alguns dos 168 países que registraram casos da doença.
Atualmente, no Brasil, a polemica de alguns especialistas com o Ministério está relacionada com as restrições impostas á comercialização do único antiviral conhecido, o Tamiflu, que as farmácias afirmam não possuir e cuja distribuição foi agora confiada aos quartéis do Corpo de Bombeiros, mediante apresentação da receita médica. Os críticos afirmam que o atraso entre a suspeita da doença de parte do médico e a ingestão do remédio deveria ser mais breve, se é verdade que o Tamiflu funciona se tomado no segundo dia de manifestação da influenza. Por esse motivo está sendo atribuído á política restritiva do Ministério o crescimento da taxa de mortalidade no Brasil, que chegou a 0,09 por grupo de 100 mil habitantes, contra uma previsão inicial de 0,04 depois elevada na média internacional para 0,06. E ainda deve ser notado que muitos Estados do Brasil não registraram casos de influenza e que, por isso, a comparação com países como Argentina ou Estados Unidos , cujo número de mortes abrange o inteiro país , não espelharia a realidade.
Lendo as opiniões de especialistas que acompanham a evolução da influenza, no Brasil e nos Estados Unidos, vale a pena registrar algumas evidências na luta contra a doença que ainda não foram tomados oficialmente em consideração no país. Segundo o Dr. Richard P.Wenzel, da Virginia Commonwealth University, citado num longo artigo publicado pelo The New York Times de terça-feira passada, haveria novidades nos sintomas da influenza que não estão sendo divulgados. Nas viagens que, atendendo ao convite de grupos interessados em conhecer a sua opinião sobre a doença, fez aos Estados Unidos, México e quatro países da America do Sul ele, que já foi presidente da International Society for Infectious Diseases, detectou que, por uma estranha mudança, o vírus da H1N1 não estava causando mais a febre em um número significativo de casos: cerca de 50% no Chile e em volta de 30% no México, com percentagens menores em outros países. A falta desse sintoma, considerado de extrema importância, impede a imediata diagnose da existência da influenza e atrasa as providências essenciais para debelar o mal.E em poucas horas o vírus pode acabar com a vida do paciente. Outro especialista americano, o Dr.Anthony E.Fiore, epidemiologista dos Centers for Disease Control and Prevention de Atlanta, lamenta que até agora não tenha sido dado importância á constatação que também a obesidade é um fator que aumenta o risco de complicações da influenza.
No Brasil, o diretor do departamento de Vigilância Epidemiológica do Ministério da Saúde, Eduardo Hage, depois de evidenciar as providencias tomadas no país para que o Tamiflu chegasse ás pessoas efetivamente atacadas pela influenza, admitiu que o número de óbitos no Brasil pode ser maior dos 192 casos que haviam sido divulgados oficialmente até o dia 11 de agosto. Ele falou em 270 mortes, mas não excluiu um número mais elevado, devido aos atrasos na confirmação dos laboratórios que efetuam os exames dos falecidos e na chegada das notificações ao Ministério. De sua parte, o médico infectologista da UFRJ, Edimilson Migowski, atribui á tardia distribuição do antiviral uma das principais causas do elevado número de mortes no Brasil, superior ao da Inglaterra, onde ocorreram quase 100 mil casos de infecção e ao do Chile, considerado uma espécie de centro de difusão da influenza na América do Sul. E o presidente da Sociedade Mineira de Infectologia, Carlos Starling, expressou o parecer que se o controle do Ministério sobre a distribuição do Tamiflu evitou uma corrida ás farmácias, pode também ter prejudicado os doentes efetivos, que tem apenas 48 horas para tomar o antiviral com sucesso, depois do aparecimento dos primeiros sintomas. A decisão de permitir agora aos médicos de receitar o produto, demonstraria que o Ministério, apesar de talvez não dispor no momento de um estoque suficiente, entendeu que “é preferível errar para mais, facilitando ao máximo o acesso ao antiviral”. Acesso que agora o Sindicato dos Médicos do Rio de Janeiro critica, “porque há muita burocracia para o paciente chegar ao antiviral através dos quartéis do Corpo de Bombeiros”. E há também a ação contra a União, o Estado e a Prefeitura iniciada por um defensor público, na qual se exige a completa disponibilidade do antiviral, inclusive nas farmácias.
Quanto ao estoque do Tamiflu, em vista da possível multiplicação dos casos de influenza no Brasil nas regiões da faixa Atlántica, que segundo o Ministério seria freada com a chegada do verão, não haveria previsão de escassez do medicamento. O Ministério da Saúde garante que já distribuiu cerca de 400 mil tratamentos para os Estados, possui um estoque estratégico de 9 milhões de antivirais, receberá outros 800 mil no final de agosto e concluiu com o laboratório Roche a compra de mais 9 milhões, que receberá até março de 2010 para ter o antiviral disponível no inverno do próximo ano, se a influenza continuar ameaçando a saúde pública.
Duas notas importantes do artigo do jornal americano merecem registro. A primeira cita o aparecimento de mais um provável sintoma do H1N1, que seria a diarréia, ao se comparar a gripe comum e com a influenza. E há criticas aos testes para descobrir se o paciente adquiriu a influenza ou tem outra doença respiratória, pois nem sempre oferecem resultados confiáveis e rápidos. Isso ocorreria apenas quando as diagnoses da influenza são feitas com o P.C.R. disponível somente em seletos hospitais. A segunda nota enfatiza que são escassas as informações referentes ao momento em que a pessoa antes infectada acaba de espalhar o vírus , que já foi encontrado nas mãos de muita gente, nas mesas próxima das camas dos pacientes, em outras superfícies lisas, e até no mouse de computadores. A infecção teria mais formas de transmissão, (em particular quando se trata de categorias de pessoas consideradas de risco por possuir reduzidas defesas imunitárias), além dos meios já conhecidos. Por isso, se justifica uma maior atenção as aglomerações hospitalares e aos locais onde, através das mãos, objetos ou peças recebem múltiplos contatos.