DEPOIS DA CRISE, TAMBÉM AS EMPRESAS AÉREAS PRECISAM DO APOIO DOS GOVERNOS

 

Com tantos bilhões injetados nos bancos pelos governos, parece que essas instituições decidiram melhor atender as solicitações dos mercados. Assim já se fala em reação  e, pelo menos no Brasil, já se considera iniciada a recuperação progressiva das economias. Há muito otimismo e, em todo caso, ninguém parece se lembrar dos “mortos e feridos”, que na crise financeira foram os milhões de pessoas que perderam suas economias em investimentos artificiais  ou em ações de empresas que não sobreviveram. Em breve tudo poderá dar novamente certo para os mercados, mas não devolverá os bens perdidos ás maiorias atingidas pela tempestade financeira.

 

As empresas aéreas estão entre os setores que mais pagaram pela crise, por dependerem estritamente das tendências  das economias do país que representam e, também, dos países que servem. Sem passageiros e sem cargas embarcando para fora, tiveram o mesmo problema nos vôos de volta, sem poder contar sobre receitas indispensáveis para pagar os custos de suas estruturas e os inevitáveis gastos operacionais. E se conseguiram controlar as despesas estruturais,  principalmente com cortes de freqüências ou de pessoal, as operacionais estiveram na dependência das flutuações do preço do querosene e da eficiência dos jatos que estão operando.

Mas menos vôos representaram para quem optou pela medida uma menor presença nos mercados e, se a aérea decidiu demitir, perdeu sem dúvida uma parte preciosa de seu capital humano. Quanto aos gastos relacionados com a operação em si, depois de um período de bonanza que viu o preço do querosene cair junto com a demanda, o petróleo está de volta  á casa dos 70 dólares por barril, se aproximando do limite máximo que as empresas aéreas consideram aceitável, para evitar que uma nova escalation anule o aumento das receitas, na eventualidade que o tráfego se normalize.

 

Além das previsões numéricas, frutos do raciocínio de executivos que acreditam na arte de ler as bolas de cristal, e as vezes acertam, nesta fase existem alguns pontos-chave para iniciar a reação, e neles as empresas aéreas deveriam basear a sua política de curto prazo. Em primeiro lugar, considerar os milhões de dólares perdidos e, se o devedor não é algum governo paternal, programar as ações para tentar recuperá-los para reforçar suas caixas, ou como devolve-los a quem os financiou. Depois, reativar os pedidos de aeronaves suspensos, ou a parte deles essencial para voltar a competir, além de recontratar apenas as forças de trabalho indispensáveis para o previsto aumento das atividades. E não esquecer de cuidar da imagem da empresa, que a crise afetou de uma ou outra maneira, para participar do tráfego potencialmente elevado que voltará ao mercado, compensando ausências forçadas, em particular no segmento de negócios.

 

Não menos importante será dedicar á classe executiva toda a atenção possível, pois a demanda deveria inicialmente ser bastante forte nesse segmento, se a produtividade interna e o export-import estarão crescendo. E deveriam manter as tarifas dentro dos limites econômicos, sem forçar aumentos que reduziriam a demanda ou sem oferecer descontos, que somente reduziriam as receitas, essenciais para recobrar o equilíbrio financeiro.

 

Mas é claro que a saída da crise não será tão fácil e que muitas companhias não conseguirão se recompor, sem a ajuda dos governos. Há vozes de que, no segmento dos transportes aéreos do país, o Ministério competente parece orientado no sentido de reduzir número e valores de taxas e impostos que oneram a indústria, reconhecendo que eles afetam não somente os balanços das empresas, mas também sua competitividade em campo internacional. A iniciativa faria sentido, depois que o governo abriu mão por prazos determinados de impostos sobre segmento produtivos que proporcionavam á União receitas valiosas. Talvez na atual conjuntura teria chegada a hora de oferecer aos transportes aéreos uma ajuda que seria também o reconhecimento de sua imensa utilidade pública. Se a indústria automobilística atravessou a crise com facilidade, foi porque foi beneficiada pela redução de impostos que oneravam os preços dos auto-veículos e se as fábricas de produtos da chamada linha branca ou de televisores e PC contiveram suas demissões e aumentaram suas atividades foi também porque o governo aliviou a sua pressão cobradora. 

 

Os transportes aéreos são uma atividade que exige elevados investimentos. Acabaram os tempos dos DC-10 vendidos por 30 milhões de dólares e hoje são poucos os acionistas que podem proporcionar as centenas de milhões necessários pára montar uma frota. E são muito poucas as empresas que estão em condição de assumir essas dívidas com os bancos, em particular com as instituições privadas, que no país preferem conceder créditos a supostos inadimplentes particulares ( e por causa deles todos pagamos juros extorsivos) que a um setor da indústria como os transportes aéreos, que em todas as épocas e em todos os países tem criado a fama de perder bilhões, nem sempre devido á má administração.

 

Portanto, talvez a condição  sino qua, non para que as companhias aéreas expressem depois da crise a sua importância nacional, voltando a ser algo parecido com as empresas de bandeira da época pioneira, estaria dependendo da iniciativa dos governos, de seu reconhecimento de que ainda há aéreas que merecem crédito, que tem função social, talvez também uma certa importância estratégica, e que subsídios ou outras facilidades dados a aquelas em dificuldades não representam dinheiro dos contribuintes indevidamente concedido, mas sim as contribuições individuais dos cidadãos para que funcione de maneira adequada uma indústria que praticamente serve á coletividade. Se assim for,se o governo intervir e facilitar a vida das empresas, como também a IATA recomenda, a crise mundial terá provocado inesperados e importantes resultados ,ao reconhecer e valorizar os objetivos sociais dos serviços aéreos, se descolando de teorias econômicas obsoletas que, desde antes da globalização , amarram os capitais do governo, para dar vantagens somente a uma minoria.