DEPOIS DA
CRISE, A AVIAÇÃO COMERCIAL AGUARDA PROFUNDAS MUNDANÇAS
Toda crise, física ou moral, individual ou coletiva, corporativa ou nacional,
dificilmente se encerra sem provocar profundas alterações nos indivíduos ou
nos setores interessados. Aliás é opinião de quem
analisa os comportamentos humanos ou de setores
da economia, que as crises existem para provocar renovações, mudanças, para
forçar soluções de problemas que normalmente
precisariam de muito mais tempo ou até seriam postergados até implodirem
Quando estourou a crise
bancaria dos Estados Unidos, se agigantando em breves semanas e devastando
economias e finanças mundiais, faltou inicialmente a previsão de que, aos poucos,praticamente todos os setores e segmentos ligados ás
atividades econômicas seriam vitimas da escassez monetária e que seus reflexos
afetariam os indivíduos e os demais interpretes da encenação trabalhista e
produtiva do mundo moderno. Não houve tempo para preparar a reação, a não ser
aquela dos países mais poderosos, que consistiu em distribuir bilhões e
trilhões ás instituições financeiras e aos setores que, sem imediato
fornecimento de cash money,
não teriam como evitar concordatas ou falências que debilitariam toda a
estrutura econômica do país.
A reação financeira portadora
de oxigênio aos setores em críse, foi atuada quase
com exclusividade pelos Bancos Centrais ou seus equivalentes distribuidores de créditos e de financiamentos. E os governos se
preocuparam, também, de proteger o emprego, pois cada demissão representava a
ausência forçada do respectivo comprador nas feiras, nos supermercados, nas
revendas de quaisquer produtos, carros incluídos. Já foi salientado, em outros
comentários, que o setor dos transportes aéreos foi praticamente ignorado e que
não houve providências para atenuar os problemas causados pelos custos ascendentes e pela redução dos
embarques de passageiros e de cargas.Como poderia ser,
por exemplo ,a redução ou suspensão da taxa de embarque , para diminuir o custo
das viagens ; ou, a favor das empresas aéreas , a parcial suspensão de uma das
taxas que oneram suas atividades, assim como aconteceu com os impostos sobre
vários produtos.
Será de duas dezenas de
bilhões o valor dos dólares perdidos pela indústria de transportes aéreos até o
final de 2009, somando o prejuízo que teve no ano anterior aos US$ 11 bilhões
estimados para este. Conforta a indústria, em parte,o
fato que foram detectados os primeiros sintomas de reação, mas até que isso se
reflita no movimento de caixa das empresas mais penalizadas serão necessários
meses, ou mais. Entretanto, várias aéreas estão enfrentando dificuldades
diárias para continuar operando, com dívidas vencendo, taxas de leasing em
atraso, problemas para continuar recebendo suas rações diárias de combustível.
Outras, as maiores, vivem do crédito que lhes é dado por serem “grandes” e, em
parte, recorrendo a financiamentos ou venda de novas ações, facilitados pelo
prestígio conquistado em décadas de atividade.
Com tantas restrições
internacionais a qualquer forma de ajuda dos governos ás empresas aéreas em
dificuldades, poucas foram aquelas que supostamente receberam deles os fundos
indispensáveis que não conseguiram
levantar na praça. Por isso a maioria recorreu aos descontos, para alimentar
o cash flow que lhes garante a sobrevida
diária, mas que se revela efêmero na hora do balanço mensal dos lucros e
perdas. Segundo a IATA, em seus comunicados freqüentes como nunca haviam sido
no passado, seria mal menor a redução do número de vôos e o encostamento
provisório das aeronaves excedentes.
Mas a Associação vai além da
conjuntura: em reuniões regionais com os presidentes das companhias aéreas
promove a discussão dos problemas que (inclusive em tempos normais) impedem a
sua expansão e limitam seu sucesso comercial. Basicamente é discutido o fato que os transportes aéreos
enfrentam obstáculos nas relações internacionais que, já antes da globalização,
haviam sido eliminados na maioria dos outros setores, visando os melhores
resultados econômicos nos grandes empreendimentos
bilaterais.
A IATA
sustenta que as empresas aéreas precisam
ter o direito de voar para qualquer ponto do globo onde identificaram a
existência de tráfego, em joint venture
com a companhia nacional ou diretamente, concedendo-lhe a reciprocidade, se
estiver também interessada nessa rota ou em qualquer outra em países ao alcance
de suas aeronaves. E não somente
com vôos ponto a ponto, mas também entre escalas do país estrangeiro, se achar
que seus horários e tarifas são convenientes para o tráfego local e que os
embarques domésticos, além de promocionais para seus vôos internacionais, podem
reduzir os custos operacionais da rota. A resistência da maioria das empresas á
possibilidade de ver congêneres estrangeiras voando para várias cidades de seu
país já foi praticamente superada, como demonstra a rede de operações da Tap portuguesa no Brasil, cujo exemplo está se estendendo a
outras companhias, com destaque pelas americanas. E se não há a recíproca, se
Tam ou Webjet, ou Gol não voam para Lisboa, Porto e
outra meia dúzia de cidades portuguesas – preferindo no caso da Tam a
facilidade de poder vender assentos no vôo da Tap – é
apenas uma questão de conveniência. De outro lado, segundo a filosofia da IATA,
deveria também ser concedido ás aéreas internacionais o
direito de ligar com um único vôo duas ou mais cidades de outro país, e de
transportar passageiros entre elas. Isso, de um lado penalizaria os passageiros
que apreciam os vôos diretos, mas do outro reduziria os custos operacionais e disponibilizaria
várias aeronaves para serem utilizadas em outras rotas.
Outro assunto, sustentado
pela IATA, consiste na necessidade de facilitar as fusões entre aéreas de
países diferentes, como acontece sem problemas em outros setores. Por exemplo,
como a fusão entre a Chrysler em crise e a Fiat ,
autorizada pelo governo Obama. Para não falar dos
Bancos, que hoje não estão precisando de fusões para transferir bilhões de um
para outro país, em operações que realizam sem permissão alguma, inclusive dos
depositantes, aos quais afinal esse dinheiro pertence. Bem mais complicado
seria superar obstáculos de natureza política e conceitos atrasados de
segurança nacional se as interessadas na fusão fossem duas aéreas, sendo que
casos como o que unirá a British Airways
á Ibéria não encontram similares na história da aviação.
E´ curioso observar que a industria de transportes aéreos, que
em menos de um século evoluiu como poucas outras, estabelecendo ligações
internacionais nunca imaginadas, - devido aos preconceitos nacionalistas e comerciais
de muitos governos foi incapaz de atualizar os regulamentos obsoletos ,que
impedem a sua transformação de uma colcha de retalhos nacionais na expressão mais dinâmica de um segmento poderoso das
atividades industriais globais. Há a esperança de que caberá á atual crise econômica o mérito de facilitar o
caminho para aquelas mudanças, que agora parecem estar bem mais próximas.