AVISO AOS NAVEGANTES
Quem acompanha estes
comentários semanais, talvez lembre que nossas reservas sobre a confiabilidade
das estatísticas nacionais relacionadas
com o turismo receptivo são enormes. Em particular aquelas anteriores a
2001,quando o oba-oba turístico era generalizado, mas com freqüência carecia de
suporte técnico, pois havia sido confiado a executivos que não estavam
preparados para cuidar corretamente do assunto. O problema existia em todos os níveis
: na Embratur, onde além da publicação de folhetos, o esforço máximo consistia
em participar de feiras internacionais ; na maioria das Secretarias de Turismo,
com a exceção do Estado da Bahia, enquanto a do Rio de Janeiro evidenciava sua
incompetência; nas Secretarias dos
municípios , nas quais a fartura de vedetes e de recomendados oriundos da
política excedia suas capacidades profissionais,com raros casos, como quando na
Riotur as ações promocionais e publicitárias atravessaram os confins do Estado
e do país, produzindo bons frutos em termos de turismo receptivo.
Sem dúvida, por representarem
o Brasil, foram os erros da Embratur que causaram os piores efeitos na imagem
do país. Os dados enviados ás entidades turísticas internacionais se baseavam
em cálculos nada técnicos. Alguém acrescentava um percentual pré escolhido aos
números de desembarques do ano anterior e o distribuía sem variações entre
países de potencial diferente. Até que alguém achou estranho que o fluxo anual
de turistas aumentasse de maneira proporcional entre todos. De outro lado,
muito dinheiro de contribuintes financiou viagens supostamente de estudo ou de
representação no exterior, havendo casos, inclusive, de titulares que não se
destacavam pelo conhecimento de um
idioma estrangeiro, ou até do nacional.
Alguns dados estatísticos,
extraídos do Anuário de Turismo da Embratur – Ano Base 2008, revelam o espanto
do Ministério de Turismo do atual governo diante dos “balanços” anuais do
período 1995/2000, quando oficialmente as chegadas de visitantes estrangeiros
subiram de 1.991.416 para 5.313.413. A
ordem foi calcular melhor e, por isso, os 5.313.463 turistas baixaram em 2002
para 3.784.898, e com pequenos aumentos anuais voltaram a 5.358.170 cinco anos
mais tarde(2005). No último triênio se contraíram mais, encerrando 2008 com
5.050.099 supostas chegadas, número esse inferior ao do ano 2.000.
A introdução ao assunto
principal foi extensa, visando levantar a lebre, antes que ela surpreenda a
Agencia Nacional de Aviação Civil, Anac, pela qual, depois do afastamento de
seu primeiro presidente, temos a maior consideração. Dinamismo e firmeza
revelam que os dotes de sua atual presidenta existiam antes que fossem
descobertas pelo ministro da Defesa, de quem recebeu poderes amplos para
reestruturar o setor aéreo comercial, que havia funcionado com eficiência em
certos períodos de administração do Departamento de Aviação Civil, DAC, mas
decaiu depois que se concretizou a ameaça de “intervenção” de técnicos civis,
sob a pressão de quem queria tirar da
Aeronáutica um controle setorial que pecava por ser imparcial, para repassar-lo
aos políticos. Como de fato aconteceu, até o afastamento dos integrantes da
primeira diretoria.
As considerações que poderiam ser objeto da atenção da Anac, estão
relacionadas com o conteúdo de uma sua publicação mensal que, sob o título “Dados comparativos
avançados”, divulga importantes informações sobre o tráfego aéreo doméstico,
comparadas com aquelas do mesmo mês do ano anterior. Basicamente são publicados
e comparados os números de assentos/km e de passageiros/km embarcados no mês em
exame, evidenciando as variações ocorridas. Nas colunas finais, resumindo esses
dados, é fornecida a participação de mercado de cada uma das 19 empresas
nacionais que operam vôos regulares, em ordem alfabética, da Abaeté à Webjet.
São os únicos dados oficias disponíveis
para avaliar as tendências do tráfego doméstico, considerando as aéreas que o integram,
suas performances individuais e a evolução da inteira indústria. Dados
preciosos, de consulta geral e de parte das empresas, essas para conhecer os
progressos ou os problemas das congêneres. Mas com possíveis restrições, depois
de lida esta primeira linha das observações impressas ao pé das estatísticas : “Obs. Dados preliminares fornecidos
voluntariamente pelas empresas aéreas. Os de algumas empresas, são
preliminares.” Esse período justifica
uma pergunta como esta : se trata de dados estatísticos sempre confiáveis, sem
possibilidade de equívocos de parte das empresas que os fornecem, comprovados
ou comprováveis a pedido da Anac ?
E uma segunda pergunta, que
poderia ser : Se os dados são preliminares, podendo supostamente ser
incompletos ou até errados, porque não encontramos uma única correção que
diferencie os dados divulgados nos últimos doze meses daqueles do mesmo período
que integram o atual arquivo online da Anac ?
Um observador isento,
conhecedor do clima de competição existente entre as empresas domésticas,
sabedor do surgimento de rivalidades recentes e da importância política e
econômica para uma aérea de estar ocupando os primeiros, o terceiro ou o quarto
lugar no ranking de participação de mercado, esse observador tem motivo para se
surpreender, diante da evidente boa fé que estaria dominando o setor
estatístico. Sem ter razões para duvidar, talvez gostaria de saber que a Anac
realiza controles aleatórios, que conferem total garantia aos dados que divulga
sob a sua responsabilidade. Afinal os transportes aéreos são parte de uma
indústria que vale bilhões.