AS CRUZES DOS APOSENTADOS
Os efeitos da violência e da
irresponsabilidade, no Rio de Janeiro e no país, são ás vezes cruéis, como
aqueles causados numa rua qualquer da cidade pelo impacto de um carro a
velocidade máxima sobre um corpo humano, ou
pelas balas perdidas que atingem vitimas inocentes. E em seguida,as
imagens dos parentes, chorando a perda de um ente querido, e as promessas de que justiça será feita.
Não se pode deixar de
acreditar na justiça, quando não existem no mundo civil outros meios para ver
punido quem cometeu violências ou para sarar situações que estão vitimando inocentes. Mas muitas
vezes o caminho a percorrer para condenar os réus é longo e difícil, sem
perspectivas imediatas de solução. O caso
mais recente, que vale como exemplo, é um “serial crime”que envolve o inteiro governo
de Brasília. Vimos jovens lutando para o afastamento dos culpados e, do outro,
grupos de deputados distritais que os defendiam , bloqueando sem vergonha o
caminho da justiça. Raras vezes houve roubos melhor documentados daqueles
ocorridos na Capital Federal. Cenas inesquecíveis de milhões, em pacotes de 50
reais, sendo escondidos nos bolsos, nas meias, nas cuecas dos corruptos, que
todavia continuam recebendo seus fartos salários.
Nada a ver com a crise do Aerus
que, quando explodiu e começaram a
faltar os fundos para pagamento das aposentadorias, alguns associaram a roubos não comprovados de parte de seus executivos, para
minimizar as responsabilidades oficiais da Previdência Social. Nem com o atual
recurso da União a uma lista inflacionada de impostos não pagos
, para não reembolsar á Varig as receitas que, por
decreto de um ex-presidente da República, ela perdeu vendendo passagens a preço
congelado.
Entretanto, a mesma
injustiça que não resolve o caso individual do pedestre matado por um carro, ou
que enfrenta dificuldades para punir quem roubou em Brasília o dinheiro dos
contribuintes, atinge sem escrúpulos milhares de pacíficos aposentados de um fundo
de pensão, que deveria aliviar suas inevitáveis penas da idade mais madura. Mas
que, pelo contrario, está se tornando uma frustração que mata, pela falta
daqueles pagamentos mensais que lhes garantiriam, aos 70,
80 ou mais anos de vida, o indispensável plano de saúde e os
cuidados alimentares próprios das idades avançadas.
Ainda há esperanças, baseadas
em iniciativas dos bons parlamentares deste país, que são os que defendem as
leis, lutam contra os abusos, protegem as causas justas. Nessa
minoria há um grupo de senadores, entre os quais se destaca Paulo Paim, que
debatem em todas as oportunidades a causa dos aposentados da Varig,
pressionando o governo para a rápida solução de uma situação que está se
tornando trágica, e que foi oportunamente simbolizada pela cruzes fincadas na
areia da praia de Copacabana.
Essas cruzes identificavam
os aposentados que faleceram, mas simbolizavam também as penas, os dramas causados pela falta
de meios financeiros indispensáveis, os sacrifícios que muitos deles enfrentaram
antes de falecer e que continuam acossando o dia-dia de outros milhares.
Sacrifícios injustos,
pois as contribuições pagas na ativa pareciam ser a
garantia para uma velhice decente.
Foi realmente muito “emocionante”, como registrou o senador
amigo em seu pronunciamento no Plenário, ver cravadas na areia tantas cruzes
brancas e vermelhas que lembravam os membros de uma grande família de idosos em
progressiva extinção. Muitos deles, na
faixa de idade até acima dos 80 anos,
foram “ e estão sendo matados pela tristeza, a angustia e a desesperança “,
afirmou o senador Paim, na “expectativa
de que haja uma solução definitiva para um acordo judicial promovido pela
Supremo Tribunal Federal”.
Ou, como lembrou o
comandante Zoroastro, que coordenou a manifestação em Copacabana, eles foram vitimas
de um ludíbrio que dura há três anos, durante os quais, desde a intervenção de
abril de 2006 “perdemos 336 companheiros
dos 1.735 simbolizados pela cruzes, com o aumento de 41% no número anual de óbitos.
Tivemos alguns suicídios, outros morreram de depressão profunda, muitos
faleceram por falta de assistência médica, porque não tinham dinheiro para
pagar o plano de saúde”.
Com tudo
isso, se torna um motivo de esperança poder registrar que, enquanto se tenta um
acerto contábil problemático entre as dívidas tributárias da Varig e os
créditos sagrados dos aposentados, o governo demonstrou o seu carinho com o
futuro de nossos filhos, lutando em Copenhague para indispensáveis medidas
mundiais de combate contra os venenos que poluem a atmosfera e contra toda forma de
destruição ambiental. E está disposto
a investir bilhões.
Devemos acreditar que, enquanto oferece a sua contribuição para a solução de
problemas globais que desafiam a humanidade e podem ser atenuados nos anos 2020
ou 2050, este governo, faltando apenas um ano para concluir o seu mandato, não deixará
que por causa de um punhado de reais não pagos pela União, milhares de seus
cidadãos e ex-contribuintes, hoje idosos desamparados, continuem aumentando em
ritmo crescente o número das cruzes, contrariando as premissas de uma política
social justa, que representa a meta mais ambiciosa por ele alcançada em
oito anos de administração do país.