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INSEGURANÇA PÚBLICA NO RIO DE JANEIRO
Semana passada, na quarta
feira, estava atravessando de carro o túnel Santa Barbara, no trecho que saindo
da Lagoa se bifurca depois na direção do
Cosme Velho e do centro da cidade, quando o som das sirenes da polícia se
acumulou ao barulho convencional dos carros. Não havia muitos veículos dentro
do túnel e pelo retrovisor conseguir identificar uma moto com dois ocupantes
correndo a toda velocidade e, a uns trinta metros dela, duas motocicletas da
polícia que avançavam quase paralelas. A perseguição foi rápida : antes do fim
do túnel um dos policiais já havia empatado com a moto dos dois e, partir
daquele momento, com firmeza os fechou, obrigando-os logo depois a pararem, de
braços levantados e deixando o veículo cair do lado direito da estrada.Não
presenciei o fim desse dramático encontro, feliz por poder me afastar pelo
Cosme Velho sem ter assistido a uma troca de tiros, que muita vezes é a única
maneira para obrigar os fugitivos a pararem, com possíveis balas perdidas na
minha direção. No dia seguinte procurei na imprensa algum detalhe sobre a
ocorrência, mas nada encontrei, talvez por ter sido um episódio de pouca
significância no diário de uma quarta-feira na qual as chuvas no Sul e as
violências em Salvador realmente mereciam o destaque que tiveram, nos jornais e
na TV. Com grande probabilidade, a persecução teria a honra das crônicas se, por
cruel jogo do destino, mais um inocente acabasse baleado, num tiroteio entre
policiais e bandidos, que desta vez não houve.
O secretário de Segurança
Pública do Estado tem demonstrado uma seriedade e uma vontade de acabar com a
violência no Rio de Janeiro como talvez nenhum outro teve nas administrações
passadas. Acredita na importância de adiantar a ação da polícia aquela que está
sendo preparada pelos bandidos e está estruturando para tanto um serviço de
inteligência que lembra aquele dos melhores anos da CIA, ou a época da luta de
Nova York contra os gangsters
ítalo-americanos. Mas herdou um reduzido e parcialmente corrompido corpo de
policiais que, mal pagos e mal selecionados, já tinham estreitos vínculos de
colaboração com a “malavita” carioca. Substituí-los é relativamente fácil quando
algum deles é identificado ou surpreendido atuando ao lado dos criminosos, mas
se há somente suspeitas o caminho para afastá-lo é muito mais longo. Em
particular, quando prevalece a “omertá”, muito usada aos tempos da máfia
siciliana e agora também bastante firme
nas regiões de Nápoles e da Calábria italianas, onde novas formas de
atividades criminosas têm se desenvolvido, conforme relatado no livro
“Gomorra”, escrito por Roberto Saviano, um jornalista de verdade que desde
então circula somente sob a proteção policial. “Omertá” é a recusa de
identificar alguém conhecido, ou de confirmar suas ações criminosas assistidas
- por medo, interesses ou cumplicidade -
que vincula por omissão pessoas supostamente honestas aos responsáveis de atos
ilegais.
Atuando com ações policiais
nos morros, os investigadores chegam ás vezes ao refúgio de criminosos, onde
com maior freqüência atingem as atividades de traficantes de drogas, em geral
repudiados pelos moradores. Aumenta assim o número de marginais que, expulsos
das favelas, passam a procurar fontes suplementares de ganhos ilícitos nas
ruas, nos bancos, nas moradias cariocas. Gerando na cidade uma sensação
generalizada de insegurança. Mas a insegurança pública do Rio de Janeiro não
possui uma estrutura comparável com aquela que dominou Nova York, ou Palermo,
ou Nápoles. E ´ muito fragmentada, pois a origem de seus integrantes é a mais
variada, com um claro predomínio de “personagens” pequenas, ladrões de carros,
assaltantes de transeuntes, vigaristas e
comerciantes de roubos ou de seres humanos. Eles condensam os males que afligem
uma cidade maravilhosa e são encontrados com mais freqüência no bairro que é o
cartão de visita que atrai o turista, Copacabana. Um artigo de Mario Quintella,
no Jornal do Brasil do dia 9, sob o título “Copacabana está uma vergonha !”
resume os principais problemas do bairro “que são os mesmos da maioria dos
bairros do Rio de Janeiro”. Da longa lista selecionamos: “Assaltos a
transeuntes – as principais vítimas são os idosos e os turistas; moradores de rua;
menores infratores – protegidos pelo estatuto da Criança e do Adolescente, agem
impunemente nas ruas; prostituição e tráfego de drogas em pontos
predeterminados; acessos desprotegidos ao bairro, que não são monitorados por
câmaras e postos policiais; falta de policiamento nas ruas internas do bairro.”
Depois de completada a lista o autor levanta a pergunta: E ´ assim que o Rio
quer ser escolhido como a sede dos Jogos Olímpicos de 2016 ?
Todavia, a nosso ver, os
fatos citados realçam apenas falhas graves, quase estruturais, sem considerar outros
aspectos da insegurança pública que tem afastado do Rio moradores e turistas e
que fazem parte do dia-dia de quem aqui vive. O exemplo da perseguição no
túnel, que abriu este texto, seria um
deles, se o seu final tivesse sido trágico. Se uma criança, uma estudante ou um
adulto tivesse sido baleado na troca de tiros entre os policiais e os fugitivos.
Ou, como outros exemplos, as ocorrências em bairros próximos de favelas
disputadas entre marginais, com todo tipo de violência que atinge moradias e
pessoas não residentes. Ou, ainda,aquele temor que acompanha a saída noturna de
um familiar, pelo medo que seja assaltado num ônibus ou tenha seu carro
roubado, ou se encontre envolvido em brigas entre jovens alcoolizados. Ou o
número crescente de assaltos a residências, motivador de formas de proteção dos
domicílios com grades ou circuitos eletrônicos, e dos edifícios coletivos com
cercas elétricas, alarmes acústicos, guardas armadas. E, para os namorados, o
risco de parar com o carro num local menos iluminado, ou até de passear de mãos
dadas a beira mar.
Por esses e outros motivos,
muitos cariocas acham prudente ficar protegidos entre as paredes de seus
quartos, renunciando aos prazeres da brisa noturna de suas praias maravilhosas,
á musica empolgante que encontrariam em locais conhecidos, á proteção do sol
escaldante sob a sombra de seus jardins e tremem, as vezes, ao ver de noite uma
sombra na esquina, que supõem ser de algum assaltante, mas de fato é apenas aquela
do fiel policial que vigia para a sua segurança. O medo, aos poucos, se insinua
em nossos sentidos: vista, ouvido, olfato sensibilizados detectam sensações
estranhas e podem causar reações violentas
e irracionais. E a insegurança individual se torna pública.