A GRANDE
CRISE DA AIR FRANCE / KLM
Na Europa a crise do setor
aéreo é mais grave que nos Estados Unidos e na América Latina. São muitos
estados com problemas e alguns os repassam ás empresas aéreas, agravando os
efeitos da crise econômica mundial e a escassez de capitais. Neste momento,
duas das maiores empresas não conseguem esconder suas preocupações, decorrentes
da redução do tráfego aéreo e também das dificuldades que encontram para propor
a seus usuários uma imagem que desde o final de 2008 não é mais aquela que se
havia afirmado no universo dos transportes aéreos. Uma delas é a British
Airways, mas seus problemas têm muito a ver com a situação bastante precária da
economia da Inglaterra, um dos países cujo sistema financeiro foi particularmente
afetado pela crise global. Ter iniciado o primeiro trimestre (abril/junho) de
seu ano fiscal com a perda de US$ 174,3 milhões foi um duro golpe, quando
comparado com o lucro de US$ 27 milhões do mesmo período de 2008. E a aérea reagiu
com o anúncio de cerca 2 mil demissões e a eliminação de serviços a bordo em
vôos mais curtos. Mas isso não reduziu o interesse da BA pela Ibéria, cujas
rotas para a América Latina a empresa inglesa sonha de acrescentar ao seu atual
newtwork.
Mais séria é a situação da
Air France/ KLM, que até o ano passado disputava com a Lufthansa o primeiro
lugar entre as companhias mais eficientes e de maior prestígio na Europa. A série
de adversidades que complicaram a sua existência teve início depois que
concluiu com sucesso a aquisição de parte das ações da nova Alitalia. Sua quase
forçada participação na aérea italiana veio após forte resistência do governo
peninsular, que teria preferido se ligar á Lufthansa. Mas outros desafios
esperavam a AF/KLM,com o aumento do número de problemas nos vôos de alguns de
seus Airbus , juntamente com os balanços negativos , com o desastre de seu vôo
Rio/Paris, com a constatada performance irregular dos sensores de alguns A330 e
A340 , com as pressões dos pilotos para a substituição dos “pitots”
supostamente responsáveis pela tragédia do vôo AF447 e pelos acidentes em
outras rotas que poderiam ter acabado em desastres.Não ter conseguido recuperar
as caixas pretas nas águas entre as costas brasileiras e o Senegal foi outro
insucesso, pois a empresa crê firmemente que com o seu conteúdo aliviaria as
responsabilidades que lhe são atribuídas pela queda do A330 no Oceano
Atlântico.
Mas também as perdas
operacionais e os reflexos que os acidentes tiveram sobre a fabrica de Airbus,
da qual a Air France é sócia, afetaram a imagem da companhia, apesar de todo o
carinho que lhe é dispensado pelo governo. O anúncio , em maio passado, de que
pela primeira vez desde
Mas a impressão dos
analistas e de que no encerramento de seu novo ano fiscal poderá registrar um
prejuízo ainda maior daquele de 2008/2009. Esta previsão se baseia na perda de
431 milhões de euros já no final do primeiro trimestre (abril a maio de 2009),
fato que motivou a retirada da AF/KLM da competição pela aquisição da Czech
Airlines, em fase de privatização, pela qual a havia demonstrado interesse. E
ainda aconteceu a perda de 196 milhões de euros nos serviços de carga, contra
os 16 milhões ganhos no ano passado.
Esse prejuízo já era
previsto como resultado da acentuada redução do transporte de mercadorias,
tanto no setor doméstico como no internacional, e deverá causar uma profunda
modificação na estrutura desse serviço, inclusive com a redução da grande frota
cargueira da empresa: são doze
E no setor de passageiros,
está sendo reformulada a utilização das aeronaves, com menos vôos e
substituindo nas rotas européias os aviões que as operam com modelos menores, a partir de novembro. De outro lado,
a AF/KLM tem demonstrado interesse em participar da abertura do capital da
Japan Airlines (outra aérea em grave
situação que pretende demitir mais de 6 mil funcionários) em competição ou
juntamente com a Delta Airlines, com a qual já opera em regime de joint-venture
nos vôos trans atlânticos.
Segundo vozes que circulam
na Europa, diante dos problemas causados pelos prejuízos e pela redução do
tráfego, a AirFrance/KLM estaria projetando de competir com as aéreas low-fare
com uma frota ad hoc. O CEO da aérea,
Pierre-Henri Gougeon, desmentiu numa entrevista que a empresa pretenderia
entrar no mercado das tarifas baixas passando a adotá-las nas rotas curtas e médias,
mas admitiu o fato que as passagens de preço reduzido estão atraindo sempre
mais passageiros. E adiantou que “os
serviços clássicos da aérea poderão subir algumas adaptações, sem alterar a
estrutura de assentos na parte dianteira das aeronaves, pois ainda há
passageiros que desejam viajar com mais conforto”. O mercado supõe que a AF/KLM
segmentará a classe econômica de algumas
rotas, reservando um número indefinido de assentos, (sujeito a ser aumentado se
houver demanda ) para passageiros
pagantes low-fares e dispostos a aceitar a formula que submete o embarque á
disponibilidade de espaço.
A “estória” da AF/KLM - empresa aérea que acumula problemas e, como
muitas outras, prejuízos enormes, segurando a barra com a evidente ajuda de seu
governo - nos leva a lembrar histórias algo parecidas de empresas nacionais,
aqui abandonadas a seus destinos e ás supostas forças de mercado, que não
conseguindo resistir ás investidas de credores rapaces e de ônus tributários que
as impossibilitavam de competir, um dia desapareceram oficialmente dos
registros da IATA. Delas sobraram apenas os demitidos e os usuários fieis que, a
bordo dos vôos internacionais, nelas viam quase uma extensão do país.