VOANDO ENTRE CÚMULOS-NIMBOS

 

“Eu estava lá, foi um experiência prá toda a vida !” disse a voz ao telefone, antes de se identificar. E quem a ouviu, se perguntou onde a voz teria estado e qual poderia ser a inesquecível experiência que teve. Viu um assalto a mão armada, um crime, uma violência, ou assistiu algum show, alguma festa memoráveis ? Nada disso, esclareceu. Nem aconteceu em terra, foi no ar, entre as nuvens chamadas de cúmulos-nimbos. Delas o Aurélio escreve: “nuvens brancas, de grande desenvolvimento vertical, base retilínea e topo arredondado, constituídas de elementos que lembram novelos, flocos de algodão”.

 

Do súbito encontro dos cúmulos com a aeronave que vinha de Miami, sobre os céus de Pirassununga, Estado de São Paulo, Brasil, a voz contou: “Devia faltar uma meia hora para a chegada ao aeroporto e estávamos naquela fase em que os passageiros aguardam o momento do pouso, relaxam porque a viagem está no fim. Da cabine de comando, naquele momento, estava chegando a recomendação de apertar o cinto, como acontece quando se aproxima a manobra de descida gradual da altitude máxima na direção do aeroporto.

 

A alerta de apertar os cintos foi tardia, ao que parece, porque não visava á iminente turbulência, mas sim o preparo para a fase de aterrissagem. Esse sinal deveria ter sido dado antes, logo que o radar detectou a presença compacta das nuvens, se o piloto havia decidido enfrentar-las. Mas o encontro poderia também ter sido evitado, desviando a aeronave da área ocupada pelos cúmulos-nimbos, como a maioria dos comandantes costuma fazer. A não ser que os radares não estivessem registrando no quadro de comando a ameaçadora aproximação dessas nuvens, pois em caso contrário, depois da alerta eletrônica haveria tempo para desviar da turbulência, prévio contato com a torre de controle para alterar o percurso que já havia sido determinado. Agora, sem dúvida haverá polemicas para tentar descobrir se há responsabilidades pelo ocorrido, serão verificadas as gravações das caixas pretas do Airbus da Tam que eventualmente registraram o pedido da cabine de comando para alterar a rota. E se nada foi solicitado á torre de controle, por qual motivo o comandante se arriscou a atravessar a turbulência e alertou os passageiros somente em cima da hora ? A não ser que foi pego de surpresa, já em contato com as nuvens, não tendo reparado em tempo sua aproximação nos sinais dados pelo radar.

 

“Foram longos segundos de pânico, uma sensação de fim do mundo, de impossibilidade de reação, de entrega total ao destino, sem saber se e quando a aeronave deixaria de afundar no ar”, relatou o ex-passageiro do vôo JJ-8095 da Tam entre Miami e São Paulo, no ar desde ás 12horas e 11 minutos de 25 de maio, quando decolou, e que afinal pousaria em Cumbica ás 19h e 35’. Talvez a sensação de terror dos passageiros, durante a caída no vácuo, foi parecida com aquela que os moradores de L ´Aquila, na Itália, experimentaram na noite de um domingo do passado abril, quando um terremoto de rara violência destruiu meia cidade e matou 298 moradores. Os sobreviventes contaram que acordaram com as camas deslizando pelo assoalho dos quartos de dormir, os móveis rangendo, coisas caindo, num silêncio sepulcral interrompido logo por gritos e choros e o barulho das casas que desabavam. No ar, na cabine do Airbus, muitos dos 154 viajantes ficaram suspensos no ar, a cabeça contra o teto, junto com malas e outros objetos. E ao “pousar” vários se feriram, depois dos cerca de 30 segundos de queda livre da aeronave, que durou uns 900 metros e parecia sem fim, interrompida por uma breve pausa de estabilização.

 

Foi uma aventura e tanto, um daqueles acontecimentos que por serem evitáveis e muito raros impressionam os ouvintes e, as vezes, fazem os viajantes jurarem um “nunca mais” que poucos cumprem. De fato, bastaria que todos estivessem com os cintos sempre apertados nas poltronas onde sentam, como as companhias aéreas recomendam, para que as conseqüências da queda livre da aeronave não fossem além de uma repentina sensação de falta de ar, com o eventual show de objetos e de algumas malas suspensas por segundos no ar da cabine. Dificilmente haveria uma explosão de pânico, pois a estrutura da aeronave já passou por testes desse tipo e resiste sem problemas a essas tensões, enquanto no curtíssimo prazo se restabelece a bordo o equilíbrio do vôo.

 

A aviação comercial possui maquinas poderosas que garantem segurança máxima, se devidamente operadas. Sobre milhões de vôos o número de acidentes por falhas mecânicas chega a uma fração de 1%. E quando há imprevistos, sua solução depende na quase na totalidade do comportamento do comandante. Tanto no caso que ele se encontre no meio de situações atmosféricas que exigem firmeza no controle da aeronave, como se tiver que minimizar as conseqüências de uma falha técnica inesperada. A sua experiência e a firmeza com que reage são as garantias de sucesso na manobra extrema. Já se viu que em emergência se aterrissa sobre as água do rio Hudson ou sobre o verde dos campos de arroz, se voa com um só reator, com a porta da cabine entreaberta, com o trem de pouso bloqueado, na neve e sobre o gelo.

 

E se a máquina falha a culpa, em mais de 99% dos casos, é da manutenção defeituosa, incompleta. Assim mesmo, ainda cabe ao comandante compensar a maioria dessas falhas com a sua competência, para cumprir com firmeza a principal de suas missões, que é a de levar os passageiros até o aeroporto de destino, em quaisquer circunstâncias.

 

Sim, é verdade que depois de Ícaro ficou claro que o homem não tem asas para voar. Por isso inventou aquelas dos aviões, aos quais milhões agora confiam suas vidas, porque confiam em quem os comanda. Assim, como se dizia “cherchez la femme” nos casos amorosos de outra época, hoje se um Boeing colidir ou um Airbus toma fogo, para contar a verdadeira história da eventual tragédia o procurado é quase sempre o comandante.