VIAGEM IMAGINÁRIA NO REINO DA GRIPE

 

Este novo século registra um início clamoroso. Já teve atentados e guerras, e se encontra em plena crise econômica e sob a ameaça de uma pandemia de gripe, com todas as variáveis creditadas ao progresso. De original houve a destruição das torres de Nova York, enquanto as guerras ficaram mais cruéis para os civis e os problemas financeiros passaram a ter implicações universais.

 

E a gripe, uma das chagas mais antigas que afligem o homem, conhecida pelo nome de influenza desde o início do milênio, permanece ameaçadora como era antes da vinda de Cristo, apesar das conquistas da medicina. Nos séculos ela não somente esteve presente no mundo inteiro, como também demonstrou a habilidade de driblar os descobridores do vírus A, seu principal componente isolado há pouco mais de 75 anos, acrescentando sempre variáveis á sua “formula original” que exigem novas vacinas para combater-la. Muda de nome, mas basicamente tem para a saúde dos homens os mesmos sintomas e possíveis conseqüências que eram conhecidas há séculos. Dizem que o primeiro a detalhar as características desta doença foi Hipócrates e que, já naquela época (400 a.C.), os sintomas da influenza eram combatidos com receitas a base de chás para hidratar o corpo e de compostos de ervas contra a febre. Mas foi somente a partir de 1500, depois dos surtos da gripe terem confirmada a sua periodicidade, aparecendo a cada 30 ou 40 anos, que os humanos tiveram uma visão mais ampla da gravidade da doença, que chegou a dizimar cidades inteiras. E séculos mais tarde, no fim da primeira guerra mundial, em 1918, explodiu a chamada gripe espanhola, uma pandemia que a história considera o “maior holocausto médico”. Ela provavelmente se originou na China e em dois anos infectou a metade da população mundial e teria causado a morte de 30 milhões de pessoas.  No Brasil, as cerca de 36.000 vitimas incluíram o presidente da República, Rodrigues Alves, que faleceu em 1919 após ter sido reeleito. Vieram depois, entre gripes menores, a Asiática (1957), a de Hong Kong e a Suína, além de apenas uma ameaça, chamada gripe das Aves, na qual os sacrificados foram cerca de 1,5 milhão de frangos.  

 

A gripe, assim como se orgulhava a PanAm na época de seu maior prestígio, faz a volta ao mundo, hoje com maior rapidez nas asas dos jatos. Desta vez começou no México, foi chamada de Suína e rebatizada com um nome científico ligado ao conhecido vírus A, o verdadeiro pai dessa doença.

Mas parece que novamente, como na gripe das aves, as medidas de prevenção excederam a consistência e a gravidade da influenza, em parte devido á ação da Organização Mundial e dos Ministérios da Saúde da maioria dos países. Bom para todos nós, mas causa de tensões que alteraram o dia-dia de milhões de pessoas. E, em particular, a vida e os planos de viajantes vindos de países infectados, ou que cancelaram suas viagens, ou daqueles que convivem atemorizados nas cabines das aeronaves juntos de outros passageiros, sem saber se alguém poderia lhe transmitir o vírus pelo ar ou pelo involuntário contato.

 

Assim, mais uma vez, como está acontecendo sempre que ocorrem fatos graves no mundo civilizado, além das vitimas reais, um número enorme de pessoas está sendo penalizadas e, entre elas, se destacam os usuários dos serviços aéreos. Começou em 2001, quando para os passageiros atravessar os postos de controle nos aeroportos se transformou numa operação oprimente. Desde então, os fiscais começaram a duvidar de todos e de tudo: do conteúdo de um saco plástico não transparente ou de um salto de sapato e, agora, até querem examinar os viajantes pelos raios X, para ver se algo estranho foi introduzido e aparece na imagem de uma ou de outra parte de seus corpos.

 

Com a nova gripe a investigação é menos indiscreta. Visa proteger a saúde pública e, de passagem, também a vida de quem embarca ou desembarca antes ou depois de uma viagem qualquer. Avisos dizem que a campanha é para deter o avanço do vírus A-H1N1, que é transmitido de pessoa a pessoa pelo ar, principalmente em locais fechados, ou por contato direto com pessoas infectadas. Mas o problema da transmissão do vírus pelo ar de bordo, segundo a Boeing e a Airbus, pode ser praticamente eliminado, se a ventilação tiver início algum tempo antes do embarque dos passageiros e for suspensa somente depois da evacuação total da cabine. De fato, o sistema operado nas aeronaves modernas faz circular permanentemente 50% do ar de bordo dentro das turbinas, onde o aquecimento o esteriliza, antes que se misture com o outro 50% que é absorvido do externo. A obrigação de manter ligado o ar condicionado “before and after” já teria sido comunicada ás aéreas. Isso não exclui outros cuidados, quais a obrigação do passageiro com febre alta, tosse, dores de cabeça ou musculares de procurar um Posto de Saúde no aeroporto de desembarque, para um teste sanguíneo especifico que tirará qualquer dúvida.

     

Em todo caso, parece claro que a atual influenza é muito menos letal do temido inicialmente. Estatísticas de sexta-feira passada, vindo dos USA, admitem que o número de infectados pela gripe (que todo ano vitima no país cerca de 36 mil pessoas) pode ter chegado a 100 mil, mas os casos mais sérios exigiram apenas 173 internações e entre os 5 que faleceram havia pessoas que já eram doentes. E assinalam que foi um erro atribuir aos porcos a culpa de ter divulgado a doença no México.

Aliás, para encerrar esta breve viagem no mundo da influenza, deve ser enfatizado que atribuir inicialmente aos animais domésticos a responsabilidade pelas gripes que atacam os humanos está se tornando um mau habito, um abuso sem comprovação clinica, que pode causar conseqüência piores daquelas provocadas pelo vírus A. Nos últimos anos, por exemplo, em nome da saúde pública, a matança de animais já tirou de muitas mesas de nosso mundo faminto milhões de frangos e de porcos que poderiam ser comidos.