VIAGEM IMAGINÁRIA NO REINO DA GRIPE
Este novo século registra um
início clamoroso. Já teve atentados e guerras, e se encontra em plena crise
econômica e sob a ameaça de uma pandemia de gripe, com todas as variáveis
creditadas ao progresso. De original houve a destruição das torres de Nova
York, enquanto as guerras ficaram mais cruéis para os civis e os problemas
financeiros passaram a ter implicações universais.
E a gripe, uma das chagas
mais antigas que afligem o homem, conhecida pelo nome de influenza desde o
início do milênio, permanece ameaçadora como era antes da vinda de Cristo,
apesar das conquistas da medicina. Nos séculos ela não somente esteve presente
no mundo inteiro, como também demonstrou a habilidade de driblar os descobridores
do vírus A, seu principal componente isolado há pouco mais de 75 anos,
acrescentando sempre variáveis á sua “formula original” que exigem novas
vacinas para combater-la. Muda de nome, mas basicamente tem para a saúde dos
homens os mesmos sintomas e possíveis conseqüências que eram conhecidas há
séculos. Dizem que o primeiro a detalhar as características desta doença foi
Hipócrates e que, já naquela época (
A gripe, assim como se
orgulhava a PanAm na época de seu maior prestígio, faz a volta ao mundo, hoje
com maior rapidez nas asas dos jatos. Desta vez começou no México, foi chamada
de Suína e rebatizada com um nome científico ligado ao conhecido vírus A, o verdadeiro
pai dessa doença.
Mas parece que novamente,
como na gripe das aves, as medidas de prevenção excederam a consistência e a
gravidade da influenza, em parte devido á ação da Organização Mundial e dos
Ministérios da Saúde da maioria dos países. Bom para todos nós, mas causa de
tensões que alteraram o dia-dia de milhões de pessoas. E, em particular, a vida
e os planos de viajantes vindos de países infectados, ou que cancelaram suas
viagens, ou daqueles que convivem atemorizados nas cabines das aeronaves juntos
de outros passageiros, sem saber se alguém poderia lhe transmitir o vírus pelo ar
ou pelo involuntário contato.
Assim, mais uma vez, como
está acontecendo sempre que ocorrem fatos graves no mundo civilizado, além das
vitimas reais, um número enorme de pessoas está sendo penalizadas e, entre
elas, se destacam os usuários dos serviços aéreos. Começou em 2001, quando para
os passageiros atravessar os postos de controle nos aeroportos se transformou
numa operação oprimente. Desde então, os fiscais começaram a duvidar de todos e
de tudo: do conteúdo de um saco plástico não transparente ou de um salto de sapato
e, agora, até querem examinar os viajantes pelos raios X, para ver se algo
estranho foi introduzido e aparece na imagem de uma ou de outra parte de seus
corpos.
Com a nova gripe a
investigação é menos indiscreta. Visa proteger a saúde pública e, de passagem,
também a vida de quem embarca ou desembarca antes ou depois de uma viagem
qualquer. Avisos dizem que a campanha é para deter o avanço do vírus A-H1N1,
que é transmitido de pessoa a pessoa pelo ar, principalmente em locais fechados,
ou por contato direto com pessoas infectadas. Mas o problema da transmissão do
vírus pelo ar de bordo, segundo a Boeing e a Airbus, pode ser praticamente
eliminado, se a ventilação tiver início algum tempo antes do embarque dos
passageiros e for suspensa somente depois da evacuação total da cabine. De
fato, o sistema operado nas aeronaves modernas faz circular permanentemente 50%
do ar de bordo dentro das turbinas, onde o aquecimento o esteriliza, antes que
se misture com o outro 50% que é absorvido do externo. A obrigação de manter
ligado o ar condicionado “before and
after” já teria sido comunicada ás aéreas. Isso não exclui outros cuidados,
quais a obrigação do passageiro com febre alta, tosse, dores de cabeça ou
musculares de procurar um Posto de Saúde no aeroporto de desembarque, para um
teste sanguíneo especifico que tirará qualquer dúvida.
Em todo caso, parece claro que
a atual influenza é muito menos letal do temido inicialmente. Estatísticas de
sexta-feira passada, vindo dos USA, admitem que o número de infectados pela
gripe (que todo ano vitima no país cerca de 36 mil pessoas) pode ter chegado a
100 mil, mas os casos mais sérios exigiram apenas 173 internações e entre os 5
que faleceram havia pessoas que já eram doentes. E assinalam que foi um erro
atribuir aos porcos a culpa de ter divulgado a doença no México.
Aliás, para encerrar esta
breve viagem no mundo da influenza, deve ser enfatizado que atribuir inicialmente
aos animais domésticos a responsabilidade pelas gripes que atacam os humanos
está se tornando um mau habito, um abuso sem comprovação clinica, que pode
causar conseqüência piores daquelas provocadas pelo vírus A. Nos últimos anos,
por exemplo, em nome da saúde pública, a matança de animais já tirou de muitas
mesas de nosso mundo faminto milhões de frangos e de porcos que poderiam ser
comidos.