O ESPELHO DOS TEMPOS NAS CLASSES DAS AÉREAS
Acontecia há algumas décadas,
depois da II guerra mundial, nos anos a partir de 1950. Naqueles anos, os
passageiros que viajavam na primeira classe dos DC-8 e nos grandes jatos que
vieram depois, ainda na época de gloria da aviação comercial, em sua maioria entravam
na cabine reservada da first class com
a mesma sensação que os novos ricos tinham dentro um carro Mercedes.
De fato, no começo da
aviação, voar era um dos luxos prediletos dos ricos, um novo esporte para
acrescentar ás temporadas na neve ou nas praias exóticas, com sua cabine de
primeira substituindo o Grand´Hotel e as comissárias no lugar do maitre.. Para as socialites as viagens
aéreas eram divagação e prestígio. Todas gostavam ser chamadas pelos cronistas de
Vips quando, amparadas pelos capitais excedentes de seus companheiros, se
deliciavam numa travessia do Atlântico em first
class.
No Brasil, foi Ruben Berta
um dos primeiros a acreditar no potencial da
cabine de primeira, como geradora de prestígio para os viajantes e de
receitas fartas para a sua Varig. E quando inaugurou a rota para Nova York
investiu nesses serviços, como num diferencial para o sucesso na competição com
as aéreas americanas, ricas em número de aviões, mas pobres em sofisticações de
etiqueta e em diversões alimentares. Acertou e foi copiado, mas por muitos anos
a sua empresa esteve em posição de destaque frente á PanAm pela categoria de
seu serviço de bordo. Houve imitações notáveis de parte de empresas européias,
mas somente mais tarde coube ás asiáticas um destaque ainda maior nos rituais a
bordo da primeira classe, numa inteligente mistura de deferência para os
passageiros e de exotismos regional.
Com o passar dos anos e com
a difusão das ligações aéreas, aquele que havia sido um seleto esporte de ricos,
foi incorporado na estrutura econômica. Na nova ordem capitalista, para não perder
oportunidades, os executivos precisavam estar presentes nos extremos Oriente ou
Ocidente nas horas certas para fecharem os negócios. Viajando a jato, que era o
meio, mas a um custo elevado na primeira classe. Pela freqüência de suas
viagens representavam uma nova categoria de usuários, á qual as aéreas
ofereceram uma opção tarifária intermediária entre first e economy, chamada
inicialmente de executiva ou de business, e recentemente com nomes mais
impactantes ou exóticos.
Em vista da passagem gradual
de muitos viajantes da First para a Business as empresas aéreas investiram na
melhoria da nova classe, em comodidade das poltronas, espaço disponível, comida
e bebidas. E o número de assentos de primeira classe começou a diminuir, para
ceder lugar na cabine aos de executiva, desaparecendo totalmente em várias
aéreas. Atualmente ainda se encontram na dianteira das aeronaves fileiras de
poltronas de primeira, enormes, extensíveis, servidas a caviar e champagne, em
prevalência nos vôos de companhias do Estremo e do Médio Oriente, mas entre
seus ocupantes se encontram com freqüência passageiros não pagantes. Quanto á
Classe Business, já superou o breve período de ameaça da internet, quando
muitas organizações acharam mais econômico, prático e eficiente recorrer aos debates
de suas reuniões gerais através das imagens de computadores interligados.E ,
também, muitos ex usuários da First emigraram para a nova opção, que em muitas
aéreas oferece excelentes serviços, sem pompas.
Chegamos assim ao capitulo
atual da história de Classe Executiva. Algo cara, se sua tarifa é comparada com
aquela da classe econômica, representa uma boa fonte de receita para as
empresas aéreas. Mas a crise mundial que aflige a economia está se refletindo nos
negócios e tem reduzido bastante as viagens dos executivos e o transporte aéreo
de cargas, atualmente o mais evidente e alarmante problema que aflige ás
companhias internacionais. Na rotas procedentes da Ásia os embarques de mercadorias
baixaram em janeiro de 23% , evidenciando a caída do volume de vendas e, como
conseqüência, reduzindo as viagens de negócios que alimentam a ocupação de
assentos de executiva. Segundo dados divulgados pela revista Airline Business, nos primeiros dois
meses deste ano houve um declínio de 30% no valor das passagens e de 14% no
número de viajantes na classe business das aéreas norte-americanas. Com a crise
causada pelo alto custo do petróleo, a retração desse tráfego já havia sido
registrada em 2008 no Velho Continente. De acordo com as estatísticas da
Associação das Aéreas Européias, AEA, no ano passado o tráfego perdeu cerca de
1,3 milhão de embarques na classe business Premium, em comparação com 2007. Em
particular, o declínio de participação da executiva no total do tráfego europeu
tem sido mais acentuado nos vôos de curta distância, onde nos últimos oito anos
de 21% ela se reduziu para apenas 7,8% .
Nesta espécie de resumo da
evolução da demanda dos usuários nas diferentes classes dos transportes aéreos,
a crise atual do setor aparece em toda a sua evidência. E não surpreende, nesta
conjuntura, o recurso das empresas aéreas a formas de descontos para conquistar
a preferência dos passageiros, com destaque pela concessão de up-grading para a
classe executiva aos de particular interesse comercial. Assim como o fato que a
Lufthansa tem redimensionado a classe econômica de seus Boeing 747, lhe
acrescentando 22 novos assentos cujo espaço, há pouco tempo, era dedicado á
classe executiva. Ou a inédita promoção divulgada por outra companhia de
prestígio, a Cathay Airlines, oferecendo duas passagens de classe business pelo
preço de uma.
Não é fácil prever a duração
e todos os efeitos da crise mundial sobre os transportes aéreos. Mas a caída da
demanda nas classes mais caras poderia exigir das aéreas novas políticas
comerciais incluindo, nas rotas de maior potencial, o virtual nivelamento dos
níveis tarifários daquelas mais procuradas pelos usuários. Até a economia se
reerguer e exigir o lançamento de uma nova tarifa diferenciada, para substituir
os privilégios da gloriosa classe business, executive ou premium, que de todas
tem demonstrado ser a mais adequada aos nossos tempos.