UM OTIMISMO
ALGO EXCESSIVO
O Brasil é uma ilha de
tranqüilidade econômica ? Aparentemente, sim. Mas há sinais de alerta, aqui e
ali, na Bolsa e na taxa de juros, no preço dos alimentos e no custo dos
imóveis, entre outros. Dizem que a nova classe C nunca comprou tanto, a
credito, e que deverá ingressar em massa nos aviões de carreira, depois de ter
viajado ao longo de décadas em ônibus que levam 36 ou mais horas para chegar às
cidades do Nordeste.
E no país o dólar está
cotado tão baixo como nunca foi neste século, tanto que as empresas aéreas
preferem vender seus assentos em reais, pois o câmbio do dólar não paga os
custos feitos em moedas outrora chamadas de fortes. E os especuladores de fora
chegam aqui para realizar aplicações relâmpago, cujos valores voltam
engordados, no curtíssimo prazo, às mãos dos investidores.
Haveria algo imperfeito
neste círculo mágico da economia nacional ? Ela cresceu, sem dúvida, produz e
exporta como nunca, oferece lucros inéditos. Mas se as perdas na bolsa de São
Paulo começam a ser expressivas, quer dizer que parte das ações representativas
das atividades nacionais perderam pontos, ou seja algo da confiança dos
investidores. E se os bancos ganham enormidades, baseando seus lucros em taxas
de interesse extorsivas, do outro lado há os milhões de pessoas que compram a
crédito e depois enfrentam problemas para pagar suas prestações. Hoje tudo é
vendido em múltiplos pagamentos : maior o número de parcelas, muito maior a
margem de lucro para quem detêm o poder econômico.
Na ilha de tranqüilidade
econômica está incluída parcialmente a indústria de transportes aéreos, que há
meses relata aumentos de custos operacionais e critica a evolução do preço do
combustível. Um ônus que é a conseqüência do aumento do custo do petróleo, mas
também é devido à ganância da Petrobrás, que finge importar o querosene de
aviação do exterior, para onerar o preço final com despesas que incluem até o
frete. O petróleo é nosso, mas o lucro é deles.
E´ sobre o management no Brasil dessa indústria que
vale a pena evidenciar algumas contradições. Por exemplo, enquanto as grandes
aéreas americanas acusam perdas colossais no segundo semestre e anunciam a
demissão de milhares de funcionários, aqui a Gol e a Tam admitem que será
difícil fechar este ano como nos anos passados, mas ainda não evidenciaram seu
mal estar adotando cortes em seus serviços e nas forças de trabalho. O
aproveitamento médio de seus vôos, que em junho foi inferior ao do ano passado,
seria inamissível nos Estados Unidos. Mas elas continuam injetando novos
assentos na oferta e recebendo mais aeronaves, como se esta fosse uma época de
crescimento e não de cuidadoso status quo. Enquanto lá fora, por exemplo, a ex
JetBlue de David Neeleman, cujo nome foi aqui importado para criar a Azul
Linhas Aéreas, logo após admitir US$ 7 milhões de prejuízo no segundo trimestre,
adiou a compra de 10 aeronaves Emb 190 da Embraer brasileira, apesar de ter
registrado elevados incrementos no número de passageiros transportados.
É verdade que aqui existem
nichos de tráfego potencial em cidades menores e que a evolução social está
abrindo as portas das aeronaves a passageiros novatos, segundo estatísticas e
previsões de analistas e de pesquisadores. Mas também nessas supostas iminentes
explosões da demanda existem limites, pois viajar por via aérea ainda não é uma
prioridade vital, comparável com outras necessidades humanas.
Passando agora aos serviços aéreos internacionais,
depois do naufrágio da ex Varig, sob orientação da Gol, sobraram as rotas
sul-americanas para as duas empresas, se a proposta da Anac de inaugurar uma
política de céus abertos ficar em stand-by por mais algum tempo. E, nos vôos
para a Europa, uma Tam algo desorientada, mas animada e confiante, já soma
prejuízos em sua impar competição com aéreas de bandeira ou subsidiadas (apesar
das proibições da União Européia). Quanto aos Estados Unidos, sua modesta
participação de mercado, que supostamente deveria crescer se em outubro a aérea
inaugurar vôos para Miami e para New York, já está ameaçada pela vinda de mais
empresas do Tio Sam, depois da inoportuna decisão do Brasil de alterar o acordo
bilateral com os EUA, permitindo mais freqüências para os dois lados, apesar de
saber que ao norte os 105 vôos do agreement
anterior já estão preenchidos, enquanto aqui apenas uma terceira parte deles
está sendo operada. Não é difícil prever que a participação brasileira no
tráfego internacional encontrará crescentes obstáculos para manter sua presença
no mercado. Em 2007 foi de 29% e teve 34 empresas estrangeiras competindo com
duas domésticas para conquistar um tráfego internacional que, sem considerar as
nacionalidades, movimentou cerca de 5 milhões de passageiros.
Talvez nunca, no passado, a
aviação comercial brasileira esteve em tão evidente situação de inferioridade
na disputa por um tráfego que, teoricamente, lhe pertenceria em pelo menos 50%.
As épocas, que hoje parecem remotas, em que os aviões brasileiros da Varig
dominavam na rota para Nova York, os históricos duelos com a PanAm, a Eastern e
até a Braniff nos vôos de/para a Brasil, foram substituídos pelo maciço passeio
das frotas da Delta, American,
Continental e Northwest dos
EUA para o Rio e São Paulo. E, querendo, mais aéreas poderão competir, contra
uma Tam solitária cuja única vantagem será sua superior qualidade de serviços,
se ficar confirmado que a VRG já saiu e não poderá voltar, a não ser que a Gol
decida trocar os velhos 767-200 por aviões da nova geração.
O incrível, nesta
conjuntura, é que a entrega do mercado brasileiro às empresas americanas parece
lógico, inevitável, até excelente, do ponto de vista das autoridades, que
optaram para trocar o prestígio adquirido pela aviação nacional por mais gringos
voando para o país, visando aumentar as anêmicas estatísticas do fluxo
turístico internacional. E ninguém parece preocupado com as tormentas que
sacodem a indústria aérea no mundo inteiro, nesta ilha de tranqüilidade que não
se sabe até quando poderá ficar fora da tempestade.