UNIDOS CONTRA OS TREMORES DA TERRA

 

Aqui no Brasil, os ecos dos tremores não chegam a abalar a terra, como acontece em países vizinhos, ao sul e ao norte. No Chile e nas repúblicas da América Central e, mais longe, na Califórnia. Ainda vivia o presidente Allende, quando quem escreve foi surpreendido em Santiago por um terremoto. De repente tudo se mexeu, se apagaram as luzes e nos rádios se ouviu a voz do presidente , convocando os chilenos para não se deixarem levar pelo pânico. E aos milhares moradores e turistas saíram das casas e dos hotéis, levando ao ar livre cobertores para se protegerem do frio invernal. Era a espinha dorsal do continente que tremia.

Na outra extremidade da cordilheira, ao norte, San Francisco, como Santiago, sabe que o terremoto está á espreita.  Mas elas não conseguem prever quando atacará, apesar de se encontrarem em áreas monitoradas, já identificadas como sujeitas ao risco sísmico. Há sinais premonitórios, mas nem sempre eles evidenciam a iminência do grande tremor. Uma exceção aconteceu na China, em 1975. Foi talvez o único grande terremoto que, detectado em tempo, fez as autoridades alertar os moradores e ordenar a evacuação em massa de centenas de milhares de pessoas. Logo em seguida, os sinais que alarmaram os cientistas chineses se confirmavam como verdadeiros e houve uma enorme explosão subterrânea: cerca de 150 mil habitantes da província de Haicheng foram assim salvos de um terremoto de “magnitude” 7,3. Mas 18 meses mais tarde, sinais parecidos mas menos evidentes não foram interpretados pelos mesmos cientistas como anúncios de um tremor de terra ainda mais forte, que em julho de 1976 destruiu a cidade de Tangshan e matou 250 mil pessoas.

 

Que acompanha a evolução da sismologia sabe que os sinais conhecidos como premonitórios, ou “early warning”, não são confiáveis. Na região dos Abruzzi, na Itália, um pequeno povoado como Onno na semana passada viu morrer sob as ruínas das casas 40 de seus 350 moradores, enquanto a “capital” L´Aquila, de 72 mil habitantes, era virtualmente destruída. Caíram edifícios públicos e quase 200 pessoas morriam soterradas, junto com relíquias históricas milenárias, apesar de um expert em terremotos ter divulgado boletins de alerta, citando possíveis indícios de algo anormal nas vísceras da terra, além do comportamento nervoso dos animais domésticos Mas sintomas parecidos já havia sido assinalados em outras ocasiões, sem que algo acontecesse. Por isso ele recebeu intimação da Justiça para suspender a divulgação de suas anotações, pois estava causando alarme na inteira região. Dias depois o tremor de magnitude 6,3 chegou, mas de fato poderia não ter chegado, como aconteceu muitas outras vezes. Os Abruzzi são atravessados pelos Appennini, centenas de quilômetros de montanhas sobre regiões vulcânicas, sujeitos como os Andes chilenos a terremotos devastadores, como aquele que em janeiro de 1915 destruiu Avezzano e causou 32.600 mortos. Aliás, tendo início no centro da Itália, os Appennini estendem as falhas geológicas da zona sísmica até o fim da península, incluindo a Sicilia, onde a cidade de Messina  foi devastada em 1908 por um terremoto que causou mais de 8 mil mortos.

 

Este texto sobre terremotos foca um assunto que aparentemente pouco tem a ver com o turismo. Mas não é assim. Um caro amigo, Bernardino Cifani, ex-representante da Varig em Roma, quando se aposentou elegeu a região de L´Aquila como sua residência habitual, vivendo nela com os familiares. Diante das conseqüências do terrível tremor o pensamento foi para eles e a busca por notícias se transformou num amargo aprendizado sobre a imprevisível e cruel violência dos terremotos. E descobrimos que, tamanho foi o noticiário divulgando características da situação na Itália, pouco conhecidas no mundo antes da tragédia de L´Aquila, que vários analistas dos fluxos turísticos internacionais temem que, nos próximos meses e por tempo ainda imprevisível, a Itália inteira estará sujeita a perder parte de seu tradicional e milionário tráfego de visitantes estrangeiros. O fato que os últimos tremores tenham alcançado Roma, alarmando os moradores da capital italiana e a existência no país de cerca de 8 milhões de edifícios considerados “a risco” de desabar num terremoto, além de centenas de antigos monumentos, igrejas e cidades históricas, metas obrigatórias das visitas de turistas, poderia afastar da Península quem teme a imprevisibilidade dos desastres sísmicos. Sem contar numerosos edifícios construídos depois da segunda guerra mundial, que no terremoto de L´Aquila tem revelado uma inesperada fragilidade. Junto com centenas de habitações, também a nova Casa do estudante, o edifício da prefeitura, o hospital, entre outras construções públicas, transformaram as ruas de L´Aquila num enorme amontoado de ruínas, nas quais emergem construções lesionadas e as sobras da estrutura de uma antiga igreja. Segundo os técnicos, houve muitas falhas na aplicação das normas anti-sísmica governamentais, foi empregado ás vezes cimento armado de baixa qualidade misturado com areia de praia e faltaram controles para reprimir e condenar os abusos edilícios. Agora, os inquéritos abertos deverão apurar as responsabilidades.

 

E novas exigências deverão ser feitas na reconstrução de L´Aquila, prometida pelo governo, e nas áreas da península mais visadas pelos cerca de 8 mil tremores que anualmente ameaçam as cidades incluídas na ampla zona de risco. Os edifícios deverão incorporar as recentes conquistas da técnica, que garantem flexibilidade ás construções, evitando que suas estruturas sejam demolidas pela violência das ondas sísmicas. Já existem inúmeros exemplos da eficiência dessas conquistas da ciência edil: os arranha-céu de Tóquio, São Francisco, Santiago, com suas bases articuladas que absorvem grande parte dos movimentos ondulatórios dos sismos. De fato, se  o terremoto é inevitável, não é previsível, não tem data nem horas para acontecer, para minimizar as suas terríveis conseqüências existe somente um meio : a prevenção, que dando a segurança máxima ás novas construções e reforçando aquelas já existentes , protegerá os moradores e  tranquilizará os turistas. Um trabalho enorme, indispensável, que cabe ás autoridades impor e supervisionar, também para preservar os tesouros antigos, ameaçados por tremores da terra sempre mais freqüentes.

 

Os supérstites de L´Aquila, assistidos de maneira exemplar nesta emergência, acreditam nessa tomada de consciência dos riscos latentes e nas promessas do governo, mas não ignoram as palavras de um grande escritor italiano, Ignazio Silone, que nasceu em Pescina no Abruzzo. Ele lembrou durante toda a sua vida, as cenas do terremoto que em 13 de janeiro de 1915 causou em 30 segundos a morte de 3.500 dos cinco mil moradores de sua pequena cidade. Anos mais tarde, já adulto e famoso, ele escreveu: “Num terremoto morrem todos: ricos e pobres, cultos e analfabetos, autoridades e cidadãos. Um terremoto realiza as promessas de igualdade para todos que palavras e leis nunca cumprem. Mas se trata de uma igualdade efêmera, pois quando o medo desapareceu, a desgraça coletiva se torna oportunidade para causar injustiças ainda maiores”.