A LUTA DESIGUAL
DOS APOSENTADOS DO AERUS
Há vários ex-funcionários da
Varig, aposentados ou demitidos, que lutam bravamente para manter levantada a
bandeira do Aerus, o instituto de previdência privada que prometeu a mais de
sete mil aderentes um velhice tranqüila. Incansáveis, o comandante Zoroastro,
Carlos Pimenta, Luis Torres, somente para citar alguns nomes, divulgam todas as
notícias relacionadas com o Aerus e a indenização da Varig, apóiam passeadas de
aposentados, questionam o advogado Maia, o SNA, vereadores, deputados, juízes,
ministros, à procura de apoio para que a tão aguardada decisão do Supremo
Tribunal Federal acabe com a insensibilidade governamental, pois há centenas de
famílias que, por falta de pagamento da aposentadoria prometida, atravessam
crises financeiras e privações nunca imaginadas.
Em Brasília poucos devem
ignorar o drama desses aposentados e, ninguém entre os bem informados, deve
duvidar de que a causa do Aerus já é um problema social. Vários ministros foram
entrevistados, autoridades do judiciário já sabem que seus pares, nos
julgamentos anteriores ao do STF, expressaram oficialmente sua concordância com
o pagamento da dívida que o governo assumiu com a Varig, quando bloqueou por
lei as tarifas aéreas. Uma dívida que, no momento, representa a maior esperança
para os aposentados do Aerus, pois boa parte dela será repassada aos cofres
saqueados do instituto de previdência. Cofres semi-vazios, dos quais saem para
os participantes do Plano I pingados pagamentos de poucos reais, no lugar da
real aposentadoria, que se perdeu nas mãos de administradores irresponsáveis e
de funcionários do governo omissos, que transformaram o instituto de
previdência num palco de experiências erradas e até lhe permitiram atuar como
se fosse uma central de empréstimos.
E´ uma história já
conhecida, muitas vezes repetida, mas ainda não contada com total isenção. Quem
mais acusa deveria admitir que não é correto afirmar que todos os
administradores do Aerus foram incapazes ou desonestos, nem que todas as mudanças
motivadas pelo erro básico atuarial foram feitas em má fé. Quem acompanhou a
fase anterior à intervenção da Superintendência reconhece que houve uma
tentativa honesta de reestruturar o instituto, de eliminar investimentos
errados, de melhorar sua situação financeira. Mas as finanças já estavam
comprometidas, havia muitos aves de rapina em volta do capital do Aerus, muitos
interesses de parte, que eram alimentados pela situação catastrófica da Varig, da
qual uns e outros queriam tirar o maior benefício. Grupos sem ideais e muitas
ambições de comando, gente que sem capitais pretendia concorrer na liquidação
da aérea.
Mas a este ponto da história
do Aerus, muito mal contada, de pouco adiantam acusações e críticas. Tudo se
concentra agora no futuro próximo, quando virão as cenas finais de um drama que
já está sem roteiro, e se arrasta por força do desespero de seus interpretes,
tendo por palco os poderes da República. Sem ilusões, os aposentados devem se
preparar para novas incógnitas, se perguntando: se a decisão do STF for
favorável, ainda este ano, ao pagamento da indenização, quantos meses ou anos
serão ainda necessários para remover os recursos, para reduzir as demoras burocráticas,
para disponibilizar o dinheiro que, depois removidos todos os obstáculos, deverá
ser recebido pelo Aerus ? Somente os fatos e não as previsões e as promessas de
ajuda darão à resposta da qual, ainda que positiva, depende em particular a
sobrevivência dos mais idosos e mais necessitados.
E se o parecer do STF
enterrar as esperanças dos participantes do Aerus ? A hipótese, vista à luz da
Justiça, pode parecer improvável. Não se trata da vida de alguns, mas de
milhares. Não é um caso dúbio. Ilustres juízes já afirmaram que o pedido é
legal, é justo. Mas a dúvida sobre a solução do julgamento permanece, em vista
das pressões contrárias, do pronunciamento de um procurador que poderia
influenciar um ou outro ministro do STF, do valor elevado a ser pago. Sem ter
previsão orçamentária alguma por mais esta despesa, depois de superadas todas
as barreiras, qual será a demora necessária para que o governo abra os cofres
da União para entregar à Varig e aos aposentados do Aerus uma indenização que
supostamente chega a 5 bilhões de reais ?
E´ profundamente amargo,
deprimente e injusto ter que admitir que, são tão numerosos os obstáculos a
serem superados, que precisa haver muita fé para acreditar que os aposentados
receberão de volta os valores perdidos. Por isso, os que lutam em nome de todos
por esta causa, em nome de um direito de enorme valor humano, poderiam ser
comparados com figuras históricas ou lendárias. Até o sonhador Dom Quixote
viria à memória, se não houvesse enorme diferença entre os devaneios literários
e as barreiras burocráticas do caso Varig. Apesar do fato que sua solução
dependeria apenas da sensibilidade social de quem tem o poder para
transformá-la em realidade.