UMA
HISTÓRIA MAL CONTADA
Na aviação, como na vida, há ocorrências imprevisíveis. Há fatos que se desenvolvem fora de qualquer possível controle, outros que apesar de surpreendentes são apenas o resultado de erros ou de ações premeditadas, antes não revelados.
As ocorrências destas
semanas, no “gerenciamento” da VRG pela Gol, nos inspiraram essas considerações
meio sibilinas. São fatos de crônica aviatória, de aparência incompreensível,
que contradizem tudo o que a empresa Gol, até recentemente, fez e prometeu,
após adquirir a velha Varig dos enrolados sócios sino-brasileiros da VarigLog e
da Volo Brasil, que haviam arrematado a aérea num solitário leilão. Houve confusões
e golpes baixos, promovidos por ex-executivos pré-indenizados e por grupos
supostamente interessados no futuro da empresa, até que a Gol ofereceu US$ 320
milhões pelas sobras da velha aérea rio-grandense que poderia ter adquirido em
leilão por menos de 30 milhões de dólares. Dizem que ainda assim, foi um bom
negócio. Mas perdeu transparência. Considerando que a fama dos Constantinos não
inclui a ingenuidade, na época surgiu esta pergunta : por que pagar muito mais
caro algo que antes era oferecido a preço de banana ? Responderam os homens da
Gol : precisávamos conhecer melhor os detalhes da situação financeira da Varig,
precisávamos saber até onde iam nossas responsabilidades trabalhistas e quem
pagaria os 7 bilhões de dívidas deixadas pela aérea. Estamos comprando uma
ícone da indústria de transportes aéreos, uma empresa cujo nome é ainda apreciado
no mundo, para competir e nos representar nas rotas internacionais. Houve quem
acreditou, pois essa atitude vinha da Gol, a companhia nacional que em menos de
seis anos de existência havia conseguido acumular prestígio e lucros líquidos
raros em aéreas iniciantes, oferecendo serviços a tarifas “low”.
Foram necessários os efeitos
negativos, no tráfego doméstico, de abstenções e quase greves dos controladores
de vôo, depois do desastre que destruiu 154 vidas que estavam a bordo de um seu
Boeing, para que fossem detectados na imagem da Gol os primeiros indícios de insuficiência
estrutural e gerencial. Até que, depois do Carnaval de 2008, o ingênuo diretor
de marketing da VRG, chamou a imprensa para divulgar, com a maior naturalidade,
que Frankfurt, Londres e Roma eram destinos que teriam suas operações suspensas
a partir de março. E, já
Mas foram citados também
outros motivos para justificar a retirada dos céus sul-americanos. A demanda
turística para Lima estava baixa, enquanto já se sabia que a Lan ( a aérea
chilena cujos donos são ligados por fortes vínculos de amizade aos Constantinos
) estava tomando conta do tráfego entre os dois países. Culpa da inexistência
de low fares para oferecer aos passageiros, ou do low service ? E onde foi a
habilidade diplomática de Constantino Jr ? Deixou que a Tam namorasse a Lufthansa,
apesar dos anos de grande amizade da aérea alemã com a Varig e ignorou que a
Alitalia, á beira da falência, estaria aberta a qualquer parceria.
O drama da nova Varig se
definiu melhor na sexta-feira passada, nas declarações de Constantino Jr. Disse
o jovem e bilionário presidente da Gol Linhas Aéreas : “A Varig desistirá
definitivamente das rotas para Frankfurt, Londres e Roma se não conseguir
fechar parcerias significativas com companhias internacionais e se não
ocorrerem outras novidades”. Não disse se a VRG será uma aérea internacional
mirim, que voará na Europa apenas para Paris e Madri graças aos acordos
interline com Air France e Iberia. E não esclareceu se também o início do
futuro vôo para Nova York depende de parceria previa com uma aérea americana,
além da participação em uma das três alianças internacionais.
E por último disse confiar na expansão dos
serviços da Gol na Europa, graça à provável assinatura de um acordo de code
share com a Air Europa. Se não escondeu algum plano de integração de serviços
mais amplo, foi otimista demais. A companhia espanhola, associada à aliança
SkyTeam, não tem transito fácil fora de seu país. Possui 40 aviões (dos quais
33 Boeing 737-800), tem sede nas Baleares, se especializou em vôos charter e
tenta se firmar como aérea regular. Voa para várias cidades da Espanha, poucos
destinos na Europa (Paris, Milão e Roma, além de Praga, Budapeste, Varsóvia),
além de Havana, Caracas, Santo Domingo, Cancun, duas cidades da África e, na
América do Sul, para Salvador, Rio de Janeiro e Buenos Aires. A maior aparente
afinidade entre as duas aéreas estaria nas frotas de 737-800 e no ponto de
encontro no Rio.
Perguntas finais : é
possível que a retirada das rotas européias tenha sido premeditada ou a Gol
suspendeu seu apoio à Varig apenas para não perder mais dinheiro ? O prejuízo
operacional teria sido de R$ 200 milhões só no quarto trimestre de 2007. E como
conciliar as declarações feitas no ano passado sobre o futuro de uma Varig
lutadora, prestigiada, dinâmica e esta VRG que, como já foi dito, pousa antes
de decolar ? Ou tudo já havia sido programado, sob o alto patrocínio
governamental, quando em Brasília a Gol recebeu parabéns pela iniciativa de
adquirir a Varig ? Haveria entendimentos com outra aérea para formar uma nova
empresa internacional da qual participaria a VRG ? E, se o encolhimento for
definitivo, que fim levam os quase obsoletos Boeing 767
e parte dos funcionários orgulhosamente recontratados?