AS EMOÇÕES
DE UM VÕO DE EXPERIÊNCIA, COM PELADA FINAL A BORDO DO ELECTRA PP-VLY
Este é o terceiro texto
de memórias de Adilar André Cossa, ex-engenheiro de vôo da Varig, onde passou
mais de 27 anos de sua vida. A narração evidencia de um lado a seriedade com
que a empresa cuidava de suas aeronaves e de outro o entusiasmo juvenil das
tripulações, inclusive quando, em vôo, realizavam testes que mediam o grau de
eficiência das estruturas técnicas recém submetidas a revisão. Num clima de
camaradagem,livre dos ônus da burocracia.
Todo avião, após
ser submetido á revisão geral necessita efetuar um vôo de experiência, para
testar todos os sistemas em situação de vôo real. No Electra este serviço era
executado
Depois de terminada a revisão, uma tripulação era enviada
para realizar a operação referida, normalmente formada por instrutores, chefes,
e pesquisador técnico do equipamento. Naquela ocasião a chefia de equipamento
era do comandante Ronald, que a tinha assumido recentemente. Filho de um dos
mais antigos comandantes da empresa, com fortes relações de amizade com o então
presidente Sr. Hélio Smidt, era o responsável pelo vôo, junto com a tripulação
composta pelo F/Es Enio, Sergio e Mendes mais o co-piloto Silvio, o pessoal da
manutenção e inspeção para acompanhar os testes, e alguns furões, entre os
quais o pai do comandante, que já estava aposentado.
Durante os testes
de pré-vôo em solo, efetuados pelos engenheiros de vôo, o comandante fez
algumas ligações telefônicas para seus familiares que residiam no interior do
Rio Grande do Sul. Era o mês de janeiro, época de veraneio, com as praias
lotadas no Sul, com muitos familiares das pessoas a bordo no litoral, algumas
das quais também foram avisadas. Nesta altura o palco estava quase todo armado.
O vôo de
experiência transcorreu normal, se esta palavra pode ser usada para uma
operação onde são cortados e religados todos os motores, naturalmente um de
cada vez, e são feitas descidas de emergência, estóis com diversas configurações
e dezenas de outros testes.
Com os testes
finalizados, o comandante aproou a cidade de Santa Cruz do Sul, onde desceu
para altitude mínima de trafego, eu diria o suficiente para não arrancar o
telhado das casas, efetuando diversas passagens sobre a moradia dos pais, onde
familiares abanavam lençóis.
Agora imaginem a
surpresa dos demais moradores da cidade, naquele lindo dia de verão onde o
maior avião que aparecia por lá era o monomotor conhecido por paulistinha: de
repente, saindo do nada, aparece um monstro com quatro motores, voando baixo,
soltando fumaça, balançando as asas e piscando os faróis. Muitos entraram em
pânico a ponto de alguns ligarem para a base aérea de Canoas e para a imprensa relatando
os acontecimentos.
Entretanto, prosseguia
o vôo panorâmico com uma passagem sobre as torres da catedral gótica da cidade
de Venâncio Aires, seguindo então para o litoral na região de Tramandai e Imbé,
onde também o presidente da empresa estava de férias. Lá, segundo relato de um
dos tripulantes, desceram sobre a linha do litoral para a menor altitude
possível, a ponto que das janelas do PP-VLY os banhistas pareciam estar ao lado
e fizeram varias passagens nesta condição, com as pessoas em terra abanando
enquanto eles balançavam as asas e faziam sinais piscando os faróis de pouso.
O que eles não sabiam,
era que alguns anos antes uma aeronave de pequeno porte tinha feito pouso de
emergência na praia. Os veranistas, pelas condições citadas, somadas á fumaça,
que é normal nas turbinas do Electra, imaginaram que o avião estivesse em
dificuldades e se preparando para pouso de emergência. Muitos deles, assustados
começaram abandonar a praia e também ligaram para Aeronáutica avisando do que
estava ocorrendo.
Depois disto,
retornaram a Porto Alegre entregando a aeronave para a manutenção corrigir
alguns problemas detectados no vôo, foram para o hotel descansar para, no dia
seguinte, fazer o translado do avião para São Paulo.
As sete horas
da manhã o comandante atendeu uma ligação do inspetor Martin, que também estava
no vôo, informando que eles eram manchetes dos jornais Zero Hora e Correio do
Povo, e que a aventura já era de conhecimento da Diretoria de Operações, que
havia ordenado a remoção dos gravadores de vôo para análise.
Avisados, todos os tripulantes foram
comprar os jornais na banca próxima ao hotel. Na capa da Zero Hora tinha uma
foto de quase meia pagina do Electra sobrevoando a plataforma de pesca, com os
seguintes dizeres “Electra dá rasante em Tramandaí e provoca correria”. A
reportagem relatava os acontecimentos já citados, acrescentando que eram dois
aviões dando rasantes um na região de Santa Cruz do Sul e outro no litoral e
que o povo imaginou que o Estado estava sendo invadido. O Correio do Povo
publicou que os tripulantes estavam fazendo uma “pelada” e que seriam punidos
pelas autoridades aeronáuticas.
Toda a manha
foi gasta com explicações ao Coronel chefe da DAC no aeroporto Salgado Filho,
que no final acatou as ponderações dos envolvidos afirmando que consideraria
que não houve violação das regras de vôo, mas que eles teriam que se entender
com a Varig. Á tarde, em clima de velório, os tripulantes levaram o L188 para
São Paulo.
Apenas o
comandante Ronaldo foi punido com a perda do cargo de chefe do equipamento e
rebaixado a primeiro oficial por trinta dias. O castigo foi muito brando,
devido ao fato que o presidente da empresa havia assistido ao show e gostado da
repercussão como marketing da empresa.