AVIAÇÃO E ECONOMIA NUM ANO POUCO PROMISSOR

 

Acabou também a evasão do Carnaval. Teria chegado a hora de olhar seriamente para os 11 meses de 2008 que ainda faltam e tentar prever se o novo ano trará as boas novas que, segundo a tradição chinesa, são propiciadas pelas explosões de toneladas de fogos de artifício.

Aviação civil e economia, no momento, estão entre os assuntos mais próximos dos interesses da maioria dos brasileiros. A primeira por ter supostamente saído da crise que enlutou os usuários com mortes, atrasos, cancelamentos de vôos, ameaçando a segurança dos serviços aéreos. A segunda por estar diretamente ligada à tranqüilidade financeira das famílias brasileiras. Ricos e remendados não conseguem, em nossos tempos, fugir de eventos cujos efeitos a globalização espalha pelo mundo.   

 

Fique claro que pobres não são os milhões de indigentes, mas os que vivem com alguns sacrifícios para poder usufruir parte dos bens e serviços ao alcance de balanços familiares médios, que lhes permitem gozar com moderação alguns dias de férias ao ano, às vezes viajar de avião, ou possuir um carro, investir no futuro dos filhos pagando taxas abusadas para fazê-los estudar. Uma espécie de classe média, em progressiva extinção. Abaixo deles se encontram os que ainda contam os centavos e mais em baixo os que lutam para juntar os poucos reais da sobrevivência E os ricos são, principalmente, os que esbanjam, aparecem sorrindo nas colunas sociais, dominam nos respectivos nichos, são ou pensam ser importantes e muitas vezes têm atividades que os candidatam ao titulo de milionários. Novos milionários, como os mais de 160 mil que no país emplacaram 2007.

 

Pode parecer excessiva a importância dada aos transportes aéreos. Mas como esquecer que em 2007, segundo a Infraero, embarcaram ou desembarcaram de vôos domésticos, somente nos aeroportos nacionais, mais de 90 milhões de pessoas, além dos mais de 12 milhões de brasileiros e de estrangeiros que, também, estiveram em vôos internacionais operados nos maiores de nossos aeroportos?

Nesse ano, além da tragédia de Congonhas, cujas causas não foram apenas de natureza infra-estrutural, aconteceram episódios gravíssimos, que denunciam falhas enormes apontadas pela IATA, pela ICAO, pela Ifalpa, mas minimizadas pelas autoridades, sempre otimistas. Falhas nos aeroportos, nas torres de controle, nas comunicações aéreas. Falhas evidenciadas pelas más condições das pistas, pelo despreparo de muitos controladores, pelos sistemas às vezes obsoletos, essenciais para acompanhar, facilitar e garantir as operações aéreas. Os dias de caos vieram por que houve a tentativa de imputar as falhas somente aos controladores. E foram anunciadas mudanças e revisões de rotas, para aliviar aeroportos sufocados pelos excessos de vôos e de usuários. Falou-se de novas pistas para aterrissagem e até de novos aeroportos, de controles severos e de investimentos estruturais saneadores das insuficiências registradas.

 

De tudo isso, além da intenção, do propósito, do desejo de cumprir o prometido e o indispensável, as medidas importantes já tomadas foram apenas duas: afastar os políticos da administração dos aeroportos e os incompetentes da diretoria da Agência Nacional de Aviação Civil. De fato algo mudou com o novo presidente da Infraero, que apesar de não ser um entendido em atividades aeroportuais é um executivo responsável, aparentemente bem assessorado. Assim como na Anac, de onde saíram improvisação e irresponsabilidade, substituídas pela plena consciência de que o certo ou o errado no setor aéreo representa o afastamento de riscos potenciais ou a aceitação de incógnitas que atentam à vida dos passageiros.

 

O resto está por vir. Havia um programa que descentraria o tráfego convergente em poucos aeroportos, cuja existência obedecia à conveniência das empresas aéreas; havia a evidente necessidade de concluir novas pistas e até de se construir um terceiro aeroporto em São Paulo, mas tudo parece agora limitado ao aumento da capacidade de recebimento do fluxo de passageiros, com mais um terminal para atender os passageiros de aeroportos cujos problemas operacionais ainda não foram equacionados.

Continuam faltando cerca de 300 controladores de vôos e o treinamento de parte dos quase 3 mil em atividades; falta a substituição de equipamentos pouco eficientes e a instalação de mais sistemas para o controle amplo e seguro do tráfego aéreo. Portanto as criticas e as alertas divulgadas por entidades internacionais permanecem válidas. Voar, ainda pode ser um risco, talvez maior daquele que já existia antes das tragédias da Gol e da Tam

 

Quanto à economia, a sensação dos entendidos é de que o otimismo oficial brasileiro - sobre as conseqüências para o país da crise que as autoridades americanas estão empurrando com a barriga, mas que existe, é obvia, coroa uma administração deletéria como a do presidente Bush – seja apenas uma reação infantil diante de um perigo que não poderá ser totalmente afastado pela disponibilidade de quase 200 bilhões de dólares nas reservas nacionais. Mas existem mecanismos de controle, para ser acionados em tempo. Não se trata apenas de compensar a redução dos investimentos estrangeiros, mas também as conseqüências da contração das exportações de bens produzidos no país, cuja receita representa a espinha dorsal dos progressos registrados nos últimos anos. E se a crise for geral, além do export/import serão afetados os preços desses produtos, com reflexos onerosos para a agricultura e a indústria brasileiras. Menos consumos, menos receitas, menos financiamentos, juntos poderão criar uma bolha cujo potencial explosivo para a economia do país é de difícil previsão.

 

Com esses dois flashes, nos transportes aéreos e na economia, foram apenas esboçadas as incógnitas que o Brasil deverá enfrentar neste ano em dois frentes diversas: no contexto de uma crise do setor aéreo peculiar do país e diante da ameaça global que incumbe sobre o mundo econômico e financeiro. De acordo com 85% dos economistas não haveria meios para bloquear a recessão americana , mas existem providências para atenuar suas conseqüências para o país. Quanto aos problemas do setor da aviação civil, imediatos e bem programados investimentos em homens e suportes técnicos, além de aliviar o receio de voar dos brasileiros, são a única opção válida para evitar que, talvez no curto prazo, voltem a acontecer amarguras e lutos.