TREINANDO NO SIMULADOR PARA VOAR NO ELECTRA

O autor, depois de superar os exames do curso e os vários obstáculos que dificultavam o acesso à carreira de “flight engineer”, teve que aprender a utilizar seus conhecimentos teóricos para voar nos Electras. Mas antes de entrar na aeronave, cumpriu longas horas de treinamento no simulador e somente meses mais tarde teve a emoção de enfrentar as dificuldades dos primeiros vôos, até o “xeque final de rota” que o liberou para “voar solo”. Com a vênia do autor, algumas partes do texto contendo considerações de natureza pessoal,  foram omitidas, para dar maior realce ao difícil caminho percorrido pelo autor, engenheiro de vôo Adular Cossa, e seus colegas, para realizarem seus sonhos de voar na Varig.

 

A próxima etapa foi o treinamento em simulador que estava instalado no aeroporto de Congonhas. Assim que cheguei a São Paulo fui conhecer o simulador de vôo do Electra, que era um dos primeiros produzidos no mundo. Ele estava montado dentro de um trailer com 10 metros de comprimento por mais ou menos quatro metros de largura quando aberto, e para transporte podia ser fechado, reduzindo a largura para cerca de três metros. Porém na Empresa há muito tempo estava fixado em aberto e se tentassem fecha-lo certamente não voltaria a funcionar.

 A parte elétrica e eletrônica era toda a válvulas, um verdadeiro forno que necessitava de refrigeração constante para operar corretamente. Os técnicos encarregados da manutenção faziam verdadeiros malabarismos para manter-lo em funcionamento, pois não havia peças de reposição. Apesar de tudo, certamente foi uma ótima escola tanto para pilotos como para os Flight Engineers.

As sessões de simulador duravam quatro horas e eram efetuadas em duplas: um Comandante, um co-piloto e dois Flights. Enquanto uma dupla estava em treinamento a outra observava e assessorava, quando necessário. Após duas horas a outra dupla assumia com um intervalo de quinze minutos e a "pauleira" prosseguia. No aparelho, todas as panes que podem ocorrer no avião são simuladas, para que caso ocorrer em vôo uma verdadeira os procedimentos sejam os determinados pelo fabricante e pela operadora da aeronave. Os procedimentos de operação normal e de emergência estão no manual chamado de QRH (quick reference handbook), onde são extremamente condensados e, para utilizá-los corretamente, é necessário conhecer os outros “books” completos, onde os procedimentos estão detalhados.

 O "QRH" e o manual empregado em vôo para as operações de emergência, pois quando ocorre um problema serio em vôo geralmente é necessária rapidez na solução do mesmo. Aí esta a importância do simulador: de fato, quando uma pane gera duvidas pode ser repetida e discutida até que todas as duvidas sejam esclarecidas e os procedimentos sejam efetuados corretamente.

O instrutor do simulador foi o Flight Engineer Paulo que, quando acendia alguma luz indicadora de pane e nos não tomávamos atitude para resolver o problema, dizia “cês (vocês) parecem lebres: quando uma luz acende ficam paralisados”. A pressão no simulador para resolver rapidamente as panes era muito grande, o que acabava prejudicando em parte a instrução. Por este motivo algumas vezes, quando o aluno tinha que cortar um motor por alguma falha grave, (fogo, vibração, perda de óleo ou potência, temperatura acima dos limites e etc.) na pressa cortava o motor errado. Isto a principio quebrava o "clima" provocando gargalhadas, porém o trabalho complicava, pois se já era difícil fazer o simulador voar com quatro motores, imaginem com dois parados geralmente do mesmo lado.

 Outro terror dos novatos no Electra era o painel de CB, circuitbraker (disjuntores), pois a solução de muitas panes Implicava em puxar (desligar ou resetar) algum CB. Para tanto era necessário saber a localização de quase todos e eram mais de duzentos. Para eu conseguir aprender a suas localizações fiz um desenho do painel em escala e sempre estava com ele a mão para consultas.

O chefe do simulador era o Comandante Trombini, que posteriormente também acumulou o cargo de representante da diretoria de Operações para a base de São Paulo, e foi aposentado da função de comandante por problemas de saúde. Era uma pessoa muito temida pelos tripulantes e funcionários do simulador.

E finalmente começou a instrução em rota, que consiste em voar acompanhado de um flight instrutor por cerca de cento e cinqüenta horas. Nos primeiros vôos eu estava completamente perdido e apavorado pela quantidade de coisas a serem feitas e monitoradas. Eram aproximadamente quarenta instrumentos durante a decolagem, e se apenas um apresentasse discrepância devia avisar o Comandante até a velocidade v1, que é o limite para rejeitar uma decolagem. E havia o instrutor José fungando no cangote: faz assim, faz assado, me explica isto? e aquilo, te mexe novinho, o avião já esta no Rio e você não saiu de São Paulo, etc.... Eu pensava, as vezes, “o que estou fazendo nesta chocolateira ?”. Como era bom trabalhar numa bancada em terra-firme e, ainda, com ar condicionado.

 

Entre os tripulantes existia na época o consenso que, para um aluno, ou piloto ou flight engineer ser considerado pronto, numa etapa de 50 minutos tinha que fazer todo trabalho relativo ao vôo e ainda conseguir almoçar ou jantar. Eu consegui a façanha depois de mais ou menos cento e cinqüenta horas.

 

Em setembro de 1986, aproximadamente oito meses após o inicio da instrução, contando o tempo de sala de aula, fiz o xeque final de rota e fui liberado para voar solo.  O meu primeiro vôo nesta condição foi realizado nesse mesmo mês com o comandante Grossman filho. Somente no termino do vôo, com o avião estacionado, eu disse muito obrigado e a comemoração consistiu em alguns chopes no aeroporto. Por coincidência, seis anos mais tarde, quando fiz meu primeiro vôo solo no DC10, ele também era o comandante.