TAM, GOL E AS CONEXÕES NO GALEÃO
Como este site previu, quando a Anac anunciou a sua intenção de regularizar o uso do Santos Dumont, depois de inúteis polêmicas, o aeroporto foi agora aberto ao tráfego doméstico e, dentro de algumas semanas, ele passará a servir não somente os vôos da Ponte Aérea, mas também a todos os passageiro que pretendem utilizar-lo em viagens de ou para outras cidades do país.
Foi uma vitória difícil, pois o governador e o prefeito do Rio, além de segmentos ligados ao trade carioca, tentaram se valer do bom relacionamento com o presidente Lula para forçar o ministro da Defesa e a sempre dinâmica e eficiente diretora-presidente da Anac a desistirem do projeto. Em suas opiniões ele seria supostamente nocivo aos interesses turísticos da cidade, pois afetaria o tráfego internacional, eliminando as conexões no Galeão para os passageiros que tem como destino final as capitais do Centro, Sul e Norte ou que delas chegam ao Rio como ponto de embarque para o exterior. Assim, ficariam aos passageiros duas opções pouco convenientes para minimizar os efeitos negativos da falta de conexões no aeroporto António Carlos Jobim, que os usuários e a imprensa continuam identificando prioritariamente pelo antigo nome de Galeão. A primeira delas seria deslocar-se de, ou para, o aeroporto Santos Dumont. A segunda, que mais desagrada ás autoridades, seria tomar um vôo direto entre a cidade de origem e o aeroporto internacional de São Paulo.
Isso, supostamente, esvaziaria o movimento no Galeão, influenciaria de maneira negativa o eventual interesse de investidores na privatização do aeroporto, afetaria suas receitas, prejudicaria a imagem turística do Rio desviando para São Paulo mais vôos de aéreas internacionais e até, mas são apenas suposições, interferiria no sucesso da Copa do Mundo de futebol de 2014 e na esperada escolha da cidade para sediar as Olimpíadas de 2016.
Mas há também outro fator de rejeição da mudança, de interesse exclusivo do chamado duopólio Tam/Gol, que é raramente lembrado. Trata-se das alterações que as duas aéreas, que detêm cerca de 90% do tráfego doméstico, deverão realizar em seus horários, para não perderem os embarques de conexão no Galeão e para enfrentar a concorrência das empresas menores, com destaque para WebJet e Azul, no aeroporto Santos Dumont.
A mais atingida e, por isso, aquela que recorrendo ao forte apoio do Snea mais se tem oposto ao projeto, é a Tam, devido á multiplicidade de seus destinos de longa distância no exterior. Para ela os inputs de passageiros transportados de outras cidades por sua rede doméstica, são um elemento essencial para o sucesso das operações internacionais. De sua parte, a Gol/Varig se encontra em situação mais folgada, pois opera para escalas sul-americanas, com várias freqüências no mesmo dia, vôos de duração bem menor, realizados em maioria durante o dia e, portanto, menos condicionados a conexões rígidas em horários de embarques e desembarques com poucas opções.
Mas outra preocupação aflige ás duas maiores empresas nacionais, além das conexões no Galeão: é a concorrência com as menores, que será aberta com a utilização do Santos Dumont para a maioria dos vôos domésticos. De fato, ninguém vai obrigar Gol e Tam a transferirem todas as suas operações domésticas para o aeroporto do centro do Rio, mas se não o fizerem perderão bastante tráfego. Mas elas poderão manter no Galeão vôos de sua conveniência, de preferência aqueles utilizados nas conexões internacionais. Elas possuem aviões modernos e maiores daqueles das congêneres, que em muitos casos poderiam ser mais atraentes para os usuários, apesar da inconveniência de ter que enfrentar uma corrida de carro para chegar ao Rio.
Quanto ao atendimento aos passageiros de aviões de outras empresas internacionais, existe o recurso aos transfers entre os dois aeroportos, que poderão ser operados pelas aéreas interessadas ou por serviços públicos, inclusive pelos ônibus que atualmente existem, com eventuais ajustes de horários e aumento de freqüências. Afinal, se milhões de passageiros domésticos (entre os mais de 10 milhões de embarques e desembarques realizados no Galeão em 2007 e em 2008) tiveram que utilizar carros ou ônibus, de ou para o Galeão, em suas viagens de curta ou média distância, não faltarão meios para facilitar os embarques dos usuários que dependem de conexão. Seu número é calculado em cerca de 16% do total anual, equivalente a 1,6 milhão de pessoas, sujeitos a diminuírem depois que o Rio e São Paulo deixaram de ser os únicos pontos de saídas e chegadas internacionais no Brasil, com a abertura de numerosas ligações diretas para o exterior, saindo de capitais de Estados.
A Anac, em conformidade com a recomendação do Conselho de Aviação Civil, Conac enviada ao ministro da Defesa, ao promover a transferência de vôos para o Santos Dumont, está apenas adotando as normas do projeto de Política Nacional de Aviação Civil, que depois de debatidas em audiências públicas realizadas em 2007 foram aprovadas em fevereiro passado por decreto lei assinado pelo presidente Lula. A Agência está cumprindo a sua obrigação ao disponibilizar para os usuários do Rio um aeroporto subaproveitado como o Santos Dumont, que em 2008 teve apenas 3,3 milhões de passageiros atendidos, tendo um potencial próximo de 8 milhões. Ele oferece novas e modernas instalações, que custaram aos contribuintes mais de 300 milhões, e a sua utilização proporcionará aos viajantes cariocas a economia do tempo necessário para a ida e volta ao Galeão, além das tarifas pagas aos taxis, ou aquelas cobradas para estacionar o carro próprio no aeroporto.
Quanto ás razões da decadência do aeroporto internacional do Rio, é oportuno lembrar que o seu esvaziamento foi conseqüência direta de dois erros e da opção de várias companhias. O primeiro erro foi o aumento excessivo das alíquotas do querosene de aviação cobradas no Galeão, que afastou aéreas domésticas e internacionais, o segundo foi o abandono em que foram deixadas as suas instalações, atualmente objeto de criticas constantes e pesadas de parte do governador. E houve a opção da maioria das empresas internacionais na escolha de São Paulo como escala final de suas operações no Brasil, por ser a capital paulista o principal centro de negócios do país e a mais solicitada pelos usuários, além que pela decadência da imagem turística do Rio de Janeiro, causada pela insegurança, que há algum tempo é objeto de medidas policiais que visam restabelecer a confiança de moradores e de turistas.
Por tudo isso, parecem extremamente impróprias e injustas as críticas que as autoridades do governo e do município do Rio levantaram contra a atitude firme de Solange Vieira, a diretora-presidente da Anac, que tem tratado o assunto com seriedade e de forma louváveis.