TAM E GOL TAMBÉM PRECISAM DE BILHÕES

 

Nunca os governos gastaram tanto para dar impulso á recuperação das economias de seus países, que apesar das tantas variáveis inventadas pelos técnicos, dependem principalmente do emprego, da produção e do comércio. O trio, por sua vez, precisa contar sobre o fluxo de financiamentos privados ou na ajuda de bancos oficiais.  Sem eles faltou oxigênio para a economia mundial e estourou a tragédia que estamos vivendo.

 

A tempestade atingiu praticamente todos os setores, que em geral estão sendo amparados pelos bilhões que os governos decidiram dedicar-lhes. Mas mais uma vez, junto com poucas outras, coube á indústria de transporte aéreos o papel de Cinderela. No Brasil, além das facilidades de financiamento pela compra de aviões Embraer concedidas á Azul pelo BNDES, ninguém ainda pensou na necessidade ou na conveniência de oferecer apoio á aviação comercial, ás voltas com balanços trimestrais terríveis, alimentados por custos operacionais em aumento e pela redução do fluxo de tráfego. E desta vez, a causa da crise não foi algum problema conjuntural brasileiro ou a incapacidade gerencial de executivos nacionais . Pelo contrário, aqui a conjuntura é, sob vários aspectos, melhor que na maioria dos países europeus e asiáticos, para não falar dos Estados Unidos. Mas o setor aéreo sofre as conseqüências de todas as crises econômicas e não somente dos problemas que afetam o país onde as empresas operam, pois para cobrir seus custos precisa da demanda e ela está diminuindo porque o export-import caiu, se reduziram as relações comerciais e os executivos, entre outros segmentos da população, viajam menos para tratar de negócios. Até a Southwest, aérea low cost modelo e recordista em balanços positivos, fechou o primeiro trimestre deste ano com US$ 91 milhões de prejuízo, enquanto no mesmo período do ano passado havia obtido lucro de US$ 34 milhões.  Atualmente a crise do setor acumula na mesma angústia quase todas as rotas do mundo, causando a muitas empresas perdas de bilhões de euro ou de dólares. A única diferença, aqui, é que Gol e Tam perderam, cada uma, mais de um bilhão de reais.

 

O que a indústria gostaria, e precisa, é que o Sindicato que representa ás companhias aéreas, no momento atual fique menos preocupado com as providências da Anac que estão relacionadas com a liberalização do tráfego e das tarifas, e dedique seus estudos á elaboração de um documento para iniciar um dialogo com o governo visando demonstrar que os transportes aéreos são o sangue da estrutura social e comercial do país e que sem eles e sem poder contar num serviço ferroviário desenvolvido, as indústrias e o país enfrentarão tempos sempre mais difíceis. Talvez uma fatia dos US$ 4,5 bilhões emprestados ao FMI e das centenas de bilhões distribuídos para reforçar as caixas dos bancos, se dedicada á indústria de transporte aéreos deixaria mais otimistas Constantino Jr, da Gol, e seu colega presidente da Tam, David Barioni.

 

Esse dinheiro poderia até servir para pagar os salários dos empregados das aéreas que, discretamente, estão sendo demitidos e estão se juntando aos milhares que perderam o trabalho na Vasp, na Transbrasil e na Varig, muitos sem receber as indenizações trabalhistas. O dinheiro poderia ser vinculado á suspensão das demissões que, em caso contrario, no curto prazo deverão ser feitas para reduzir os custos, em vista da diminuição do tráfego. Ou poderia suspender por prazo determinado os impostos do “custo Brasil”, como já tem feito em outros setores eliminando vários tipos de taxas para que preços menores incrementem as vendas e dêem oxigênio ás indústrias.

 

Ou o governo poderia exigir que o preço do combustível de aviação vendido pela Petrobrás fosse menos abusivo, não incorporasse despesas de transporte marítimos que não existem e se baseasse no custo real da produção e do refinamento. Para tanto, para evitar que o colosso petroleiro demitisse mais funcionários para compensar essa perda de receita, o governo poderia descontar o “prejuízo” do valor de suas ações no capital da Petrobrás. Os contribuintes não se queixariam por mais esse apoio á empresa surgida de lendário sonho nacionalista, em troca de sua colaboração com um setor importante como os transportes aéreos. Pois afinal, com os preços dos combustíveis nas alturas, além das empresas aéreas, também os donos de carros, ônibus e caminhões acham que não é justo que, se o petróleo é nosso, o lucro seja só da Petrobras.

 

E as encomendas de aeronaves cuja entrega está sendo postergada ? Quem transfere a data perde a vez e, quando o tráfego voltar ao normal, terá o problema da busca de aeronaves disponíveis, que no exterior as empresas maiores já se garantiram e as restantes deverão aguardar, pois Boeing e Airbus reduziram a produção e precisarão de alguns anos para atender a todas. Obviamente dando a precedências ás que encomendaram mais aviões, cem ou mais de uma só vez.

 

A aviação comercial brasileira teve épocas de excessos protecionistas e outras de injustiças. Atualmente  está tendo suas necessidades de sobrevivência ignoradas.Os excessos vieram em particular na época dos governos militares, que protegiam além dos limites tudo o que era nacional e até andaram favorecendo a Varig. Desperdiçaram ás vezes milhões, em planos de rodovias que deveriam atravessar o país, combateram os sindicatos e se tornaram inimigos do progresso social. Mas ouve também presidentes que conferiram dignidade de embaixatriz á aviação comercial, subsidiada não somente para que levasse na cauda das aeronaves as cores do pais, mas também para hospedasse nas poltronas de primeira classe os seu governantes. E´ uma política, aquela adotada para as empresas aéreas com aparências de sanfona, se abrindo para dispensar incentivos e recomendados, ou se fechando para emitir ás vezes os sons da indiferença, outras aqueles do protecionismo. Enquanto outros andam procurando fantasmas, quais as empresas estrangeiras na espreita, aguardando os céus abertos ou a liberdade tarifária para dominar o mercado nacional, ou medindo o índice exato de participação acionária de investidores estrangeiros nas empresas aéreas, como se esses capitais fossem armas contra a independência do país e não incentivos para o seu progresso.

 

Concluindo: se a crise apertar e os capitais das aéreas ficarem reduzidos demais, haverá alguma iniciativa governamental que, com o apoio dos sindicatos de classe, visará ajudar essa indústria na difícil travessia de uma crise econômica e financeira como nunca houve, desde que no início do século passado os primeiros aviões começaram a voar?