T R I M O T O R

(Esta e a segunda “lembrança” de Adilar André Cossa, que ele decidiu registrar numa espécie de diário, depois de passar 27 anos, um mês e 14 dias na Varig, dos quais 14 atuando como engenheiro de vôo. Aeroconsult a está publicando, por achar que essas imagens profissionais refletem uma época que nunca mais voltará. E que, agora que tudo mudou, um pouco de saudade “cai” bem).

        

  A partir da utilização nas aeronaves de propulsores turbo-helice, jato puro ou os modernos e econômicos turbo-fan a falha de um motor na qual seja necessário desliga-lo é um acontecimento muito raro, em cerca de treze anos tive seis perdas (pane) que ocasionaram corte em vôo.

Um destes cortes que aconteceu na ponte aérea pelos procedimentos dos manuais de vôo do Electra deveria ter terminado com o corte de dois motores em vôo, fato que nos trinta anos de uso do mesmo em todo mundo aconteceu em raríssimas ocasiões. Estávamos indo para o Rio num belo dia de primavera com noventa passageiros quando a cerca de quinze minutos do pouso soou o alarme fogo no motor numero dois, imediatamente cortamos o mesmo e alteramos o nosso destino para o aeroporto do Galeão por não ser possível o pouso no Santos Dumont com motor inoperante devido á pista ser muito curta.

 Avisamos o controle do problema, também solicitamos que os bombeiros fossem acionados, pois apesar do alarme de fogo ter apagado após o corte existia o risco de haver mais problemas quando o trem de pouso fosse baixado o que foi feito a menos de trinta segundos do toque, felizmente não havia fogo, assim que os passageiros desembarcaram entregamos o avião para manutenção que examinou o motor e não encontrou problema no motor, nos informaram que provavelmente a falha foi do sistema de alarme e que trocaram a caixa de controle, não gostamos da solução pois num caso como este e importante fazer teste com o motor funcionando (run-up) , deram ok e solicitaram para nos levar o avião vazio de volta para São Paulo.

 Decolamos e aparentemente estava tudo normal até vinte minutos quando o motor quatro passou apresentar fortes oscilações de RPM o que no Electra e um problema grave, pois pode acontecer disparo da hélice, aumento da rotação sem controle ao ponto de ocasionar danos estruturais (quebra), expliquei ao Comandante Carlos que neste caso era melhor cortar o motor pois as oscilações estavam fora dos limites aceitáveis porem ele preferiu tentar mante-lo funcionando , apesar de reduzirmos a potência as oscilações continuaram num nível preocupante ponderei que como estávamos sem passageiros não haveria risco em voar com um motor a menos, e que de acordo com os manuais de vôo o mesmo não poderia ficar ligado a não ser que já estivéssemos e emergência. O que não era o caso mesmo assim o Comandante não mudou opinião e assim prosseguimos até a aproximação final no aeroporto de Congonhas quando soou novamente o alarme de fogo no motor dois, imediatamente o cortamos e mudamos o destino para Guarulhos e lá fomos nos com um motor cortado e outro maluco, pousamos sem problemas apesar dos bombeiros estarem presentes novamente.

Entregamos os problemas para manutenção resolver, enquanto estava-mos aguardando condução para voltar para casa, o Comandante Carlos comentou: Adilar viu como foi bom não ter cortado o motor quatro, teríamos ficado bimotor, olhei bem serio para ele e disse: perdemos a oportunidade, não entendi foi a sua resposta, ai eu completei: perdemos a oportunidade de ficarmos conhecidos como uma das pouquíssimas tripulação que operaram e pousaram o L188 bimotor com pane real.

Faz parte do treinamento no simulador a operação bimotor e é um procedimento previsto acontecer e pousar em segurança mesmo com a aeronave lotada, no nosso caso por estarmos próximo a pista teríamos chegado sem problemas mesmo se estivesse apenas um motor operando.