SOBRE DESCONTOS E CONCORRÊNCIA

 

A Agência Nacional de Aviação Civil, Anac, acaba de anunciar que desde ontem, sábado dia 1º de março, as normas tarifárias referentes aos descontos sobre o valor de referência das passagens aéreas, para viagens do Brasil para outros países da América do Sul, atualmente limitados a 30%, serão gradualmente e profundamente alteradas. Serão permitidos, nesta primeira etapa, descontos de até 50%, que poderão chegar a 80% em junho. A partir de setembro, serão abolidas todas as limitações, ficando cada empresa livre para cobrar qualquer tarifa. Numa segunda fase, supostamente ainda neste ano, a Anac liberaria as tarifas que estão sendo aplicadas pelas empresas aéreas nacionais e estrangeiras que operam vôos do Brasil para a Europa.

 

A iniciativa mereceu os aplausos de quem trabalha no turismo, pois é opinião geral que tarifas menores significarão mais pessoas viajando pela América do Sul, abrindo mais oportunidades de trabalho, ocupando mais leitos de hotéis e consolidando um tráfego regional que, até agora, estava limitado pelo valor das tarifas cobradas no Brasil, em muitos casos mais elevadas daquelas em vigor nos países vizinhos. Também Gol, Tam e VRG teriam gostado da iniciativa da Anac, que a nosso ver mereceria uma analise mais detalhada dos custos a cargo das aéreas, cuja elasticidade é sem dúvida bem menor que as reduções tarifárias agora aplicáveis.

 

Voltamos assim aos raciocínios sobre rentabilidade mínima que, há várias décadas, era motivo de preocupação para os técnicos da IATA, a Associação Internacional que atualmente reúne cerca de 250 empresas aéreas do mundo inteiro. Nos anos ´60 e ´70, vale lembrar, a IATA até possuía um escritório no Brasil para controlar se aéreas e/ou agências de viagens, estavam cobrando dos usuários as tarifas publicadas, vigentes em cada rota. E as empresas infratoras, que os inspetores procuravam aplicando truques que chegavam até pedidos de emissão de chamados test-tickets, estavam sujeitas a multas que chegavam a 25 mil dólares e eram descontadas diretamente nos balanços mensais das aéreas, elaborados pela Clearing House, a caixa de compensação da Associação.

 

Com esses controles a IATA queria evitar que, por quaisquer motivos, inclusive para enfrentar as concorrentes, as empresas cobrassem tarifas inferiores àquelas fixadas para garantir um retorno mínimo de cerca 6% nos vôos com aproveitamento médio em volta de 60% . E com tudo isso, essa rentabilidade, supostamente garantida por complexos cálculos tarifários, era uma meta que poucas aéreas conseguiam alcançar. São tantas as variáveis que influenciam as operações aéreas, que a cada fim de mês, ainda hoje, a rentabilidade é flutuante, e superar o break-even com essa margem ideal para a indústria permanece como o maior desafio para muitas rotas. Apesar de 6% ser um percentual de lucro absurdamente baixo para a maioria de outras atividades produtivas.

Depois veio a liberalização, mas foram raros os paises nos quais as empresas nacionais, em particular as chamadas “de bandeira”, não recebiam (e ainda recebem) subsídios diretos ou camuflados, que integram suas receitas ou as ajudam a enfrentar a concorrência com tarifas competitivas. Ainda na semana passada, a Ryanair encaminhou à Comissão Européia uma queixa contra o governo da Holanda, por não cobrar da KLM uma taxa sobre passageiros em transito no aeroporto de Amsterdã, que totaliza US$ 594 milhões ao ano.

 

No Brasil, país que se destaca pelas inúmeras formas de subsídios que União e Estados costumam distribuir, o setor da aviação comercial foi em raros períodos contemplado com tais benesses. Nas épocas em que existiram, favoreciam em particular as linhas regionais ou vagamente consideradas essenciais para a integração nacional. Além daquelas para compensar às aéreas, com destaque para a Varig, pelas perdas anunciadas em rotas internacionais de suposto interesse político ou comercial do país, como aquelas que cruzaram o Atlantico, para aterrissar em países de idioma português, quais a Angola e o Mozambique.

 

Pois bem, aparentemente sem um estudo sobre custos e receitas, e sem considerar as ponderações que aparecem no balanço 2007 da Gol, relacionadas com a redução dos lucros apesar do aumento das receitas, a nova Anac tomou a audaz decisão de abrir o cofre dos descontos tarifários, que no passado foram até objetos de ações punitivas e do DAC. Aparentemente, a razão principal foi o fato que na Argentina uma passagem de ida-e-volta entre Buenos Aires e São Paulo pode ser adquirida por US$ 205, enquanto seu preço de venda no Brasil pode chegar a US$ 405. Informação essa, divulgadas por um diretor da Anac, que não foi confirmada quando solicitamos de um agente de viagem de Buenos Aires as tarifas cobradas pelas três principais aéreas na rota para o Brasil: a Aerolineas Argentina e a VRG pediam o equivalente a R$ 347; a Tam R$ 352.

 

Em todo caso, se há grande diferença, deve haver um porque. Seria o fato que o dólar no Brasil é desvalorizado; que a Aerolineas Argentinas recebe ajuda governamental e, para competir, pode aceitar uma tarifa que teoricamente não cobre os custos operacionais; que as aéreas brasileiras, para lucrar milhões, gostam de tarifas maximizadas, quando não aplicam as chamadas “low fares” ou que, na Argentina, as empresas aéreas não são oneradas pelo mesmo número de impostos e taxas sobre custos e sobre receitas que representam, por um total de 35%, o chamado custo (tributário) Brasil?

 

Considerando apenas a última pergunta, se o governo não alterar para menos o peso da carga tributária, nunca a Gol ou a Tam estarão em condição de reduzir suas tarifas nas rotas sul-americanas nos porcentuais anunciados. Inclusive porque, com um corte de 80% , uma passagem São/BUE/São de US$ 405 passaria a custar cerca de 80 dólares, ou seja menos que uma Rio/São Paulo. Ainda mais com a escalation dos custos operacionais, forçada pelo preço do petróleo, mais caro aqui que no exterior.