INCOGNITAS
DO SETOR AÉREO, ESSE DESAMPARADO
Três empresas menores leram
o artigo publicado domingo passado no site Aeroconsult, que evidenciava a
necessidade de auxiliar financeiramente a indústria de transportes aéreos, e
nos enviaram e-mails de apoio. Mas temos consciência de que essas sugestões têm
alcance limitado, que raramente chega aos setores envolvidos e , quando chega,
seus efeitos não são comparáveis com aqueles de um artigo publicado nos
principais jornais do país. Aliás, na grande maioria dos casos, o seu conteúdo
é ignorado, salvo se algum executivo sensível achar oportuno assumir e
desenvolver alguns de seus conceitos mais válidos.
O problema da ajuda ás empresas
aéreas, até agora foi ignorado pela maioria dos governos, não por falta de fundos,
mas porque o alcance econômico desta indústria privada erradamente é
considerado restrito e de implicações sociais limitadas. Somente na emergência
provocada em 2001 pelos ataques terroristas, o governo americano achou
necessário apoiar financeiramente as aéreas
Atualmente, depois do
estouro da crise econômica e financeira mundial, a situação da indústria de
transporte aéreos ficou bastante precária. Começou no início do terceiro
trimestre de 2008 quando o preço do petróleo subiu até cerca de US$ 150 ao
barril e fez varias aéreas recorrerem ao hedge por prazo determinado, para
limitar as conseqüências da escalation, fixando
com as produtoras cotações do combustível supostamente convenientes. Mas a forte
diminuição da demanda, depois da redução das atividades econômicas
internacionais, provocou uma caída de preço vertiginosa. Com o petróleo há
meses em volta de
E com a crise veio a
contração da demanda, que neste primeiro trimestre, segundo a IATA, em rotas de
elevado potencial já alcançou ou está próxima de 10%. Assim, depois das
dificuldades para reduzir os custos operacionais, as aéreas enfrentam agora a
necessidade de contrair a oferta de assentos, diminuindo as freqüências
semanais, cortando rotas, substituindo aeronaves maiores com equipamentos de
menor capacidade. Mas enquanto a rentabilidade operacional já foi obtida por
várias aéreas, os custos gerais (inclusive os dos leasing pagos por aeronaves
agora paradas e pelos salários de comissários e funcionários de terra
excedentes) continuam a pressionar os balanços. Em 2008, Gol e Tam tiveram
prejuízos de mais de um bilhão de reais cada uma, as ações do setor aéreo se
desvalorizaram e as construtoras de aeronaves, Embraer, Airbus e Boeing em
particular, perderam novas encomendas, tiveram que transferir as datas das
entregas e reduzir o ritmo de produção.
Nessa conjuntura, é evidente
que a crise que aflige a aviação comercial exigiria a intervenção dos governos,
para reconstituir capitais perdidos e disponibilizar fundos para compromissos
de curto e médio prazo. Na segunda-feira passada, a Associação Européia das
Indústrias de “Aerospace and Defence” oficializou o seu apoio aos pedidos da
Airbus e da ATR para que a indústria receba da União Européia e dos governos “
suporte financeiro”, em particular através da implementação de fundos que facilitem
“o acesso das empresas á liquidez para a aquisição de novas aeronaves”.
Mas enquanto o setor está
esquecido, os bilhões oferecidos aos bancos para que possam disponibilizar
financiamentos ás indústrias não estariam sendo distribuídos, tanto no Brasil
como nos EUA, com as facilidades que os governos esperavam e deviam exigir. Assim,
no país ainda há falta do dinheiro que exportadores e importadores conseguiam
na exterior a taxas mais convenientes, enquanto na indústria aérea os maiores
desafios decorrem da necessidade de manter dezenas de aeronaves paradas nos
hangares e milhares de operários especializados sem trabalho. Mas se for
necessário demitir o governo não pode ignorar que isso compromete o futuro das
empresas e sua capacidade competitiva, muito mais que os temidos projetos de
céus abertos ou de fares liberadas. Há os exemplos dos Estados Unidos e da
Itália, entre outros países, onde os governos estão pagando aos recém demitidos
salários que lhes permitem sobreviver até quando serão novamente contratados,
depois que as autoridades chegaram á conclusão que não é justo que uma crise
tão grave, causada por abusos financeiros que estão custando trilhões, penalize
dezenas de milhares de trabalhadores sem culpa. Lá fora, a intervenção do estado
com a concessão de subsídios mensais é considerada um dever, uma questão de
justiça social. Aqui, os poucos meses de salários reduzidos que são pagos aos
demitidos, atendem parcialmente ás categorias mais qualificadas, mas deveriam
ser prorrogados até as readmissões, cuja data não parece próxima.
As falências da Transbrasil,
da Vasp e, praticamente, da velha Varig já fizeram dezenas de milhares de desempregados.
Com estas novas levas, aeroviários e aeronautas confirmariam que são realmente
categorias abandonadas ao destino, representantes desamparados de um segmento
que era integrado por milhares de funcionários especializados. Os supérstites,
sempre menos numerosos, olham temerosos para o futuro, depois que as duas
maiores aéreas perderam partes expressivas de seus capitais. Temem que, se a
tradição for mantida, elas e outras empresas menos poderosas serão as próximas
vitimas do cataclismo mundial, pois pouco podem esperar do governo. Talvez somente
a ação firme e esclarecedora dos sindicatos poderia contribuir para orientar as
autoridades a elaborar um plano de apoio á indústria aérea, para evitar a
repetição daquele que, se não houver mudanças na conjuntura, se anuncia como
mais um período de grande turbulência para um setor já muito castigado.