INCOGNITAS DO SETOR AÉREO, ESSE DESAMPARADO

 

Três empresas menores leram o artigo publicado domingo passado no site Aeroconsult, que evidenciava a necessidade de auxiliar financeiramente a indústria de transportes aéreos, e nos enviaram e-mails de apoio. Mas temos consciência de que essas sugestões têm alcance limitado, que raramente chega aos setores envolvidos e , quando chega, seus efeitos não são comparáveis com aqueles de um artigo publicado nos principais jornais do país. Aliás, na grande maioria dos casos, o seu conteúdo é ignorado, salvo se algum executivo sensível achar oportuno assumir e desenvolver alguns de seus conceitos mais válidos.

 

O problema da ajuda ás empresas aéreas, até agora foi ignorado pela maioria dos governos, não por falta de fundos, mas porque o alcance econômico desta indústria privada erradamente é considerado restrito e de implicações sociais limitadas. Somente na emergência provocada em 2001 pelos ataques terroristas, o governo americano achou necessário apoiar financeiramente as aéreas em dificuldades. Assim como o governo italiano gastou alguns bilhões de euro para manter em operação a Alitalia, apesar das normas da União Européia que proíbem essas intervenções. Ou, como aconteceu recentemente na Argentina, a intervenção do governo forçou a organização espanhola que havia adquirido a Aerolineas Argentinas a devolver-lhe o controle da aérea.

 

Atualmente, depois do estouro da crise econômica e financeira mundial, a situação da indústria de transporte aéreos ficou bastante precária. Começou no início do terceiro trimestre de 2008 quando o preço do petróleo subiu até cerca de US$ 150 ao barril e fez varias aéreas recorrerem ao hedge por prazo determinado, para limitar as conseqüências da escalation, fixando com as produtoras cotações do combustível supostamente convenientes. Mas a forte diminuição da demanda, depois da redução das atividades econômicas internacionais, provocou uma caída de preço vertiginosa. Com o petróleo há meses em volta de 48 a 50 dólares ao barril, o querosene contratado, por ter preços mais elevado causou prejuízos elevados a essas aéreas.

 

E com a crise veio a contração da demanda, que neste primeiro trimestre, segundo a IATA, em rotas de elevado potencial já alcançou ou está próxima de 10%. Assim, depois das dificuldades para reduzir os custos operacionais, as aéreas enfrentam agora a necessidade de contrair a oferta de assentos, diminuindo as freqüências semanais, cortando rotas, substituindo aeronaves maiores com equipamentos de menor capacidade. Mas enquanto a rentabilidade operacional já foi obtida por várias aéreas, os custos gerais (inclusive os dos leasing pagos por aeronaves agora paradas e pelos salários de comissários e funcionários de terra excedentes) continuam a pressionar os balanços. Em 2008, Gol e Tam tiveram prejuízos de mais de um bilhão de reais cada uma, as ações do setor aéreo se desvalorizaram e as construtoras de aeronaves, Embraer, Airbus e Boeing em particular, perderam novas encomendas, tiveram que transferir as datas das entregas e reduzir o ritmo de produção.

Nessa conjuntura, é evidente que a crise que aflige a aviação comercial exigiria a intervenção dos governos, para reconstituir capitais perdidos e disponibilizar fundos para compromissos de curto e médio prazo. Na segunda-feira passada, a Associação Européia das Indústrias de “Aerospace and Defence” oficializou o seu apoio aos pedidos da Airbus e da ATR para que a indústria receba da União Européia e dos governos “ suporte financeiro”, em particular através da implementação de fundos que facilitem “o acesso das empresas á liquidez para a aquisição de novas aeronaves”.

 

Mas enquanto o setor está esquecido, os bilhões oferecidos aos bancos para que possam disponibilizar financiamentos ás indústrias não estariam sendo distribuídos, tanto no Brasil como nos EUA, com as facilidades que os governos esperavam e deviam exigir. Assim, no país ainda há falta do dinheiro que exportadores e importadores conseguiam na exterior a taxas mais convenientes, enquanto na indústria aérea os maiores desafios decorrem da necessidade de manter dezenas de aeronaves paradas nos hangares e milhares de operários especializados sem trabalho. Mas se for necessário demitir o governo não pode ignorar que isso compromete o futuro das empresas e sua capacidade competitiva, muito mais que os temidos projetos de céus abertos ou de fares liberadas. Há os exemplos dos Estados Unidos e da Itália, entre outros países, onde os governos estão pagando aos recém demitidos salários que lhes permitem sobreviver até quando serão novamente contratados, depois que as autoridades chegaram á conclusão que não é justo que uma crise tão grave, causada por abusos financeiros que estão custando trilhões, penalize dezenas de milhares de trabalhadores sem culpa. Lá fora, a intervenção do estado com a concessão de subsídios mensais é considerada um dever, uma questão de justiça social. Aqui, os poucos meses de salários reduzidos que são pagos aos demitidos, atendem parcialmente ás categorias mais qualificadas, mas deveriam ser prorrogados até as readmissões, cuja data não parece próxima.       

 

As falências da Transbrasil, da Vasp e, praticamente, da velha Varig já fizeram dezenas de milhares de desempregados. Com estas novas levas, aeroviários e aeronautas confirmariam que são realmente categorias abandonadas ao destino, representantes desamparados de um segmento que era integrado por milhares de funcionários especializados. Os supérstites, sempre menos numerosos, olham temerosos para o futuro, depois que as duas maiores aéreas perderam partes expressivas de seus capitais. Temem que, se a tradição for mantida, elas e outras empresas menos poderosas serão as próximas vitimas do cataclismo mundial, pois pouco podem esperar do governo. Talvez somente a ação firme e esclarecedora dos sindicatos poderia contribuir para orientar as autoridades a elaborar um plano de apoio á indústria aérea, para evitar a repetição daquele que, se não houver mudanças na conjuntura, se anuncia como mais um período de grande turbulência para um setor já muito castigado.