SERÁ TODO
AZUL O FUTURO DA NOVA AÉREA ?
Azul Linhas Aéreas é o nome escolhido para a empresa que o empresário Davis Neeleman está
organizando e que tem seu debute nos céus do país previsto para o início de
2009. Coincidência ou não, “Azul” em português corresponde a “Blue” em inglês,
ou seja: Azul Líneas Aéreas é
praticamente a tradução de Jet Blue, a
empresa aérea da qual o mesmo Neeleman foi presidente.
Esta homonímia foi decidida
no last minute , quando a pesquisa na
internet dava Samba Linhas Aéreas como
ganhadora das preferência dos participantes e Azul se encontrava em segundo lugar, ou o nome já estava no bolso
de Neeleman, decidido a repetir no Brasil, sem erros, sua aventura americana? Qualquer que seja a resposta, deve ser
salientado que a competição (com prêmio ao ganhador) para a escolha do nome,
foi um achado promocional, uma idéia inteligente para divulgar um projeto supostamente
dedicado a novos segmentos de passageiros potenciais, que criou um vinculo
virtual com a nova empresa aérea, talvez válido na hora de viajar.
Sem contar a propaganda
gratuita em jornais e revistas, coisa bastante rara, difícil de conseguir no
país onde a JetBlue opera. A imprensa
não poderia ignorar o fato, inclusive por que mais tarde haverá anúncios a
pagamento para divulgar a chegada e as operações da Azul, mas não há duvida de que a propaganda gratuita esteve bem
acima da média. Ocupando espaço e destaque incomuns, desde o dia
Quanto ao projeto, por
enquanto carece de melhor definição do esquema de rotas, das características
dos serviços e da estrutura da aérea para utilizar os 400 funcionários que entende
contratar. Até agora foi divulgado apenas que a Azul operará, em seu primeiro mês de atividade, com os três aéreos
que lhe foram prometidos pela Embraer, com a garantia de que, sucessivamente,
os 33 que faltam à encomenda de 36 serão entregues um a cada mês. Ou seja, até
o fim de 2011. Essas entregas parceladas representam um freio considerável à
expansão da aérea que, na delicada fase inaugural, concentrará promoção e
publicidade sobre poucos vôos, operados por uma mini-frota cuja capacidade
total supera de pouco os 300 assentos. Será esse passo a passo operacional benéfico
para o lançamento de uma aérea debutante, ou faltaria o impacto gerado por uma
estrutura mais ampla, na qual uma frota maior logo comprovaria sua eficiência ?
Poderia esse pinga-pinga ser modificado se
Neeleman fosse recorrer ao prestígio que tem nas altas esferas do Ministério da
Defesa e na própria Embraer ( da qual será o primeiro e único cliente
brasileiro ) para acelerar os tempos das entregas ? Com os compromissos
crescentes da empresa construtora, parecem poucas as chances de alterações no timing, ficando como hipótese não
descartável o recurso ao leasing.
Outras incógnitas aparecem
no caminho da Azul que não pode
esquecer que estará enfrentando duas congêneres como a Gol e a Tam, com 90% do tráfego
nacional em suas mãos. Seu embrionário plano de marketing, teria como objetivo
conquistar a ampla fatia de brasileiros residentes em cidades médias e pequenas
que nunca voaram, lhe oferecendo ligações diretas, a preço baixo e substituindo
com “snacks” e gralhados as barras de cereais que a Gol distribui a seus passageiros,
segundo declarações do vice-presidente operacional, Miguel Dau. Não faltaria
experiência ao ex-comandante da Varig, para contar algo mais sobre como atuará nessas
“rotas alternativas” e “nichos pouco explorados pelas maiores”, que no passado
eram o objetivo declarado de uma suposta integração nacional e hoje são
identificadas como rotas regionais, cuja rentabilidade ainda alimenta os sonhos
frustrados de aéreas menores. Será de competência do Comte. Dau estruturar
rotas e ao marketing evidenciar o lado lucrativo desse tipo de operações. Não
lhe falta experiência, depois de anos de vôo na velha Varig, além de ter
ocupado a vice-presidência da Apvar, (a agora rebelde Associação de Pilotos), de
ter atuado na atualização dos serviços de cargas da aérea e, mais recentemente,
gerenciado as sobras da mesma, lutando contra dívidas e credores. Ele até organizou
outra mini-aérea, a Fly, que ainda aguarda os R$ 40 milhões que lhe permitiriam
de voar por conta própria e não somente a serviço de eventuais fretadores.
Por tudo isso, se um comitê
de entendidos em aviação fosse chamado a julgar os elementos básicos da Azul, é provável que acharia quase
quixotesca a decisão de Neelman de enfrentar duas aéreas bem radicadas no
mercado doméstico, tirar-lhes usuários e convencer mais humildes clientes
potenciais a voar com a sua empresa, em número suficiente para garantir pelo
menos 70% de aproveitamento das aeronaves Embraer 195. Talvez, esse comitê se
declararia incapaz de prever se viagens sem conexões, tarifas inferiores
àquelas da Gol e a troca de frugais barra de cereais por uma comida mais
decente, dariam à Azul o combustível
financeiro para continuar voando com lucro.
Mas se é verdade, como o
próprio Neeleman, ex-presidente da JetBlue
admite, que ele tem “perfil mais visionário, diferente de um pragmático
operador de linhas aéreas” e que aqui no Brasil ele não será derrotado nem
surpreendido, pelo mesmo problema que teve na outra aérea (cujo Conselho o
afastou do cargo de presidente, algo que “foi horrível e inesperado”, enfatiza),
se este executivo de 48 anos, de personalidade incomum, apostou os dólares
ganhos na “outra” nesta nova empreitada (a terceira aérea de sua vida), seria
irracional supor que mais tarde a sombra do insucesso poderá amargar seu novo investimento.
Todavia é difícil também acreditar que o sucesso da Azul Linhas Aéreas será fácil e imediato, pois além de superar os
obstáculos mais evidentes, será necessário que a aérea resolva adequadamente o
problema de composição de seu núcleo diretivo, reunindo executivos competentes
e atualizados , pragmáticos em relação aos desafios técnicos que os aguardam,
mas capazes também de acompanhar o presidente em seus eventuais devaneios visionários. Aqui, não sobram no
segmento aéreo nomes ilustres atualizados, mas existe a opção de recorrer a alguns
executivos de meia idade com boa formação técnica. Seria um erro confiar
encargos de destaque a elementos que vem de fora, se antes não demonstrarem ter
a capacidade de absorver e praticar, junto com o idioma, as peculiaridades da
indústria aérea do país.