SER OU NÃO SER UMA EMPRESA PIONEIRA
As informações que divulgamos na semana passada,
sobre os contatos entre a titular da Sudene, Paulo Fontana e a diretoria da
Azul, provocaram surpresa. Parece que a indústria não imaginava que num prazo
tão curto, a partir de seu primeiro vôo realizado em dezembro passado, a nova
aérea já estaria olhando para outra área, para concentrar nela, ao norte
daquelas já escolhidas para seus vôos diretos, uma rede complementar de rotas
com características regionais.
A
notícia foi publicada pelo Diário do Nordeste, e a Superintendência do
Desenvolvimento do Nordeste, Sudene, confirmou que está fechando as negociações
com a Azul para organizar uma malha de serviços aéreos entre as principais
cidades da região e, numa fase sucessiva, operar rotas menores. A aérea terá o
apoio do Banco do Nordeste, isenção de 75% do Imposto de Renda, alíquotas
menores de ICMS sobre o combustível e uma frota dedicada exclusivamente á
região, formada de seis a oito aeronaves Embraer com capacidade de 106
passageiros.
Numa época de vôos sempre mais extensos e de
aeronaves sempre maiores e velozes, a Azul traz de volta no Brasil os
esquecidos vôos regionais. Nada de surpreendente, pois seu fundador, David
Neelman, em varias ocasiões, antes de se instalar no país, declarou sua
confiança na existência de mercados esquecidos, de passageiros de classe C na
espera de viajar de avião, da competição viável dos serviços aéreos com os
rodoviários.
O Nordeste poderia ser a sua terra prometida,
considerando, como salientou o titular da Sudene, que atualmente “para viajar
de Teresina a Recife, por exemplo, chega-se a gastar 24 horas, uma vez que não
existe vôo direto”. Assim, voltarão os vôos regionais, de duas categorias:
entre capitais do Nordeste e entre cidades menores de Estados da região.
Não
se falava deles há décadas, desde o Decreto 76.590 que em 11 de novembro de
1975 criou os Sistemas Integrados de
Transporte Aéreo Regional, Sitar, que englobariam linhas de terceiro nível
operadas por cinco empresas. Na época o objetivo da iniciativa era atender
localidades menores, cujo potencial de tráfego era supostamente insuficiente
para propiciar rentabilidade ás linhas. Por isso, para animar as empresas
maiores a dedicar vôos de aeronaves pequenas a essas rotas, o governo decidiu
conceder incentivos proporcionais ás distâncias e ao aproveitamento.
E
para tanto, em
Enquanto
isso, no Norte a TABA, Transportes
Aéreos Regionais da Bacia Amazônica, investia a receita da venda do Lóide Aéreo
Nacional á Vasp
Nordeste, Rio-Sul e Votec completam o quinteto de empresas de médio porte (na
época) que se lançaram nos vôos regionais e depois passaram a operar em áreas
maiores, em vista das dificuldades para servirem cidades pequenas, com
aeroportos nos quais, por falta de equipamentos, eram as condições atmosféricas
que permitiam aterrissagens e decolagens, causando serviços problemáticos,
irregulares e sem rentabilidade, apesar do recurso a planilhas com dados as vezes
alterados, visando aumentar a contribuição do governo.
Foi
a Transbrasil que se associou á Votec, com a participação do governo do Estado
da Bahia, para organizar a Nordeste. A
empresa começou a operar no final de 1976 para onze cidades do Estado da Bahia
, que ligava a Salvador com cinco Bandeirantes Emb 110, e a seis cidades de
Minas Gerais. A harmonia não durou muito, pois entre a Bahia e o empresário que
representava Minas Gerais teve início uma acesa disputa acionária, que terminou
em ações judiciárias quando Salvador ficou com apenas um terço das ações e
obteve a desapropriação da maioria dos aviões da frota da Nordeste. E no final,
em
A Rio Sul
Serviços Aéreos Regionais foi uma criação da Varig, da qual participaram uma
empresa de Taxi Aéreo e duas empresas de seguros. Começou a operar em janeiro
de 1977 com aviões Bandeirante e Navajo, teve sua sede no Rio e serviu
principalmente o interior gaucho, com 27 vôos (em 1980) que tinham Porto Alegre
como centro operacional. Mas em 1983, por um equívoco na programação da frota,
a Rio-Sul adquiriu quatro Fokker F-27 de 40 assentos, financiados pelo Banco
Chase, que custaram US$ 6,5 milhões e operavam com baixíssimo aproveitamento,
complicando as finanças da empresa, que mais tarde ressurgiria por algum tempo
nas mãos da Varig.
A
quinta pioneira de vôos regionais foi a Votec,
que começou revisando motores de DC-3, integrou em 1956 o consórcio
Real/Aerovias, operou depois como taxi-aéreo antes de se transformar em empresa
aérea regional,em 1976, com serviços que partiam do Rio de Janeiro. Eles
abranjam uma ampla área, dividida em vários segmentos, que iam até São Luís e
Belém, chegando a totalizar 39 escalas, depois reduzidas a 28 e a 20, quando
foram incorporados á frota de Fokker F-27 e Bandeirantes os helicópteros, para
atender os poços de petróleo da Petrobrás na Bacia de Campos. Mas não foi
poupada pela crise e em 1986 decidiu abandonar as operações regionais, até
formar uma nova empresa.
Da leitura dos breves resumos das histórias dessas
cinco empresas regionais, pode se deduzir que as falhas estruturais dos
aeroportos situados em cidades menores, quando possuem um razoável potencial de
tráfego, foram os maiores obstáculos ao seu desenvolvimento. Essas ligações, há
cerca de 30 anos, faziam parte dos planos do Governo Federal para realizar a
integração nacional, em vista das distâncias que separam estados e cidades
grandes e pequenas. As dificuldades encontradas pelas cinco que se interessaram
nos Sistemas Integrados de Transporte Aéreo Nacional, criados em 1975,
consolidaram o número de serviços operados por ônibus entre as localidades
menores, enquanto as rotas entre capitais e cidades médias e grandes cresceram bastante. Mas as tarifas aéreas elevadas
continuam afastando grande número de usuários potenciais, que por isso
continuam enfrentando viagens de dezenas de horas a bordo de ônibus que, com
freqüência, não oferecem comodidades nem segurança.
Comprimida
entre duas empresas bem maiores dela, que operam um parcial duopólio se
apoiando para bloquear o ingresso de concorrentes, a Azul entendeu que com seus
Embraer de pouco mais de 100 lugares dificilmente se tornará uma aérea maior. E
entendeu que sempre terá vida difícil nas grandes rotas, apesar da
diversificação que oferece com os vôos diretos. Uma vez instalada no país,
abençoada pela Anac e pelo ministro da Defesa, agraciada por ser a única a
utilizar uma frota de Embraer, o que falta a Azul (considerando que suas finanças
são solidas) é um novo tabuleiro para apostar no sucesso. Talvez o encontrou no
Nordeste, se a Sudene cumprir suas promessas.