SEM A
VARIGLOG O PAÍS PERDERÁ TAMBÉM O MERCADO DE CARGAS
Ferve a polêmica em volta
das iniciativas tomadas pela VarigLog e são levantadas opiniões sobre a legalidade
da existência da empresa, que segundo as aparências pode ter nascido da ilícita
união entre um solitário e anêmico espermatozóide nacional e um rico óvulo
importado do exterior. O resultado positivo desse encontro gerou outros entes,
cuja existência legal também está sendo questionada, por motivos nem sempre
claros e desinteressados.
Os juízes procuram a verdade
sobre a importação do óvulo, cujo tamanho desproporcional a lei não permite,
preocupada em evitar que sua maior consistência acabe tirando paternidade e
autoridade ao outro participante do conúbio. Eles investigam e opinam, desconsiderando
a aprovação da Anac, supostamente entendida do assunto, que em nome do governo
federal já havia abençoado o casamento. Poderia uma união de fato, com chancela
federal, ser anulada ?
Tudo veio à luz depois que
os participantes binacionais da união brigaram e se ameaçaram mutuamente, por
óbvios motivos de interesse, motivando a intervenção da Justiça.
Virtualmente, tendo suas
atividades semi-congeladas, perdendo as energias que a haviam levado a soberbos
resultados operacionais, eis que a VarigLog repete o cruel destino da empresa
maior que a havia gerado, estando agora entregue às forças ocultas que, através
da Matlin Patterson, lhe tiram os aviões e a obrigam a praticamente parar suas atividades.
Tudo com o aval da lei ,que ignora o prejuízo para o país de sua forçada saída do rico setor dos transportes de cargas.
Como sempre, deve haver
forças e interesses poderosos na manobra que está afastando, talvez para
sempre, a VarigLog do mercado de cargas aéreas. Vale lembrar que, há quase um
ano, nas mãos habilidosas de um ex diretor da Varig, a empresa cargueira havia
conseguido uma razoável participação de mercado e, se recebesse as aeronaves
que estavam à caminho poderia se transformar na maior do país. Sem dúvidas ela
ameaçava a Absa (que em 2005 teve uma receita de R$ 187 milhões, superior
àquela da VarigLog que chegou a R$ 180 milhões), os setores cargueiros
tardiamente organizados pela Tam e Gol, os carregamentos diários das empresas
estrangeiras e de pequenas nacionais. Estavam na mira da VarigLog milhares de
toneladas de mercadorias e conspícuas receitas. E ainda havia os Correios,
dedicados ao transporte em aéreas nacionais de sua correspondência e das cargas
expressas, interessados mas sem os fundos necessários para organizar sua
própria aérea cargueira, que pareciam procurar uma forma de participação nas
operações da VarigLog.
Aparentemente, a proposta
dos Correios havia sido rejeitada pela Matlin Patterson, que através da Volo
Logistic detêm 100% das ações preferenciais da VarigLog e 20% das ações
ordinárias, com direito a voto, ignorando que se houver necessidade legal de
reestruturar a empresa a vinda dos Correios poderia ser útil para recompor a
participação acionária.
De fato, a entrada da
Empresa de Correios e Telégrafos na VarigLog poderia facilitar o repasse aos
novos participantes brasileiros de parte das ações que, dizem, a Matlin
Patterson indevidamente possui. Por isso, a eventualidade dessa operação deverá
merecer toda atenção, se a batalha judicial entre os sócios brasileiros e a empresa
americana encontrar uma formula que permita à aérea cargueira de voltar a operar
com eficiência.
Mas com ou sem os Correios, seriam grandes as chances
de crescimento para a VarigLog no segmento internacional, onde é a única com
uma frota cargueira com potencial para bloquear os esforços das estrangeiras
para melhor utilizar os porões de seus jatos de passageiros. E no mercado doméstico, que em 2005 movimentou
R$ 1,4 bilhão, a aérea poderá afastar vários competidores com limitada
capacidade de transporte de mercadorias e à cata da correspondência repassada
pela Empresa de Correios e Telégrafos.
Com isso, as companhias
estrangeiras e, em particular, a American Airlines, a Lufthansa e a AirFrance/KLM, tendo que enfrentar uma empresa expressamente estruturada para
transportar cargas, teriam dificuldades
para manter sua participação de mercado nas rotas entre o Brasil e o exterior,
que antes da entrada da VarigLog era estimada em 59%,
teria baixado para 52% em 2006 e,supostamente, crescido novamente no ano
passado devido à parcial ausência da empresa brasileira .
Mas neste momento a VarigLog
tenta, apenas, sobreviver. Seu interventor argentino, indicado pela Justiça, já
teria submetido um plano de reestruturação ao Sindicato Nacional dos
Aeroviários, que todavia não concorda com a demissão de 962 de seus 1.643
empregados, apesar do fato que, da dezena de aeronaves da aérea (das quais
quatro Boeing 757-
Entre as poucas opções, permitindo
à VarigLog excluir os sócios brasileiros, já afastados pela Justiça, e substituí-los
com outros nacionais, inclusive através de fusões, a aérea poderia voltar a
operar com todo seu potencial, e cumprir os compromissos trabalhistas com os
funcionários que pretende afastar. Se não for assim, teremos mais processos de
indenização no setor da aviação civil. E no segmento internacional, também o mercado
de cargas ficará nas mãos das aéreas estrangeiras, pelo menos até que a Absa consiga
ampliar sua estrutura e os Correios, ou outra, conseguirem se organizar.
Entretanto, se a VarigLog
cessar de operar, novamente serão demitidos funcionários, cerca de dois mil, e
perdidas vultosas receitas, proporcionadas por um tráfego de mercadorias que
reflete o fluxo crescente do export-import nacional. Depois da frustração
produzidas pela insignificante presença internacional da VRG, o desaparecimento
da VarigLog, além de mais uma derrota da velha Varig seria
nova demonstração da ineficiente política setorial do governo, totalmente
desinteressado no futuro de sua aviação comercial e no destino dos milhares de
funcionários que perderam e perderão seu trabalho.