QUANDO OS PASSAGEIROS COMIAM CAVIAR

 

“O tempora ! o mores !” escreveu Cícero, para comparar a decadência dos costumes e fustigar a perversidade dos homens de seu tempo. A frase, em tom menor, ainda hoje é usada para comentar as mudanças, para pior, que ocorrem em nossa sociedade da qual, modestamente, focamos apenas um pequeno segmento, aquele do serviço de bordo, para complementar o artigo da semana passada, que Gianfranco Beting dedicou aos passageiros.

 

De fato a maioria dos passageiros de hoje não é comparável aos que viajavam por via aérea há algumas décadas. Mas são muitos, ainda, os que lembram a época e acompanharam a evolução que fez o serviço de bordo passar do prato de caviar à barrinha de cereal. Assim, aos poucos, voar perdeu muitos dos encantos daqueles anos de glórias para aviação comercial. Foi a partir do final dos anos 80 que tudo começou a mudar, para pior.

 

Nos golden years da Pan Am, entre 1950 e 1960, não existiam low fares, nem programas de fidelidade, pois os passageiros formavam quase uma elite, bem trajada, recebida a bordo e servida por stewardesses bem treinadas, educadas, charmosas. Pouco sobrou de tudo isso em nossos tempos. Até os poucos que viajam em primeira classe , nos vôos que ainda a oferecem, embarcam com freqüência de blue jeans e de sapatos de tênis. E as comissárias nem sempre tem fino trato e se dedicam aos passageiros com classe e carinho. Nos aviões Clippers da aérea americana, que faliu em 1991, havia até sala de jantar, sala de estar, vestiário, algumas camas. Seu serviço de primeira classe deluxe oferecia jantares em pratos de porcelana, guardanapos de linho, e incluía caviar, champanhe francês, carnes preparadas nas galleys e cortadas nos carrinhos, diante do passageiro. Um verdadeiro ritual, que Ruben Berta, importou e melhorou na Varig, onde o churrasco fatiado na hora conquistava os viajantes estrangeiros, a partir da inauguração do vôo para Nova York, no qual passou a competir com a Pan Am, apesar do parentesco que ligava as origens de sua companhia à aérea americana. E aí se viu que serviço à brasileira era outra coisa. Por isso, em poucos anos, a Varig captou 66% do tráfego de e para os Estados Unidos. As tarifas de primeira estavam na época em volta de US$ 700, hoje equivalentes a mais de US$ 5 mil, os uniformes eram assinados por Pucci e por outros alfaiates na moda e os salários das aeromoças compensavam os esforços da viagem e os problemas íntimos que, com o aumento do número de vôos e sem a pílula, estavam alterando seus ciclos. Elas cuidavam de tudo, ofereciam o pequeno e fofo travesseiro, a água em copo de cristal, o sorriso, a cortesia extrema. Hoje, o treinamento intensivo nem sempre consegue transmitir às novatas a força para se entregarem totalmente às funções, como se participar de vôos de sucesso fosse sua missão.

 

Tudo parece tão longe, que certos objetos, uniformes, cartazes, give-aways, dessa época deverão em breve se transformar em peças de museu. Centenas de pratos de porcelana, de uniformes, de bolsas, copos, menus, pratos comemorativos, da Pan Am, da Varig, da Panair do Brasil entre outras, já são objetos de trocas e de venda, quando os colecionadores se reúnem e os expõem numa espécie de feira , na qual as peças são tratadas com o carinho dedicado às coisas raras, preciosas, nunca mais fabricadas. Lembranças de épocas nas quais não se pensava em terrorismo e ninguém, no embarque, procurava armas até dentro dos saltos de sapatos dos viajantes.

 

No Brasil, nos anos 50, Varig e Panair do Brasil representavam o prestígio da aviação comercial nacional e se expandiam pelas cidades do mundo, em rotas longas, com várias paradas, que os passageiros adoravam, pois alongavam a permanência a bordo e a evasão do dia-dia, preliminares ao encontro com um mundo novo, uma sensação de felicidade da qual participavam equipes técnicas e viajantes. Havia uma espécie de fraternidade, que unia todos, apesar do marco divisório que separava a classe onde havia talheres de prata, guardanapos de linho, queijos franceses, do resto da aeronave, ainda sem classe executiva.

Depois do desaparecimento da Panair, a Varig ficou com a missão de representar no mundo uma qualidade de serviço à brasileira, elogiado pela imprensa especializada, copiado sem sucesso por congêneres estrangeiras, a não ser algumas asiáticas, mas ainda com diferenças no relacionamento com os passageiros, algo mais distante, mais frio, mais oriental. No Brasil se instaurou o “jeito Varig de voar”, uma espécie de marco nas crônicas da aviação comercial. Mas apagou aos poucos devido às mudanças sociais ocorridas e, em particular, quando as dívidas excederam as receitas, quando começaram os cortes de funcionários, a incompetência tomou conta de setores vitais da empresa, e os que vestiam a camisa ficaram sozinhos, sempre mais desamparados, sem futuro.

 

Hoje o padrão Varig cede lugar ao vigente na Gol e na Tam. A primeira continua firme na sua política de baixo custo, oferecendo baixo nível de serviços a bordo, do qual a barra de cereal se tornou o exemplo mais evidente. A Tam tenta retomar o caminho certo, depois de ter prejudicado a sua imagem imitando a redução de custos da congênere. Entendeu que ainda pode reconquistar as posições de prestígio que perdeu aos poucos, depois do falecimento de seu fundador. Hoje parece dedicada a recompor o valor dos tapetes vermelhos, em terra e a bordo, dentro das limitações impostas pela nova conjuntura.

 

De toda maneira, a época dos golden years, na maioria das empresas e, em particular depois da chegada das low fares, ficou apenas como lembrança. Atualmente é raro encontrar a bordo algo comparável, mas nas executiva e primeira classe, em algumas aéreas européias e asiáticas ainda se encontram serviços bastante refinados.  Em geral, hoje muitas empresas menores competem nos ares apenas para sobreviver e recorrem aos créditos em milhas para conquistar a fidelidade dos usuários, frustrados por encontrarem a bordo o mínimo, algo parecido com o antigo pão e água. Sim, os tempos são outros, e são piores, como dizia Cicerone.