O DIÁRIO DO ENGENHEIRO QUE VOOU POR MAIS
DE 27 ANOS
O engenheiro de vôo Adilar
André Cossa pertenceu a uma elite em extinção e suas memórias, baseadas em mais
de 27 anos de experiência, são algo raro entre os textos que ex-aeronautas
decidem divulgar após a aposentadoria. Raros pelo fato que a matéria não é
particularmente atraente para o público
Ele relata que quando
começou a escrever percebeu que “na
verdade, muito mais que a história da minha vida profissional, estava
levantando uma pequena ponta da cortina que protege os bastidores deste
fantástico mundo da aviação”. Por isso ele dedica alguns capítulos à
historia do nascimento da profissão de engenheiro de vôo e, “pelo que representaram em termos de confiabilidade, eficiência e
romantismo, à história de todos os Electras que serviram a Ponte Aérea durante
muitos anos”.
A Aeroconsult obteve do
autor a autorização para publicar alguns trechos desse insólito diário, talvez
os mais originais, que a partir de hoje vão ser apresentados em semanas
alternadas, se os noticiários do dia-dia não exigirem que sejam comentados
temas de atualidade. Eis o texto:
PRESSA E MEDO DE VOAR
Num grupo de tripulantes, como os da
Ponte Aérea, todo mundo acaba sabendo dos receios e limitações de cada um.
Quando o céu está cavok, isto é sem nuvens, todo mundo é “bom”, porém quando
acontecem imprevistos muitas vezes alguns desabam pelos mais diversos motivos,
principalmente emocionais. Havia um comandante que, quando tinha que voar com
tempo ruim, ficava tão apavorado que desviava até de sombra de nuvem. Como todo
mundo sabia, muitas vezes por brincadeira inventávamos historias para
provocá-lo e geralmente acabávamos xingados. Numa ocasião, estávamos retornando
para São Paulo:na rota enfrentamos uma tempestade e quando passamos pela
lateral de um CB vimos um clarão e em estouro provocados por um raio na janela
do comandante. Após fazermos o cheque de avarias e nada de anormal constatado,
tive que ir ao lavatório para poder dar umas gargalhadas, lembrando sua cara de
pavor.
Na base Rio havia dois comandantes
apressadinhos e que via de regra operavam fora dos padrões estabelecidos pela
Empresa e eram tolerados pela chefia e pelo grupo de checadores, todo mundo
sabia. Porém ninguém tinha a coragem de tentar coloca-los nos eixos, eram
considerados bons pilotos. Confesso que não entendia a razão deste “privilégio”,
sendo que nós, os simples mortais, éramos constantemente vigiados em termos de
padronização.
Eles voavam quase sempre com os motores em
“maximum continuos”, que é a máxima potência que as turbinas podem operar
continuamente. Isto resultava em velocidade maior, porém reduzia a vida útil
dos motores, aumentava consideravelmente o consumo de combustível, também
resultava em stress para o restante da tripulação e aumentava a fadiga
estrutural da aeronave. Raramente pediam a leitura dos cheques, faziam tudo de
cabeça, entravam no avião após os passageiros, normalmente os co-pilotos e o
flight faziam todos os cheques com antecedência para garantir dentro do
possível uma operação segura.
Devido
eu pertencer á base São Paulo, felizmente fiz apenas alguns vôos com estas
feras. Uma vez, para variar, um deles entrou na cockpit e enquanto se acomodava
na poltrona sem perguntar se podia, acionou o botão de partida do motor quatro.
Imediatamente eu puxei de volta cancelando a partida e ele, ao ver que não
tinha nenhum motor girando, acionou o motor três. Novamente cancelei e ele ainda
tentou acionar o motor um. Quando também cancelei este motor, ficou me olhando
com cara de espanto e finalmente perguntou o que estava acontecendo. A pressão
da LPU esta muito baixa, respondi, (uma tentativa de partida com pressão baixa
pode queimar o motor). Depois do problema ser resolvido pela manutenção, para
minha surpresa ele pediu os cheques apropriados e voou de acordo com o padrão.
Porém alguns anos após, quando este mesmo Comandante foi parar com um Boeing
737 nas pedras do aeroporto Santos Dumont, fiquei sabendo que já naquele vôo
ele estava com a carteira de saúde vencida, o que implicaria na perda do seguro
em caso de algum incidente ou acidente.