VOANDO COM A PREMONIÇÃO DE ACIDENTE
A escolha de um novo texto,
nesta serie de autoria do engenheiro de vôo Adilar Cossa, está ficando uma
questão de opção. Por exemplo, há muito material sobre os Electras, que deve
interessar em particular quem os conheceu e quem um dia contará a “full” história
da rotatividade dos equipamentos que foram operados pela Varig. Mas é duvidoso
se existe a mesma curiosidade entre os leitores menos informados sobre a
evolução da aviação civil no país. Para eles, talvez seja bastante saber que
nunca houve amor maior das tripulações daquele dispensado aos Electras. Amavam
a performance de todas as 15 aeronaves que pertenceram á empresa, e ficaram com
enorme saudade quando foram substituídas pelos Boeing 737.E
ainda hoje,décadas mais tarde,esses turbo-hélices não foram esquecidos : num
longo capitulo, no final das memórias do eng.Cossa há a relação de onde cada
Electra foi parar e continuou voando, depois que saiu do Brasil.Entretanto,
nossa opção desta semana é dedicada a um episódio de vôo que, por falar do uso
apropriado das manetes, lembra um acontecimento recente, no qual por estarem em
posições opostas, elas impediram a arremetida salvadora de um Airbus em
emergência.
Na véspera de vôo tive um sonho no
qual uma aeronave da empresa saia da pista durante o pouso jogando o co-piloto
para fora. Para min sonhos são apenas manifestações do inconsciente sem
qualquer relação com acontecimentos reais, porém diferentemente de outros
sonhos, nisto tudo obedecia a uma lógica, parecendo o filme de um acontecimento
real.
Pela primeira vez fiquei preocupado,
pois teria que ir de passageiro de Curitiba a São Paulo para assumir um vôo
numa aeronave do mesmo modelo do sonho (Boeing 737). Assim que entrei no avião
fui cumprimentar o comandante, com a intenção de permanecer na cabine de
comando no assento de extra durante o vôo. Antes mesmo de solicitar fui
convidado pelo comandante Denis, que era colega desde a época do Electra, e durante
o vôo fiquei sabendo que o co-piloto estava em instrução.
Ao nos aproximarmos do aeroporto de
Guarulhos fomos informados que as condições meteorológicas estavam
piorando. Já na perna do vento da pista 27 o controle de aproximação nos
informou que uma aeronave da Transbrasil havia reportado alarme de wind shear
(tesoura de vento) ao cruzar a cabeceira da pista. Esta é uma condição muito
perigosa, responsável por muitos acidentes, antes da instalação em todas as
aeronaves de médio e grande porte de um computador programado para detectar
este fenômeno, que geralmente é de curta duração. Numa especial consideração, o
comandante solicitou a opinião minha e do co-piloto sobre a conveniência de
tentar o pouso ou fazer uma espera aguardando condições melhores. Considerando
todas as variáveis envolvidas, principalmente o fato de estarmos com muito
pouco peso a bordo, com unanimidade decidimos tentar o pouso.
Estávamos na distancia de uma milha
da cabeceira quando soou o alarme de tesoura de vento. O comandante
imediatamente iniciou o procedimento padrão, que é efetuar arremetida com os
motores em potência máxima, isto é com as manetes no batente mecânico. Assim
que os instrumentos indicam "positive rate", que significa em
ascensão o co-piloto checa se as manetes estão realmente no máximo, recolhe o
trem de pouso e á medida que a velocidade aumenta vai recolhendo os flaps. Porém,
desta vez o co-piloto novato “congelou”. Percebendo isto, empurrei as manetes
no batente e bati nas costas dele, apontando para o trem de pouso e coloquei a
mão dele no comando de flap orientando-o quanto á sua operação. Em mais alguns
minutos fizemos outro procedimento e pousamos sem problemas. E quando, em
seguida, pedi desculpas por interferir na operação, “eu que tenho que te
agradecer” foi a resposta que recebi do comandante. Uma semana após estes
acontecimentos, a aeronave fez o seu ultimo vôo, que terminou em acidente.
Estava em casa, quando recebi
telefonema do meu sobrinho dizendo que um avião da empresa tinha saído da pista
e que o co-piloto tinha falecido. Foi somente na hora do noticioso que fiquei
sabendo que a vitima era o meu colega Aparecido.
Muitas versões saíram a respeito do
acidente. Pela leitura do voice recorder, que grava sempre os últimos trinta
minutos de conversação na cabine de comando, ficou claro que o co-piloto alertou
varias vezes sobre as condições desfavoráveis para o pouso, porém o comandante
ignorou os avisos.
Não sei dos detalhes do acidente. O
que posso dizer é que o Aparecido era uma pessoa extremamente disciplinada, em
parte por ter sido formado nos quadros da FAB, antes de ser contratado pela
empresa. Por esta razão sempre acatava as decisões de superiores hierárquicos e
trabalhava rigorosamente de acordo com as normas vigentes. Durante os muitos
treinamentos que fizemos em dupla, nunca o vi baixar o nível, mesmo quando
provocado por alguns instrutores.