POR UMA
HISTÓRIA DA VARIG
Semana passada, no blog Aero
News publicamos um convite para que os ex-executivos e funcionários da Varig
S.A. nós enviassem relatos de experiências por eles vividas na velha empresa,
ou dados sobre episódios pouco conhecidos ou contestados, que ocorreram nas
épocas em que fizeram parte da companhia. Com uma única exigência: evitar
histórias que poderiam ser consideradas ofensivas pelos nomeados, a não ser que
o autor assinasse o texto.
De fato, existem lacunas
enormes na história da Varig, desde a época de
Rubem Berta e, em
particular, nas sucessivas administrações, relacionadas a executivos que, com
competência ou com absoluta mediocridade, assumiram o comando da aérea. Houve
conquistas para a empresa, acertos e criatividade, mas também ocorreram abusos
e provas evidentes de incompetência. Nos anos que antecederam a venda e sua
transferência para a Gol, em muitos casos esses executivos contribuíram para
agravar o tamanho do desastre. As atas de muitas reuniões de alto nível, a partir
dos anos 80, segundo quem as leu e afirma possuir cópias, revelariam a progressiva
gravidade da situação da aérea, as atitudes omissas de muitos participantes e a
existência de eternos conspiradores, dos quais um, em ocasião dos afastamentos
de dois presidentes, revelou suas ambições, até então mimetizadas. Sem contar a
preocupação de “tirar o corpo fora”
de vários diretores, depois de omissões e abusos e de ter contribuído com seus
votos à tomada de decisões que, no médio prazo, se revelaram funestas para a
Varig. Com tantas personagens em cena, tantas versões contrastantes sobre fatos
decisivos, tantos interesses particulares em jogo, ninguém conseguiu até agora
juntar uma história da aérea que seja também um relato de fatos decisivos, numa
versão incontestável, imparcial, objetiva, uma analise das motivações e da
conjuntura política que, antes dos problemas financeiros, determinaram o
destino da aérea. Mais que a cronologia das etapas da glória e da caída da
Varig, das quais já foram divulgados alguns capítulos, mais que as referências
aos pequenos estímulos e as grandes omissões governamentais, mais que citações
de iniciativas e de nomes, de sucessos ou de fracassos, a história da Varig,
para ser verdadeira, deveria focar as atuações de seus interpretes maiores,
seus presidentes, seus diretores, seus representantes no país e no exterior,
pois suas iniciativas e, em particular, seus erros tiveram um efeito cumulativo
que explodiu no início de 1990, mas já fervia nos anos precedentes, coberto por
um véu de otimismo que não amortizou a queda.
A Varig foi uma oligarquia sui generis, sob a aparência de S.A. que
conferiu autoridade máxima a um segundo escalão de executivos às vezes sem
qualificação, sem reprimir quem errava, e que adorava a burocracia, temia as
interferências políticas, chegou a detestá-las, e pouco apoio conseguiu das
autoridades nas horas decisivas, apesar de ter-las obsequiadas.
Sobre a empresa, até a crise
incurável, dominou um poder que nasceu com finalidade assistencial, mas aos
poucos assumiu papel preponderante nas decisões comerciais e financeiras da Varig,
sem possuir todas as credenciais suficientes para tanto. De fato, nascida do
sonho da encíclica Rerum Novarum, a
Fundação Rubem Berta cumpriu sempre suas funções sociais, mas aos poucos, nos
anos 80, uma meia dúzia de diretores seus a transformaram, de entidade autônoma
a serviço da aérea, em dona da Varig e das entidades do grupo. Sua influência
no desastre final não foi determinante, mas do ponto de vista político suas
manobras contribuíram para agravar a posição da empresa frente ás autoridades e
à opinião pública.
Voltando ao convite feito a
ex-executivos e funcionários, para que contassem em relatórios sua experiências
e detalhes de fatos e de pessoas da empresa pouco conhecidos ou merecedores de
ser esclarecidos, recebemos 19 e-mails mas nenhum texto. As mensagens, em
maioria, afirmavam que seus autores possuíam informações de interesse geral,
que poderiam contribuir para esclarecer episódios que nunca foram divulgados na
integra. Mas todos tinham receio de contar detalhes, cuja autenticidade
poderiam ser obrigados pelas pessoas citadas a defenderem
Os leitores dos artigos de
nosso site não terão a possibilidade de conhecer os detalhes desses episódios,
a não ser que seus autores potenciais, antes de nos encaminhar seus textos,
aceitem a condição de se identificar e assumir a responsabilidade por suas revelações.
Mas confiamos que existem muitas outras histórias interessantes e publicáveis,
e esperamos recebe-las dos leitores que as conhecem,em particular se foram por
eles vividas,nos anos de trabalho que
passaram na velha Varig.