O FUTURO INCERTO DAS EMPRESAS AÉREAS

 

A indústria de transportes aéreos foi sempre uma das atividades econômicas mais dinâmicas, tendo nas empresas que a representam a procura constante de atualização, como conditio sine qua non para serem competitivas. Para elas a palavra atualização assumiu um significado total, pois abrange os setores mais diferentes. Desde o mais recente modelo de aeronave, até todos os serviços que compõem um vôo, a partir do momento em que é promovido até o momento do desembarque. E sempre se caracterizou pela tendência a evoluir, coletiva e individualmente, mas com a procura de parte de cada empresa de uma forma própria de atender as instâncias da concorrência, resultante de pesquisas, tradições, avaliação dos custos, meios financeiros, localização das rotas, classes de serviços, entre muitos outros componentes do produto final oferecido.  

 

Os debates para disponibilizar á indústria informações e orientações de natureza conjuntural, sempre encontraram nos meetings da IATA ou nas conferences promovidas anualmente por numerosos institutos especializados em reunirem os mais prestigiosos executivos da aviação comercial, verdadeiros faróis que orientavam as aéreas grandes e as menores para não perderem o rumo das atualizações e do progresso constante. Havia temas recorrentes, que na prática evoluíam e eram adotados pela maioria, e outros de natureza mais restrita, ligados a decisões governamentais ou a acordos bilaterais. Transportes aéreos, em geral, sempre significaram progresso, mas raramente representaram fontes de lucros permanentes: balanços positivos e prejuízos sempre se alternaram. E sem dúvidas, a indústria registrou ao longo das décadas mais perdas que ganhos. Foram muitos bilhões que oneraram as empresas: muitas vezes por causa de erros próprios, operacionais, escolhas erradas de aeronaves, de rotas, gastos excessivos. Outras, devido ás eternas mudanças da conjuntura econômica. Crises aqui e ali, problemas financeiros do país, tensões políticas, custos em elevação, revoluções.

 

Mas nunca aconteceu um drama coletivo parecido com o atual, causado por um bando de executivos domésticos e internacionais e pelas omissões criminosas dos governos que permitiram que eles operassem sem freios. Por culpa deles as economias e as finanças do mundo inteiro, para sobreviverem, vão precisar enfrentar reestruturações penosas, que vão custar o emprego a milhões de pessoas.

 

Nesse novo contexto, fustigada pelos custos operacionais ascendentes e pela diminuição dos embarques, mais uma vez as empresas aéreas estão precisando de se atualizar. Ainda não o fizeram porque a situação não está definida e, em particular, porque os problemas mais sérios devem ser antes resolvidos pelos governos. Na espera, sem prazo para acabar, os transportes aéreos estão perdendo o rumo que parecia certo, antes que o petróleo chegasse a 147 dólares e que dezenas de milhares de usuários tivessem que desistir de viajar por via aérea, por falta de “verba”. Nada menos de 2.300 aeronaves estão paradas, de um total de 20.293 que representam a frota global.

 

A crise da indústria é séria. Muitas empresas ainda não divulgaram seus balanços do quarto trimestre e do inteiro 2008, e entre as que o fizeram os dólares perdidos somam um número alarmante de bilhões. Dinheiro esse que representa gastos a serem pagos, mas ainda não se sabe quem será o oficial pagador. Prioritariamente, o encargo deveria ser de competência dos governos, se é verdade que a aviação comercial é muito mais que apenas um meio de transporte, pois um avião que leva o nome do país de onde decola, na maioria dos países se identifica com a “bandeira”, engloba valores estratégicos, contribui para incrementar as receitas internacionais. E não parece certo que, se a conjuntura mundial é adversa, se esse mesmo avião voa agora com baixo aproveitamento, se os custos ficaram mais caros por causa do preço do querosene de aviação ou de outros componentes operacionais, o ônus das perdas de balanço fique apenas com os acionistas.

 

Mas até o momento nenhum dos faróis que antes orientavam a indústria começou a piscar para as aéreas. Cada uma toma medidas genéricas para reduzir os custos, demite para aliviar a folha de pagamento, suspende alguns vôos, corta alguma rota, transfere a data de entrega das aeronaves que havia encomendadas em outra época, mas sabe que não é suficiente cortar compromissos se continuar faltando o oxigênio que alimenta as rotas, que aumenta os fundos de caixa, que justifica as operações aéreas. Continuará perdendo dinheiro, até que milhões de usuários voltem a voar, pois confiam novamente nos seus empregos e no futuro. Algo que foge ao controle das empresas, que está nas mãos de economistas, financista, banqueiros e governos, enquanto elas sofrem as conseqüências de erros não cometidos.

 

Hoje, lutar para “superar a turbulência” é a palavra de ordem. Em nome dela, passaram em segundo plano as atualizações, os investimentos na melhoria de serviços, as preocupações com os open skies, com as tarifas baixas, com o snack reforçado, com as concorrentes low fare. Até lá, Boeing e Airbus podem ficar com seus novos modelos guardados nos hangares e a Embraer reduzir a produção e o pessoal.

Nunca a indústria de transportes aéreos dependeu tão poço de sua vitalidade, de suas iniciativas promocionais, do prestígio conquistado, da qualidade de serviços. Sim, eles ainda valem na hora da escolha, mas são insuficientes para proporcionar rentabilidade, na carência de usuários. Estão faltando os load factors perdidos, para que a indústria volte a pensar e a confiar no futuro.