OS RISCOS
DOS “OPEN SKIES” COM EUROPA E USA
Não ficou claro, ainda,
depois de quase um século, se a aviação civil é uma atividade que deve ser
protegida de interferências estrangeiras ou se, neste mundo global que agora
inclui a União Européia, o setor aéreo deve ser considerado como um mercado
aberto. Em cada país, as empresas interessadas participariam desse mercado, de
acordo com seus potenciais e escolheriam os nichos, ou seja os outros países
com os quais tem acordos bilaterais, que mais lhe interessam para neles
condensarem seus vôos. E não poderiam opor restrição alguma à vinda desses
países de tantas aeronaves quantas forem de interesse das aéreas que os
representam.
Nos anos 60, quando a
aviação civil começava a se consolidar, depois da longa pausa causada pela II
Guerra mundial, e os fabricantes de aeronaves eram vários, motores novos e
novas estruturas ampliaram as aéreas de ação das companhias. Partindo do DC-3,
ponto de referência obrigatório depois de seus sucessos nas ações bélicas, as
cabines cresceram de tamanho, aumentou o número de passageiros que, com turbohélices
e jatos, encontraram o meio mais rápido para realizar viagens de turismo ou de
negócios.
Crescia ano após ano uma
indústria mundial milionária, na qual cada país queria proteger suas empresas
aéreas, por motivos financeiros e de prestígio, dos ataques de outras mais
ricas que, sem essa defesa, acabariam excluindo as aéreas nacionais, ficando
com o inteiro bolo. Foram inventados os acordos de “pool”, que exigiam uma
participação nos faturamentos bilaterais, de maneira que a empresa com receitas
menores recebesse parte daquelas obtidas pelas congêneres. Os Estados Unidos,
que adoram a liberdade de mercado pelo fato que são eles que, pela sólida
estrutura financeira sempre levavam a melhor, nunca gostaram da formula
inventada pela IATA e das restrições que impediam supostos abusos de poder ou
manobras pouco claras para obter vantagens. Até que a IATA virtualmente perdeu
seus poderes mandatorios, assumindo o papel mais moderado de conselheira e
elaboradora de norma de interesse coletivo.
Entre outros, o controle da
correta aplicação por parte das aéreas das normas tarifária foi delegado a
entidade governamentais e aos poucos novos acordos bilaterais abriam as
fronteiras do céu ao número de freqüência concordadas pelas partes. Com
eventuais facilitações, das quais as mais amplas vieram com o acordo assinado
em 2007 entre os Estados Unidos e a União Européia. Depois de longas discussões
veio o acordo de “open skies”, que permite a qualquer aérea americana operante
vôos regulares, de estabelecer no país escolhido a rota para a cidade de sua
preferência. E vice-versa. Sem restrições quanto ao número de vôos semanais e,
ainda, permitindo que as aéreas assinem contratos de cooperação, incluindo os
de franchising e de leasing.
O “Open Skyes Agreement”
está vigorando desde 30 de março e poderá ser ampliado numa chamada “Phase
two”, na qual serão discutidas mais facilitações, entre as quais se destaca
mais um passo à frente na liberalização. Seria permitido às aéreas dos EUA e da
União Européia de operarem também vôos domésticos, no país por elas escolhido,
e seriam estabelecidas novas normas financeiras, medidas para cuidar do impacto
negativo de mais vôos sobre o meio ambiente, com ênfase particular à segurança
aérea.
Diante de quanto acima
relatado, fica evidente que acordos de céus abertos com a Europa e com os
Estados Unidos poderiam até oferecer mais opções de vôo e tarifas domésticas
inferiores aos usuários brasileiros, mas seriam também uma formula segura para
acabar com Gol, Tam e, também, com a futura Azul.
Sem entrar na “fase dois”, onde
se encontra a concessão de direitos de cabotagem às empresas estrangeiras,
intragável pelos deputados chamados nacionalistas e pelas aéreas domésticas do
país, bastariam as facilitações concedidas na “fase um” para acabar com aviação
brasileira. Em detalhes: para quais outras cidades iriam VRG e Tam, além das
eventuais que estarão operando, num país qualquer da Europa ou dos Estados
Unidos, se estão tendo dificuldades para voar para as capitais e a Gol até
cancelou a operação para Nova York, o pais predileto de quaisquer áreas no
mundo ? E o contrário ? Atualmente há um único grande exemplo de expansão de
uma empresa estrangeira no Brasil : a Tap. Uma após a outra, ela conseguiu
chegar com mais de 60 vôos diretos semanais às principais cidades do país, e
ainda lhe falta o Sul para crescer e oferecer aos usuários as ligações que
somente a velha Varig havia parcialmente operado. Sem ela Paris seria só pela
Air France, Roma pela Alitalia ou Londres pela British.
Podemos imaginar o que seria
do tráfego internacional do Brasil se outras empresas tivessem os mesmos
direitos concedidos à Tap depois que a Varig abandonou as rotas que levavam
suas aeronaves a Portugal. Haveria fartura de vôos vindo do estrangeiro e
saindo do Brasil, entre os quais as poucas freqüências das aéreas nacionais
desapareceriam. Os usuários talvez gostariam, mas seria justo tirar das
empresas que lutam para se impor aquele pouco oxigênio que ainda tem ?
Não seria com certeza a
mesma coisa dos céus abertos sul-americanos. São rotas mais curtas, há poucas
congêneres estrangeiras com frotas e capitais para dominar o tráfego,
Não existe nenhuma aérea
sul-americana melhor que Gol e Tam e nem se fala de cabotagem. Por tudo isso
devemos esperar que a segunda edição da Anac não se deixe levar por decisões
arriscadas abrindo os céus do país a mais uma revoada de aviões estrangeiros:
já é suficiente a besteira feita em outra época, quando foram concedidas 105 freqüências
semanais às quatro companhias americanas, para permitir à Vasp e à Transbrasil
de falir operando nessas rotas.