O caso da VarigLog

DANÇA POLÍTICA EM VOLTA DE ERROS

 

Viraram todos nacionalistas intransigentes, à moda antiga, no caso da VarigLog. Enquanto roda pelas comissões parlamentares, com longas e freqüentes paradas nas prateleiras, o texto que deveria corrigir o Artigo 181 do Código Brasileiro Aeronáutico, motivos nada patrióticos, mas puramente políticos estão destruindo uma empresa de transporte aéreo, facilitam o domínio de várias aéreas estrangeiras no setor de cargas e causam a demissão de centenas de funcionários. O artigo 181 é aquele que veta ao capital estrangeiro uma participação maior que 20% nas empresas aéreas nacionais. Ministros, parlamentares, opinião pública já se pronunciaram a favor da alteração do texto, elevando para 49% esse limite. A nova redação existe, foi discutida e falta somente leva-la à Câmara para discussão e aprovação. Mas fortes pressões de parte de representante de setores ligados às aéreas estrangeiras e de uma nacional, bloqueiam o avanço do projeto. Com ele seriam fáceis para a VarigLog os ajustes acionários necessários para que o capital da Matlin Patterson e dos investidores brasileiros encontrassem o equilíbrio e a transparência desejados.

 

Todavia é comprovado que a composição do capital da VarigLog foi analisada por longas semanas pela Agência Nacional de Aviação Civil, Anac, e por ela aprovada, antes que a aérea recebesse a concessão para voar. De um ponto de vista legal, se a decisão da Anac representava uma autorização do governo, não haveria motivo para reabrir o caso. Pelo contrário, personagens que, direta ou indiretamente participaram dos atos que legitimaram a existência da VarigLog como empresa aérea brasileira de carga, de propriedade da financeira americana Matlin Patterson e de seus sócios brasileiros, Marco Antonio Audi, Luiz Gallo e Marcos Haftel estão na berlinda e trocam acusações mútuas, cuja validade pode ser discutida, enquanto não existem dúvidas sobre os objetivos políticos que as motivam.

 

A Anac nasceu atrasada e foi entregue a executivos incompetentes, que durante algum tempo erraram sem ser afastados, pois havia muitos recomendados de políticos que integravam a suposta equipe. E quando, afinal, o presidente Zuanazzi e a agitada diretora Denise Abreu foram forçados a deixarem seus cargos, empresas e políticos que os apoiavam se uniram para atacara a nova administração, que por decisão do ministro da Defesa, Nelson Jobim, foi confiada à tenaz e dinâmica Solange Vieira.

 

Entretanto surgiram contrastes entre o representante da Matlin Patterson, Lap Wai Chan, e os sócios brasileiros. A firma americana havia emprestado alguns milhões à VarigLog, não incluídos no capital da aérea, que queria de volta depois de constatar que as atividades da empresa prosperavam. Interveio a justiça, foram afastados os sócios brasileiros, depois o chinês e, em seguida, também o interventor, ficando o gerenciamento a cargo de diretor estrangeiro. A aérea perdeu boa parte do mercado de carga, entrou em crise, enquanto 86 milhões de dólares permaneciam bloqueados na Suíça, juntamente com os milhões correspondentes ao valor das ações que a Gol deu em pagamento à VarigLog quando dela adquiriu a velha Varig, agora conhecida como VRG.

 

Houve iniciativas judiciais erradas, intrigas focando pessoas e entidades oficiais que facilitaram o nascimento da VarigLog, mas o que realmente interessa à oposição política, aos inimigos de Nelson Jobim e a quantos ainda esperam poder assumir a presidência do Brasil, após o encerramento do governo Lula, é levantar suspeitas e atacar a candidata mais forte, Dilma Rousseff, atual ministra chefe da Casa Civil. Os 20% ou mais de participação da Matlin Patterson na aérea de cargas foram o pretexto para transferir o caso do campo jurídico para o político, ainda mais quando um dos sócios brasileiros da VarigLog, Marco Antonio Audi, declarou à imprensa que a legalização da aérea havia sido conseguida graça à eficiente e muito bem paga ação do advogado Roberto Teixeira, que superando todos os obstáculos teria conseguido não somente a cheta, como também a aprovação da ministra Dilma Rousseff. Mais que o exorbitante valor pago ao advogado, era importante para a oposição evidenciar na imprensa a amizade e parentesco de Roberto Teixeira com o Presidente Lula. e uma suposta participação da chefe da Casa Civil na remoção dos obstáculos. Foi uma ocasião de ouro para atacar a cúpula do governo e sua candidata à sucessão presidencial.

 

Todo mundo fala de ilegalidades na criação da VarigLog e de interferências para facilitar a entrega a aérea do certificado que a reconhecia como transportadora de cargas. Ninguém lembrou a situação dramática da Varig nas semanas e meses que antecederam os leilões que deviam entregá-la a um novo dono. Nem as intrigas e as circunstâncias que motivaram a venda da VarigLog, empresa que havia sido crida pela Fundação Ruben Berta quando surgiram os primeiros sintomas de crise nas atividades da Varig S.A. Antes do primeiro leilão, somente a VarigLog tinha um valor de mercado avaliado em cerca de US$ 300 milhões, que depois de duvidosa avaliação foi reduzido para US$ 100 milhões, dos quais deveriam ser descontados cerca de US$ 60 milhões de passivos e o 5% representado pela participação do Aerus. Nessas circunstâncias, com um valor de venda praticamente reduzido para US$ 38 milhões, apareceu o oferecimento do fundo norte-americano Matlin Patterson Global Advisers, especializado em compras e vendas de empresas aéreas.e disposto a arriscar um empréstimo inicial de US$ 10 milhões para que a VarigLog continuasse operando. Antes, causando reações injustificadas, a Tap portuguesa havia demonstrado interesse em ficar com a inteira Varig, mas desistiu depois que foi dramatizada a presença do bilionário chinês Stanley Ho entre seus financiadores. Entretanto continuou interessada na compra da VarigLog e da VEM, a subsidiária da Varig dedicada às atividades de manutenção. A Tap já havia conseguido financiamento do BNDES por US$ 41 milhões, valor que posteriormente devolveu ao banco. No final, a Tap ficou apenas com a VEM, visando a integração desses serviços de manutenção com suas instalações de Lisboa. Nesse ínterim, outro investidor, Nelson Tanure, representado pela Docas, havia entrado no jogo de ofertas, mas teve que desistir por não poder comprovar a disponibilidade do capital necessário para a compra.

 

Único supérstite interessado na empresa cargueira, o fundo Matlin Patterson adquiriu em janeiro de 2006 a VarigLog, através da associação com a Volvo do Brasil representada pelos três sócios brasileiros. Em seguida, ganhou o leilão que não teve outros interessados na compra da Varig S.A , aérea que pouco depois repassou, com ingente lucro, à Gol.

E´ mais que evidente que nada disso poderia ter ocorrido sem o beneplácito do governo, cuja única preocupação era não conceder financiamentos à Varig (que teriam resolvido muitos problemas) e estava ansioso para ver o caso encerrado, acompanhando sempre o desenvolvimento dos contatos com compradores potenciais. O aplauso final que Lula concedeu a Constantino Jr. , quando o presidente da Gol foi ao Planalto para confirmar a compra da Varig S.A., é a prova evidente de que, depois de tantas omissões, o governo esperava ter resolvido de uma vez o problema da sobrevivência da maior empresa aérea do país. Como poderia admitir, agora, que por ter sido efetuada através da VarigLog, empresa que teria sido ilegalmente constituída, a compra da velha Varig pela Gol não é legalmente válida ?